Woman reading

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Alexander Deineka

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

o Pinheiro







Não há noite mais importante para um estudante de Guimarães. Mesmo o meu pai, em quem Deus se esqueceu de incluir a costela boémia, acha inconcebível, imperdoável, que um estudante de Guimarães não saiba dizer, mesmo a dormir, a data do Pinheiro. Há muitos anos que não, mas recordo-me de o ver sair nesta noite. Nesta e em nenhuma outra. A não ser que estivesse de urgência. Levava o barrete verde e vermelho da praxe, religiosamente guardado na gaveta durante todo o resto do ano, e em que estávamos proibidas de mexer. O papá sair para uma festa de barulho e excessos, ele que odeia barulho e nunca, por nunca, foi de excessos. Não que na altura soubéssemos já o tipo e a quantdade dos tais excessos. Só muitos anos mais tarde tivemos direito a ver também. Começava com o jantar de rojões, papas, castanhas assadas, regado com vinho verde. No Jordão, naturalmente.
É preciso dizer: esta é a noite de pesadelo de quem trabalha no hospital, sobretudo no serviço de Urgência. Pela hora do jantar, começam a entrar os que se excederam mais do que deviam e o cortejo de vómitos não acaba até meio da manhã do dia seguinte. Dobra-se o pessoal de serviço, é bem preciso.
Mas a verdade verdadeira é que não há nenhum (antigo) estudante de Guimarães que não guarde pelo menos uma boa recordação, de pelo menos uma noite de Pinheiro bem passada.
As minhas melhores recordações do Pinheiro datam de 1990 e de 1991. A primeira é a do Pinheiro do meu 12º ano; a segunda, do meu primeiro ano de Faculdade. Vim a Guimarães de propósito, claro está, coisa que, no Porto, nem todos compreenderam.
O meu dia, ou, melhor dizendo, a minha tarde de 29 de Novebro de 1990 foi longa. Penosamente longa.
Tinha dezassete anos, comeara a usar óculos duas ou três semanas antes e nessa tarde, na paragem de autocarro, dirigindo-me a casa, debati-me com a maior dor de cabeça que sentira em toda a vida. Não sabia o que fazer. Tirei os óculos, voltei a colocá-los, quem usa sabe que a adaptação pode ser difícil, demorada. Era possível que a minha dor de cabeça se devesse ao óculos. Cheguei a casa para encontrar apenas a avó, que a mamã tinha saído. Protestava, a minha avó, como sempre que a mamã saía: está sempre lá fora. Mas não demorou a chegar. Na verdade, decidindo que o que a ausentava de casa não valia a pena, dera a volta na primeira esquina e estava de regresso. Percebeu de imediato que eu tinha uma terrível enxaqueca (detesto esta palavra), a primeira de muitas, tantas que já lhes perdi a conta. Com a mesma idade que ela. Dezassete anos. Há heranças que se dispensavam. Meteu-me na cama, quente, deu-me comprimidos, que tomei sem perguntar o que eram. E chá. E ali ficou, sentada aos meu pés, a ver como evoluía. Entretanto, ia-me contando da sua vasta experiência na matéria. "Sabes de que tenho medo quando estou assim? de uma hemorragia cerebra, de um AVC." Pois. Eu ali, sem poder mexer-me, e ela ia desfiando o rol de coisas terríveis que podiam, improvavelmente, acontecer. Passaram várias horas, a dor de cabeça foi embora à força de tanta droga, dando espaço à minha preocupação mais importante do dia: eu tenho de ir ao Pinheiro. Tu não bebas nada, dizia-me a minha mãe. Nem uma coca-cola. Com as coisas que tomaste, beber é muito perigoso. Lá fui. Cumpri à risca, claro. Nem sumo de laranja arrisquei. Bebi só água. E diverti-me como em nenhuma outra noite em toda a minha vida, até hoje, vinte e um anos depois.
Voltei a casa no autocarro do meio-dia.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

rest in peace



Steve Jobs. 1955-2011.
This is a great loss.
This man changed the way we interact with technology.
Would we be here, sharing our lives, our thoughts... if he had chosen a different path?

Stay hungry. Stay foolish.

sábado, 1 de outubro de 2011

a felicidade

I would be most content if my children grew up to be the kind of people who think decorating consists mostly of building enough bookshelves.
Anna Quindlen

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ai as fadas...


Ontem ouve choro e ranger de dentes.
De poucos dentes, na verdade, porque, ao almoço, tinha caído mais um, o quarto.
Era noite de a Fada nos visitar, portanto, o que causa sempre grande emoção.
Com medo de deixar o dente esquecido em cima da mesa, não fosse ele ir parar ao lixo, o que seria uma grande desgraça, meti-o no bolso. Vai daí, não sei como nem quando, talvez quando experimentei um vestido, o dente desapareceu.
E agora? Não vou poder deixar o dente à fada e ela não me vai dar uma prenda.
Tentamos deixar-lhe um bilhete, a dizer que o dente te caiu, mas que a tua mãe o perdeu.
Não é a mesma coisa, ela não vai deixar nada...
Lá continuei argumentando que não há nada como tentar, porque, sabes como são as fadas, não castigariam uma criança por causa do erro de um adulto.
O desespero era tanto que nos obrigou a prometer que lhe daríamos NÓS uma prenda se a estratégia do bilhete não resultasse. Prometemos tudo, e, em desespero de causa, cheguei mesmo a perguntar-lhe "Mas afinal acreditas em fadas ou não?", tendo a resposta sido, evidentemente, afirmativa.
Depois de muitas lágrimas, muito desgostosas, lá escrevemos o bilhete, a explicar exactamente como tudo tinha acontecido. Ilustrou-se com o dente, claro, mais uma grande flor, um coração (não sabemos a quem pode sair com tamanho jeito para o desenho...).
E lá pusemos o bilhete debaixo da almofada.
E, claro, a fada lá o substituiu pela tão desejada prenda, o que, além do mais, tem sempre o efeito secundário de um despertar sorridente e bem disposto.
E lá concordou, novamente, de manhã: as fadas existem mesmo. E eu acrescento: são das crianças e para as crianças.

Quanto ao bilhete, esse está guardado, bem guardadinho. Com certeza, daqui por uns anos, fará um novo sorriso brilhar naquele rostinho, que vai ser sempre o mais lindo do mundo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

porque uma amiga tem escrito sobre madrinhas... mais uma carta aberta

É isso mesmo.
Aconteceu-me o mesmo que aconteceu à minha mãe, há muitos anos. A mim, que tinha jurado que não.


A minha mãe escolheu, tanto para mim como para a minha irmã, madrinhas que nem sequer sabem que nós exixstimos. Que nunca estiveram presentes. Sobretudo no meu caso, é triste, porque, na altura em que eu nasci, ela era a pessoa com quem a minha mãe se dava melhor. Durante vários anos, contam, tinha perfeita loucura por mim. Depois complicou-se porque a vida dela deu muitas voltas muito grandes e muito complicadas. No fundo, apesar da mágoa de nunca ter tido madrinha, ao contrário de todas as minhas primas e mesmo da minha irmã, apesar da dor que isso me causava, sobretudo todas as Páscoas, tenho que reconhecer que, de facto, foi a vida que ditou assim. A minha mãe não pôde fazer nada.


Eu não sei se posso fazer alguma coisa para alterar o estado das coisas no que diz respeito à madrinha da minha filha, mas pelo menos tento. Pelo menos ponho cá fora o que estou a sentir, ponho cá fora a tremenda desilusão que eu e o M. sentimos pela tua ausência.
Pensa bem: nem há um ano, foste a convidada mais importante do baptizado. Tu e a N., mas a N. era a madrinha esperável. Para tu seres também madrinha, deves lembrar-te, fui contra tudo e contra todos. Se o baptizado fosse agora não faria sequer sentido convidar-te para a festa. Porque tu não fazes parte.


Em relação à minha madrinha e à da minha irmã, há uma atenuante: uma era criança e a outra era adolescente. Não tinham noção do compromisso que estavam a assumir. Tu és uma adulta. Se não estavas disposta a assumir o compromisso, não aceitavas. Teria sido mais honesto.


A decepção é ainda maior quando nos lembramos de quantas vezes foste ao Porto de propósito para ver a S. Tudo levava a crer que ias ser uma madrinha presente. Muito presente, a avaliar pelo tempo que passavas cá em casa. Mas isso era no tempo em que não tinhas ninguém, não é?


Já sei que vais dizer que a tua vida mudou, que agora passas muito tempo no Porto, mas a verdade é que continuas a trabalhar em Guimarães, jantas cá pelo menos duas vezes por semana, passas cá fins de semana alternados (quando não estás para aturar os filhos do Rui...). Ou seja: se tivesses algum interesse em ver a M., em participar no crescimento dela, em dar-te a conhecer - sim, porque ela não te conhece... - em saber se ela já anda, se já fala, se tem comido bem, se está doente... conseguirias com muita facilidade arranjar um bocadinho.


Mas a verdade é que tu não gostas de crianças. Não é? Mas então por que é que aceitaste? Há quase um mês que não apareces nem dizes nada. E não é caso isolado. Tem acontecido sempre. Ou como quando telefonas ou quando vamos almoçar e nem perguntas por ela. A M. é tua afilhada. É tua obrigação querer saber dela. Não, eu também nada digo. Deves conhecer-me o suficiente para saber que eu nada diria. Fico à espera.


Demorei muito tempo a decidir escrever isto. Por muitos motivos. Primeiro porque é difícil admitir um erro. O erro de te ter convidado a ti e não a N. ou a S.


Depois, porque nunca saberei, quando telefonares a saber da tua afilhada, se o fazes por ela ou por isto que acabas de ler.


Nota: Este texto foi escrito em Junho de 2007. De lá para cá, a situação não só não se alterou, mas agravou-se.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

feliz ano novo!


Esta altura do ano é sempre emocionante. A minha preferida.O cheiro a novo dos livros e cadernos, os lápis novos, as canetas por estrear, os porta-lápis imaculados, o regresso à rotina, aos amigos, os professores novos, os já conhecidos...
É nesta altura que, há mais de trinta anos, faço a minha lista de resoluções de ano novo. Eu sei que costuma ser em Dezembro, mas na verdade, para quem vive da escola, para a escola, os anos que contam são os anos lectivos - não os civis.
E todos os anos faço promessas que cumprirei à risca, prometo a mim própria, ao longo de todo o ano. Durante doze anos, fiz esta lista na qualidade de aluna. Desde há quinze anos, na qualidade de professora. Mudou a posição, mas não mudou a lista, pelo menos não no essencial. E só agora me apercebo de que o meu lombo já leva mais anos deste lado da barricada do que do outro.

Então cá vai a lista:
1. Este ano não vou deixar trabalho acomular.
2. Não vou deixar trabalhos de casa para a última hora, e muito menos por fazer.
3. Vou ter as minhas coisas organizadas - sobretudo os papéis.
4. Não andarei com coisas desnecessárias na pasta.
5. Vou acordar a horas, para não andar a correr de manhã.

Pois. Dizem que o ano novo acabou quando os ex-fumadores voltam a fumar.

Ainda o primeiro período não vai a meio e a situação é mais ou menos a seguinte:
1. Actas de departamento e de conselho de turma atrasadas. (Respectivos presidentes atrás de mim, impacientes.)
2. O teste é dentro de dois dias e ainda nem escolhi o texto.
3. Nem pus os testes nos dossiers (agora enviamos por mail), nem deitei fora os rascunhos das correcções, nem arrumei as fichas em que peguei para tirar fotocópias. (Está tudo acumulado no escritório, numa desordem em que me entendo perfeitamente, mas que odeio.)
4. Tenho tudo metido na pasta, que pesa tanto que já me rendeu tendinites e espondilites. As coisas de que preciso, as de que precisei, as de que posso vir a precisar, as completamente inúteis.
5. Acordo a horas, mas não saio da cama até ser demasiado tarde. Ando sempre a correr e começa a acontecer-me o impensável: o pequeno almoço, por vezes, é um leite chocolatado tomado no carro, a caminhpo da escola.

Este ano é diferente. Não só eu começo um novo ano lectivo, mas também a minha filha começa o seu primeiro ano de escola. Além daquelas observações idiotas que todas fazemos nestas alturas, como "o tempo passou tão depressa", "já está crescida", etc, debato-me com dúvidas existenciais mais sérias.
E a mais sincera, a mais profunda, é esta: serei capaz?
Quero que ela tenha um dia-a-dia calmo, que lhe permita cumprir as suas tarefas escolares com eficiência, mas que não lhe roube a infância, o tempo para brincar.
Ela tem capacidades que lhe permitirão obter sucesso nos estudos, mas há uma parte que tenho de ser eu a fazer. A maior parte, a mais importante. Ela vai passar 700 horas na escola ao longo deste ano. Mas vai passar 8000 em casa, o que é muito mais, portanto a bola está no meu campo.
E então vem ao de cima a síndrome de Peter Pan, o menino que não queria crescer.

Este ano, acho melhor resumir a minha lista de resoluções de ano novo:
Ponto único: Time to put on your big girl pants.

Está na hora de crescer.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

packing, packing, packing...


Now really.
Does anyone truly like going on holidays? Including the packing part? Really? And it just hit me: i'll be doing it all the other way around in... Next to no time.
It better be REALLY worth it.

sábado, 13 de agosto de 2011

be here. now


(Preferia que não estivesse traduzido...)
Demora muito tempo a carregar, mas vale a pena.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

a fada das flores


Lá dizia Jung: não há acasos, mas coincidências significativas.

Um Sábado de manhã, a minha grande queria um sumo e um pão com fiambre. A minha irmã, que estava com ela, trocou uma esplanada na Oliveira por um café conhecido, onde confiava mais no fiambre. Na mesa ao lado (umas mesas pequeninas, que já eu adorava quando as minhas pernas não tinham tamanho para mais) sentou-se uma senhora com a filha. Vinham da biblioteca e traziam livros que satisfizessem a pequena futura leitora durante a semana toda.
Palavra puxa grunhido, veio à baila a chupeta, companheira inseparável, naquela época, da minha grande, então ainda com 3 anos. A mãe da Fabiana (se a memória não me falha) contou que a filha tinha dado a chupeta à fada e recebido um presente em troca.

Uma rápida troca de olhares com a minha irmã e uma decisão: se funcionou com ela, também vai funcionar com a nossa.
Iniciámos o processo de mentalização, que levou umas semanas. Comprámos a prenda: um fabuloso livro sobre o Mundo das Fadas, que ficou à espera que ela decidisse. Demorou, até porque sabia que não tinha retorno, embora não percebesse muito bem o que isso queria dizer.
Chegou o dia. Na noite de 25 de Janeiro de 2009, a corajosa pegou numa caixa, colocou lá a chupeta (as outras duas fizeram cada sua aparição perigosamente fantástica uns dia/semanas depois), pôs no parapeito da janela, pediu o biberão de leite, para substituir, percebem?, é que naquela época costumava ser difícil dar-lhe o leite se não estivesse a dormir. Correu tudo às mil maravilhas, mais a troca da caixa pelo livro, que fez as delícias dela ao acordar.
Claro, correram menos bem as duas noites seguintes, mas já estava, a Fada tinha levado, já estavam transformadas em flores, não havia nada a fazer. É que isto de deixar a chupeta é como deixar de fumar: não se pode vacilar, nada de cair na tentação...

Agora era a vez da pequenita. Mas esta é diferente. A outra vive mais de fantasia, enquanto esta sabe muito bem o que quer, que é como quem diz: só faz o que lhe apetece e faz tudo o que lhe apetece. Tudo.
Havia quem não acreditasse que ela caísse no conto do vigário.
Mas.
Ontem à noite, quis ver, ou eu quis que ela visse, já nem sei, o famoso livro que a fada tinha trazido à irmã. Estávamos sozinhas, pelo que o tempo era nosso. O pó de fada na capa, as chupetas transformadas em flores, as roupas das fadas, a fada dos dentes...
Até que...

- Eu vou dar a chupeta à Fada.
- Vais? Muito bem! Quando?
- Agora. (a resposta costumava ser aquele "amanhã" que quer dizer qualquer dia, num futuro longínquo)
- Agora? Tens a certeza? Olha que a Fada não volta a trazer as chupetas...
- Vai buscar a caixa.

Obediente, lá fui. Levei-lhe a caixa, com todas as chupetas (umas seis ou sete), lá adicionou a que estava de serviço e foi pôr a caixa no parapeito da janela - a mesma janela de há dois anos e meio.
- Pronto. Fica aqui.
- Que linda! Estás uma crescida! És a minha grande! Estou muito orgulhosa de ti!

Estava com tanto sono que praticamente adormeceu antes de acabar o Boa Noite Ursinho, o nosso livro de dormir preferido.
Acordou de manhã num pranto tal que houve quem pensasse que tinha caído abaixo da cama. Não queria saber de fada nenhuma, nem de prendas, nem de nada. Queria uma chupeta e pronto!
Mas não era possível. Já tinham ido, a esta hora já deviam ser flores no país das fadas.
Só acalmou com um biberão de leite, deitada no sofá a ver desenhos animados.

Entretanto, chegou a avó e só um bom pedaço depois acedeu a ir ver se a fada tinha trazido alguma coisa.
E tinha. Um livro, as tais "18 Histórias de Fadas e Princesas", umas coisas giras penduradas nas cortinas e na cama, umas receitas de comida da terra das fadas e... uma carta de felicitação e agradecimento!
Um delírio!

Já descobrimos, hoje, mais flores no livro do Mundo das Fadas da irmã. Não estavam lá ontem, portanto têm de ser as novas, feitas com as chupetas de ontem à noite. A paisagem está diferente, sem dúvida.

Claro que o deitar já deu direito a choradeira, amanhã também vai dar, mas o difícil já está. E é a tal história do cigarro. E, como diz uma psicóloga amiga: custa-nos mais a nós do que a eles.

(Nota: Agora passei a acreditar naquele teste mais que científico que diz que eu sou uma mamã fada. É que ela apanhou-me desprevenida. Tive de improvisar mesmo a sério. Por sorte, o Pai Natal tinha deixado uns livros esquecidos no meu roupeiro e - valham-me as coincidências significativas - um deles era a propósito. E depois, valeu-me a Internet e a impressora: fiz uns prints, uns recortes, umas dobragens, socorri-me de uns clips e deitei-me às 3 da manhã. Valha a verdade: somos, sou, pelo menos eu, muito mais cuidadosas com o primeiro filho do que com o segundo...)

(Nota 2: Estou a considerar seriamente a hipótese de falar com a fada acerca do biberão. Com a mais velha funciona pela certa. Até os olhos lhe brilharam quando coloquei a questão. "Será que dá? Em que transformarão? Árvores? Casas?" Acho que vai ser por aqui...)

(Nota 3: Logo hoje, na Zara Home, tinham de ter na montra lençóis com fadas. E candeeiro de cabeceira, mala, cesto de papéis... Lindos. Mas os lençóis tinham medida de berço, não de cama de gente. Traição. Fiquei-me por um conjunto prato/taça/copo para cada uma...)

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

é um livro...


O meu comentário é... Pois... (mas não digam a ninguém.)
Agora a sério: o livro é giríssimo.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

e escrevo, escrevo, escrevo...


Gosto de trabalhar sob pressão. Sempre fui assim. O estudo rendeu-me sempre mais quando tinha pouco tempo. O trabalho rende-me sempre mais quando se aproxima o fim do prazo.
E hoje... aproximava-se o fim do prazo. Não podia continuar a adiar. Passei o dia a escrever, contrariada, o famoso relatório de auto-avaliação.
A sério: eu gosto de escrever, mas não estava mesmo nada virada para isto. Não me apetecia. Agora parece que está. Vou ler mais umas vezes a ver se as vírgulas estão todas no sítio... Mas acho que dou por encerrada a sessão.
Ufa!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

now I know why...


No person who can read is ever successful at cleaning out an attic.  ~Ann Landers

mais? ou menos?

Não sei se gosto.
De início, parecia mais simpático do que o Facebook. Partilhamos só com os círculos que queremos, o que é bom, porque às vezes preferíamos não dizer tudo a todos os amigos... Também gostei dos hangouts. Dizemos que estamos ligados e os amigos, se também estiverem, aparecem, para falarmos face to face. Cheguei a experimentar com uma americana, depois de uma luta de muito tempo com o microfone dela, que não funcionava, e foi divertido.
Mas...
Há coisas que não percebo.
Enviei convites para endereços Yahoo que apareceram nas caixas Gmail das pessoas a quem se destinavam. (Às vezes parece que é mesmo verdade que a Google controla TUDO a nosso respeito...)
Tenho pessoas bloqueadas sem que tenha feito nada para isso e não consigo desbloqueá-las. E algumas gostaria mesmo de adicionar.
Fui adicionada por pessoas que não faço a mínima ideia quem são. Bloqueei, ma non tropo. Quer dizer: as pessoas que eu bloqueei podem ver os meus posts se eles forem públicos. No Facebook não é assim: se eu bloqueio uma pessoa, eu não existo no Facebook, para ela, nem ela para mim. Por muito que procure. Nem que tenhamos amigos comuns, nem que comentemos os mesmos posts de amigos comuns. Não vemos nada um do outro.
E ainda por cima há fotos minhas no Google +. E eu juro que não pus lá nada. Só a bota, como fotografia de perfil. Tem montes de fotografias: tiradas com o telemóvel, do blog, fotos que eu, a bem da verdade, nem conheço. Não estão publicadas, aguardam o meu clique, mas estão lá. E eu não percebo como.
Não me agrada.
Não porque acredite que o Facebook seja assim tipo Madre Teresa de Calcutá. Tem as suas coisas e temos mesmo de andar sempre em cima das opções de privacidade, mas não é assim...
Pelo menos que eu me aperceba.

a queda de um anjo


Devo ter ficado mais ou menos assim.
Não, não estava nua. E não caíam penas sobre o meu corpo relaxado.
Na verdade, torci um pé, desequilibrei-me e a mochila que trazia às costas (a minha maravilhosa mochila Piquadro, devidamente cheia, com computador e tudo) fez o resto do serviço. Atirou-me ao chão.
E ali fiquei, imóvel, ensanduichada entre o chão e a mochila pesadíssima, meia dentro de casa, meia fora.
Nem sei por que escolhi esta imagem: não teve nada de relaxante, não teve nada de poético. Foi mais... patético.
As meninas já no elevador, a minha housemaid também, carregadíssima com um cesto de roupa. Eu muda, queda.
Entretanto, lá se desenvencilhou do cesto da roupa e veio em meu socorro. Lá me desenvencilhei da mochila (Piquadro, não se esqueçam), sentei-me no chão e ali fiquei um pedaço. (Uns segundos, vá.)
Doía-me tudo: o joelho, a anca, a cabeça, o pescoço. Depois, já se sabe, lá foi passando.
E dormir? E, antes de dormir, ler às meninas, ora virada para um lado, ora virada para o outro, ora a erguer o livro para a outra ver da sua cama?
Isto foi ontem, portanto, como podem imaginar, hoje estou bem pior. Doem-me as costas. Claro. A mochila não é leve, ia bem cheia e o PC é dos que pesam. E caiu por cima de mim.
Doem-me as pernas, muito. Dói-me o tornozelo que virou e provocou a cena toda. Dói-me o braço, que raspou no tapete da entrada, adequadamente áspero para limpar as solas dos sapatos de quem vem da rua.
Diz a voz do povo que amanhã será pior...

terça-feira, 19 de julho de 2011

está mal?

A Universidade Católica quer que os seus alunos e docentes utilizem "formas de vestuário dignas e convenientes, adequadas ao local de trabalho próprio de uma universidade e de uma instituição da Igreja", revela o Conselho de Administração da entidade. Com este intuito, a Católica vai adoptar regras de vestuário.
in notícias.portugalmail.pt

À primeira vista, não, não é muito democrático. Cada qual deve poder vestir-se de acordo com a disposição com que acorda de manhã.
Mas a verdade é que cada vez mais empresas impõem códigos de vestuário aos seus trabalhadores. Ao entrar, a pessoa recebe uma lista, por escrito, das cores que pode ou deve usar ou evitar, qual o comprimento das saias, a altura dos saltos, para as senhoras. Repartições públicas optam por uniformes: primeiro os CTT, depois a EDP e, mais recentemente, as Unidades de Saúde Familiares, quer dizer: os antigos postos médicos, para o pessoal administrativo.
Estamos a reressar ao "tempo da outra senhora"? Não. Justifica-se.
E justifica-se por uma única razão, muito simples: as pessoas - não todas, claro, mas muitas - não se vestem adequadamente quando vão trabalhar. As mulheres porque usam, por vezes, saias curtas demais, o que, no local de trabalho, a moda não justifica, ou decotes exagerados. Os homens porque "se esquecem" frequentemente do cinto nos jeans, o que a moda justifica menos ainda, e porque, chegado o Verão, vestem-se como se fossem para a praia: calções de banho (sim, porque há calções que não são de praia. Continuariam a não ser aceitáveis no local de trabalho, mas é diferente) e chinelos.
O mesmo, ou mais, passa-se nas escolas, com os alunos. Não que todos os professores sejam exemplo na hora de vestir - há de tudo em todos os sítios, claro, mas os alunos... Os rapazes lá da escola compram calças dois tamanhos acima e não usam cinto. Os dois tamanhos acima não são para durarem mais tempo: se fossem do tamanho que deviam ser não desciam tanto. Resultado: vê-se-lhes as cuecas, ou os boxers, ou vouqueseres, como escrevia uma aluna, queixando-se, por bilhetinho, a um colega, que respondeu que era a moda e perguntou se ela não gostava. A mim, com franqueza, mete-me nojo.
Nunca entrei na Católica, mas posso imaginar que por lá professores e alunos se vistam como em todos os outros sítios. E isso significa que se vestem mal, passe a generalização. O que é para mim vestir mal? Uma professora, ou profissional de qualquer outro sector, mas algumas profissões exigem especial cuidado em certas coisas, usar uns jeans e uma t-shirt que deixa ver o umbigo. Usar sempre fato de treino (excepção para os professores de Educação Física). Coisas assim.
E são coisas assim que a Católica quer deixar de ver. Saúdo. Vai dar barulho, mas têm toda a razão. E nem precisavam de apelar ao carácter religioso da instituição. É puro bom senso.

sábado, 9 de julho de 2011

o vício...


É verdade: estou viciada nisto da net. Já tinha escrito isto, há dois anos, quando abri a minha conta no Facebook. Desde então, só tem piorado.
Não gostei do Google Buzz, porque todos sabemos que a nossa lista de contactos não é propriamente uma lista de amigos. Não vamos exactamente despir-nos na frente de uma pessoa que nunca vimos na vida, só porque uma vez lhe enviamos um mail com uma inscrição em qualquer coisa. Não cabe na cabeça de ninguém.
Mas não resisti ao Facebook, já nem me lembro porquê. Mas fui cuidadosa e jurei a mim própria que não adicionaria como amigo ninguém que não conhecesse perfeitamente. Não cumpri a promessa. Depois veio o Kindle, a mother page, que aumentou o vício... e de que maneira. Depois os grupos... Já não chegava o iPod. Tinha de estar sempre a ver o que se passava. Claro que certas pessoas que adicionamos no Facebook estão lá porque não poderiam não estar. Mas...
Aqui, parece-me, está a vantagem do Google +.
Como podemos criar círculos de amigos e partilhar só com um, dois, todos os círculos, como quisermos, parece-me que pode ter algumas vantagens em relação ao FB, não sei.
Criei um círculo com alunos. Não convidei nenhum, mas estão num círculo... para o que der e vier. Nunca adicionaria um aluno como amigo no Facebook, e eles sabem disso, embora continuem a enviar convites. Mas não posso. Em primeiro lugar, por causa daquela história do trabalho e do cognac. Depois, porque os meus alunos - e a maior parte dos alunos da minha escola - não têm idade para terem conta no Facebook.
O problema de tudo isto é o que perco de sono. Não, por favor, não olhem para o relógio. É que isto tudo é: a conta de email (ou não sei quantas, mas todas a cair na mesma, ou seria o caos), o iGoogle, o blog, o outro blog, o Facebook, a página no Facebook... ah, e o Twitter, mas a esse já nem ligo quase nada.
O vício, é o vício...

quinta-feira, 7 de julho de 2011

estou de férias?


Os professores não fazem nada.
Ok. Então o que estou eu a fazer ao computador a estas horas? Farmville? Não, meus senhores. Actas. Acabo de fazer duas actas. Fresquinhas... Quer dizer, tão quentinhas como as minhas pernas, de ter o laptop aqui pousado há sei lá quanto tempo. Se fossem pão, com manteiga ficavam uma delícia.
Sinto-me exactamente como a senhora na imagem: afogada em papel.
Aliás, é assim que me sinto quase sempre, falando da minha profissão.
Excepto quando estou em aula. (E, acreditem, passo muito mais tempo em trabalho de bastidores, afogada em papelada, do que com os meus alunos. E não, não estou a falar só dos testes que corrijo.)

terça-feira, 5 de julho de 2011

a arte de gastar dinheiro


O nosso novo Ministro das Finanças, Vítor Gaspar, diz-se grande admirador, discípulo mesmo, de Milton Friedman (1912-2006), economista, estadista, académico norte-americano, a quem foi atribuído, em 1976, o Prémio Nobel da Economia. O The Economist descreve-o como "o mais influente economista da segunda metade do séc. XX... talvez de todo o séc. XX."
Segundo Friedman, há quatro maneiras de gastar dinheiro. Passo a explicar.

1. Eu gasto o meu dinheiro comigo.
Quando eu gasto dinheiro meu com coisas que compro para mim, eu quero o melhor de dois mundos: gastar o mínimo possível (sim, porque o dinheiro é meu...) e obter o máximo de qualidade possível (sim, é para mim, é com o meu dinheiro... tem de ser bom.)

2. Eu gasto o meu dinheiro com os outros.
Se assim é, eu continuo a querer gastar pouco, mas já não estou tão preocupada com a qualidade do que vou adquirir (não é para mim...). Estou mais preocupada com o valor em questão, não com a qualidade/utilidade/necessidade do que vou adquirir.

3. Eu gasto o dinheiro dos outros comigo.
Ora bem... Se eu vou sair em trabalho e o patrão paga o almoço, eu quero comer bem, beber melhor, e não me interessa o valor da factura... o patrão paga...

4. Eu gasto o dinheiro dos outros com os outros.
Se o dinheiro não é meu e se o que vou comprar não é para mim, o que me preocupa? Nada. Quero lá saber se gasto muito ou se gasto pouco. O dinheiro não é meu (não me doeu ganhá-lo, se acabar o problema também não é meu) e vou gastá-lo em coisas que nem vou ver. Vou gastar bem? Vou gastar mal? É mesmo preciso? Há alternativas melhores, mais em conta, uma melhor relação qualidade/preço? Desculpem lá, analisar tudo isso daria muito trabalho. Não me apetece. Não me interessa.

A hipótese 4 é aquela que descreve o Estado a gastar o dinheiro dos contribuintes.
O dinheiro não é dos ministros, deputados, directores-gerais, presidentes de câmaras, juntas, etc. Mas são eles que definem em que vai ser gasto - e não é, por regra, em coisas de que eles vão usufuir.
Portanto, o que interessa se é bem ou mal gasto? O dinheiro nem sequer é deles...
O pior é que o saco tem fundo. Está cheio de dinheiro que não lhes pertence, mas acaba. Não faz mal. Aumenta-se os impostos. Ou, no caso, inventa-se um novo imposto.
A primeira coisa que o nosso Ministro das Finanças, admirador de Milton Friedman, fez foi... inventar um imposto.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

independence day



"We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal, that they are endowed by their Creator with certain unalienable Rights, that among these are Life, Liberty and the pursuit of Happiness."


Hoje, que se celebra o aniversário da Independência dos Estados Unidos da América, é um bom dia para todos os europeus fazerem contas a quanta liberdade devem aos soldados americanos, que deram a vida pela libertação deste nosso velho continente do jugo do nazismo. E do comunismo. E, já agora, aos seus Presidentes, que se deram ao trabalho de se preocuparem com os nossos problemas, que não eram deles.
Talvez pensar nas palavras dos polacos: "A nossa relação com a União Europeia é muito importante. A nossa relação com os Estados Unidos é sagrada."

domingo, 3 de julho de 2011

já está

Pois. É que, tomada a decisão de pôr a rapariga na escola pública e não no colégio, era preciso convencê-la que é melhor.
Não, não me preocupei em convencê-la a ir para uma escola e não outra. Os seus cinco anos ainda não lhe permitem emitir opinião sobre matérias desta natureza. Mas já estava de cabeça feita... e era preciso fazer reset ao sistema.
Comecei por uma abordagem "soft"... na minha humilde opinião...
"Nem imaginas o que aconteceu! Eu consegui que tu entrasses na melhor escola da cidade!"
"Mas eu vou para o colégio."
OK. Na próxima será melhor.
Passados uns dias, tratei de lhe explicar exactamente o que significa a palavra "trambiqueira". Vinha a propósito, algumas leitoras me compreenderão.
Tratei de lhe mostrar as vantagens: pode vestir a roupa que quiser, pode pôr os laços que quiser no cabelo, as bandoletes, fitas, totós - o que estaria muito condicionado pelo uniforme.
Pode escolher os lápis, os cadernos, comprar os livros com antecedência (esta é a melhor parte de ir para a escola, não é?), enquanto, no colégio, entra de mochila e porta-lápis vazios e vem de lá com eles cheios... (que corta ganzas!)
Consegui.
Já fala na "escola".

incentivo à leitura

O Miguel Esteves Cardoso escreveu, há muitos anos, que, se o Estado, o governo, qualquer que ele fosse, estivesse de facto preocupado com os hábitos de leitura dos portugueses, ou melhor: com a falta deles, devia, nada mais nada menos do que... pôr o povo a tomar laxantes. Sim. Laxantes.
(O meu marido adora e passa a vida a citar.)
A explicação é simples: visto que a maior parte das pessoas só lê na casinha, sentado no trono, quanto mais tempo lá passar... mais lê. Elementar, meu caro Watson.
O que hoje descobri foi que o MEC não é o único que pensa assim, a não ser que já tenha, com esta teoria, conseguido inspirar designers.
Ora olhem... é mesmo à medida, não acham?!

quarta-feira, 29 de junho de 2011

uma desgraça não podia vir sozinha?

No início deste mês, uma moça de 19 anos atirou-se abaixo de um viaduto, depois de ter passado todo o dia a andar de um lado para o outro, a escrever...
Não morreu da queda, mas sim atropelada por um carro (jipe?) que passou naquele momento. Ponha o braço no ar quem gostaria de estar na pele do condutor do jipe. Pois.
Todos nós, que conduzimos, estamos sujeitos a que nos aconteçam as coisas mais incríveis. Mas aparecer-nos de repente uma pessoa, literalmente caída do céu, e não termos tempo sequer de fazer nada, nem de pensar, e saírmos do carro e vermos que matámos uma pessoa...
E os pais? Perder uma filha desta idade, desta maneira, sem saber os motivos que podem tê-la levado a fazer isto...
Mas a resposta à minha pergunta é... não, uma desgraça não vem sozinha.
O condutor do veículo passou mal. Quando chegaram ao local, os bombeiros tiveram de lhe prestar assistência. Assistência médica. Estava mal. (Eu também estaria.)
Passada uma semana, contaram-me ontem, os pais da rapariga processaram o condutor, acusando-o de ser culpado da morte da filha. O senhor, que ainda não se tinha recomposto da monstruosidade do que lhe tinha acontecido, o que não é para menos, e não se trata de menorizar o sofrimento dos pais, passou mal. Não conseguiu lidar com a culpa que lhe imputavam.
Morreu.

terça-feira, 28 de junho de 2011

e agora?

Eu pensei que isto nem fosse possível. Aliás, eu já nem sequer pensava nesta hipótese.
Acabo de receber um telefonema. A minha filha entra na escola que eu queria. Não na escola da minha área, mas na escola que eu queria. E eu que até já a inscrevi no Colégio...
Vamos por partes.
Vantagens do Colégio:
É à porta fechada, vai ter um bom professor, há muita disciplina, regras.
Desvantagens do Colégio:
Mensalidade de € 210, que inclui apenas a leccionação (mais € 50 para o almoço, mais € 20 para o lanche, mais o prolongamento, que não me lembro de repente quanto é), até certo ponto não sei se se batem pela excelência propriamente dita ou mais pela fama de que é difícil. Sai todos os dias às 16:30.
Vantagens da escola pública:
Sai às 15:30 pelo menos alguns dias por semana, o que permite piscina e Inglês mais cedo, está entre pessoas mais "normais".
Desvantagens da escola pública:
O intervalo para almoço é mais curto, pode impossibilitar o almoço em casa.
Que faço?

que alívio!



Consegui. Finalmente. E não, não é uma vitória de pirro. A Pipi desapareceu.
Existem duas versões. A primeira, que era para ser a oficial, dizia que os DVDs tinham ido de empréstimo para o filho de uma amiga da minha irmã. A segunda, que a minha mãe adiantou quando a piquena perguntou, diz que foram para limpar, que estavam muito sujos e blá blá blá.
Não interessa nada qual é o motivo. O que interessa é que desapareceu. E não, não me parece que consigam voltar a convencer-me a deixá-la voltar.
No regresso a casa, foi tema de conversa:
- Sabes que idade ela tem?
- Não.
- Nove. E o Tommy também. A Anica tem oito. Mas a Pipi é mais velha, porque faz dez anos no filme da neve.
- Então ela já tem dez anos e ainda não sabe ler? Acho isso muito estranho, não é?
- É, ela ainda não sabe ler. Não vai à escola.
- Tu sabes em que ano vais andar quando tiveres dez anos? No quinto ano! Imagina: já terás feito toda a primária e já estás numa escola como a minha e a da Nonó, no quinto ano.
- A sério? E ela ainda nem sabe ler.
- Pois. E nem sabe a tabuada nem nada. Não acho isso nada bem.
Concordou comigo, a minha grande. A Pipi não é modelo em tudo.
E eu estou feliz com o desaparecimento desta hippie em formato pré-adolescente. Pelas asneiras, pelos exemplos perigosos, pela música...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

livros e mais livros


Num apartamento onde vivem quatro pessoas (dois adultos e duas crianças), quatro dos quais viciados em livros, sim, quer dizer, todos, por junto, a coisa torna-se complicada.
Mesmo tratando-se de um apartamento grande, mesmo que haja estantes - os tais elementos de decoração mais-belos-do-que-todos-os-outros - na sala, no esctitório, no quarto de brinquedos, mesmo que se amontoem livros nas mesinhas de cabeceira, nas cómodas, na credência da entrada, mesmo assim a coisa é complicada.
(Nota: o segundo vício complicado conta mais de 4000 CDs. Sim, quatro mil.)
O problema, dizia, é complicado. E tende a agravar-se. Sim, e a breve trecho. Eu explico.
As duas crianças ainda não lêem. São viciadas em livros... que nós, os adultos, lhes lemos. Não passam sem uma história, um conto, um livro (ou dois, ou dez) todas as noites antes de adormecer. Pelo menos antes de adormecer. E têm. Esse tempo é delas. Por muito trabalho que tenhamos para fazer, por muito tarde que nos deitemos depois, porque ficaram pontas soltas (contos, testes, normalmente, mas de tudo). À hora de deitar somos delas. E lemos. E conseguimos fazer com que elas gostassem tanto que não passam sem.
Para já, somos nós que lemos, mas em Setembro uma começa a escola, o que quer dizer, espero, que vai ler mais. Vai deixar de precisar do adulto como intermediário. E a outra não vai querer ficar para trás, cheira-me.
A situação não é bem "não cabe nem mais um livro". É mais "não cabe nem mais uma folha de papel..."
Lá em casa, as estantes estão cheias. O que quer dizer: há duas filas de livros em cada prateleira, há livros por cima dos livros. Há livros em cima das estantes. Há lirvos... (Não, não temos livros a calçar mesas, isso não.)
É um problema. Mas é um doce problema.

conselhos de turma

Papelada, papelada, papelada...
Sinto-me tão abençoada por não ser directora de turma este ano... Ainda por cima, porque essas horas deixaram de ser pagas desde Janeiro.
Faço a acta. E, como já disse, as minhas actas são literatura. Mas detesto. Detesto tanto fazer actas que às vezes esqueço-me que tenho de as fazer.
É isso e as p**** das planificações das famosas áreas. Aquilo não vale de nada, não interessa a ninguém, mas temos de fazer uma planificação para cada fase do PCT*.
Como diria o meu sogro: Valha-me a pilinha do Menino Jesus, que é benta...

* Projecto Curricular de Turma

livros

Os livros.
Os livros são uma parte tão importante da minha vida que não saberia viver sem eles.
Dizia Jorge Luis Borges que imaginava que o paraíso fosse assim uma espécie de biblioteca. É isso. O paraíso é uma biblioteca, uma livraria, uma feira do livro - livros. O paraíso é feito de livros.
Cresci rodeada de livros e das histórias do avô, que lia os romances de Camilo noite fora. Queimava uma vela inteira a ler, só depois se deitava. E de dia - lia. Só uma forte chuvada o fazia abandonar o livro, para pegar num guarda-chuva e andar pela quinta. Temos de concordar: o cheiro da terra molhada da chuva é delicioso.
E o cheiro dos livros? Oh, o cheiro dos livros! Então daqueles que já passaram anos nas prateleiras, já foram lidos por muitas pessoas, folheados por muitas mãos. Já repararam que quanto mais folheado um livro é, mais fácil de folhear se torna? Experimentei com a minha gramática de Latim. No início, era muito complicado abrir naquela página. Passado pouco tempo, as folhas já eram minhas, já passavam sozinhas.
Mas estava a falar de livros. Daqueles que contam histórias, histórias que nos prendem até não sabermos que horas são, onde estamos, aqueles que lemos de um fôlego, por não ser possível parar.
Hello, my name is Eduarda and I am a bookaholic.
É muito isso.
Uma vez, ao entrar numa feira do livro, no Porto, onde estudava, fui ao multibanco e levantei dez contos - sim, no saudoso tempo dos contos. Obriguei-me a jurar a mim própria que não gastaria mais do que aquele montante. O segundo pagamento teve de ser com cartão. Where is human nature so weak as in the bookstore? Reconheço: sou um perigo, quando entro numa livraria. E então numa feira do livro...
Leio, leio, leio. Sempre que posso. Mas não qualquer coisa. Gosto de ler na sala de espera do dentista, como toda a gente, mas nem aí me serve a chamada literatura de cordel. Ou os livros daqueles autores, quase sempre mulheres, que publicam um livro por ano. Não gosto de literatura de panela de pressão. Como a comida, os grandes livros cozinham-se a fogo lento. Depois de marinar a história num tempero como deve ser. porque os grandes livros não são necessariamente os que contam grandes histórias - mas os que as contam magistralmente.
Estantes para livros são a peça de decoração mais bela que pode existir numa casa. A sério. Lembro-me de visitar a casa de um casal amigo, era eu ainda pequenita, e de ter comentado com o meu pai, à saída, que não havia livros naquela casa. Era verdade: na sala havia prateleiras, mas o número de livros devia ser menor do que o número de dedos das mãos.
Gosto de ver livros quando entro numa casa. Gosto de ver pessoas a ler - no café, na paragem do autocarro, nas salas de espera. Mas é tão raro. E tenho de me segurar para não perguntar que livro é aquele.
É por isso que gosto de comparar a aprendizagem da leitura a um renascimento. Quando uma criança aprende a ler, ela renasce. Abre-se para ela um mundo inteiro que antes lhe estava vedado por não saber decifrar a palavra escrita. E depois a leitura torna-se num acto reflexo. Quem não lê os letreiros todos, nas lojas por que passa à ida para o trabalho, num passeio pela cidade? E o que dizem? Nada. Pelo menos, nada que não saibamos que está lá escrito: Pão de Ló, Bolo Rei, Vende-se, Saldos, Pão Quente, etc, etc, etc. A quem interessa ler isto? Mas a verdade é que lemos. Juntamos as letras.
Quando estive na Hungria, tinha quinze anos, o que mais me custou - mais do que não perceber nada do que diziam, mais do que não conseguir tomar o pequeno-almoço num café, por manifesta falta das coisas complicadas que as pessoas normais tomam ao pequeno-almoço, tipo pão com manteiga - o que mais me custou foi não conseguir juntar as letras para formar palavras.
Podem chamar-me exagerada, mas ler diariamente com as minhas filhas é, para mim, uma religião. E a verdade é que a mais velha, que inicia em Setembro a escola primária, já se impacienta por precisar de um adulto como intermediário entre ela e o livro. Excellent parenting.
Os livros. E os marcadores de livros. E agora os colares da imagem... com livros.
I need therapy.

domingo, 26 de junho de 2011

e eu é que sou maluca?

A coisa piorou.
Dantes, gostavam de ver os filmes da Pipi (a pequena mais fanática do que a grande). Consegui limitar a um filme por dia, uma vez. Continuam a perguntar quando é que a Pipi chega a nossa casa (vinda dos mares do sul de ir visitar o pai, lembram-se?). Ora, os filmes da Pipi estão guardadinhos no armário por cima do frigorífico, há mais de dois anos, e não, não vão sair de lá. Esta parte baralha-me, a sério. A minha filha é inteligente, a sério, perguntar-me quando é que a Pipi chega a nossa casa é uma coisa que não percebo. Então ela não vê?
A coisa piorou, dizia eu. Pois é.
Ontem de tarde, a mais velha era a Pipi - claro - e a mais nova era a Anica. O Tommy, que remédio, era um Nenuco. Não prestava para nada, mas fazer o quê? Não temos aqui o P. Ora o P. é o primo, a quem a I. chama irmão. São da mesma idade, ele um pouco mais velho, mora mesmo em frente e, pior de tudo, tem uma força que não é normal para uma criança de 5 anos. E só tem 3.
Teve piada, tenho de reconhecer, ouvi-las repetir as falas das personagens, mas não teve tanta piada quando a "Anica" atirou não sei o quê pelo ar e deixou a "Pipi" com uma negra. E ponho-me a pensar E se cá estava o "Tommy"? É que de vez em quando está...
Poderá ser uma visão catastrofista, mas não me sai da ideia: à falta de um cavalo que levante no ar, para provar a força que tem, a "Pipi" pode optar, sei lá, por uma das cadeiras delas - há montes e não, não são todas de esponja. E, quando a força da gravidade for mais poderosa, o que não deve ser muito tempo depois, vai cair onde? Na televisão? Numa terrina? Numa cabeça, num pé? Ou podem fazer aquele jogo fantástico de não pôr os pés no chão: passeiam de cadeira em cadeira, por cima da mesa... e então lembrei-me de outra coisa. Se se puserem em cima da mesa conseguem chegar ao candeeiro. E pendurar-se nele. A sério. Podem mesmo.
E depois há todo o resto, que descrevo alguns posta abaixo.
E o único que me percebe é o meu pai.
Então decidi: os DVDs da minha irmã vão hoje de empréstimo para o filho de uma amiga. A hipótese dos mares do sul já não deve pegar. O outro, entretanto, vai evaporar também.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

you should take up journaling

You are very private, but you aren't aloof. You just have a well developed inner world.
You spend a lot of time thinking by yourself. It helps to get your thoughts down on paper.
You are an idealistic soul. You have noble ideas about the world.
You are a natural writer of all sorts. You are equally suited writing essays, journals, and fiction.



(Am I all this?!)

um buraco, por favor...

Era uma vez um grupo de imigrantes ucranianos.
É de prever que tenham dificuldades económicas, todos têm. Que outro motivo poderia levar um médico, um engenheiro a trabalhar na construção civil, em bombas de gasolina a abastecer veículos ou a lavar carros?
Ora os indivíduos em questão sentaram-se a uma mesa a conversar, fizeram contas, mediram os sacrifícios e acharam que sim, podia ser.
O assunto que debatiam devia ser motivo para todos os portugueses esconderem a cara num buraco: eles fizeram contas e mais contas ao pouco dinheiro que têm para, por fim, decidirem contratar um professor que desse aulas suplementares de Matemática aos seus filhos. Estavam alarmados com a maneira como a Matemática (não) é ensinada em Portugal.
Pois é. Os imigrantes ucranianos vêm de um país muito pobre, que conhece a liberdade há muito pouco tempo, portanto sabem que a única coisa que nos pode valer quando tudo o resto falhar é o conhecimento. São imigrantes, sujeitam-se a trabalhos precários, mas têm formação e não é uma formação qualquer: medicina, engenharia... Formação da a sério, da que só se consegue estudando muito.
Ao portuga o que interessa é safar-se.

terça-feira, 21 de junho de 2011

o nosso ministro

Criaram no Facebook um grupo: "Nuno Crato a Ministro da Educação". Rapidamente adquiriu mais de meio milhar de seguidores, o que indicava que não - o Nuno Crato não seria Ministro da Educação, apesar do apoio recebido na rede social, até porque este apoio de rede social, se contar, é para trás.
Mas eis que.
Nuno Crato acaba de tomar posse como Ministro da Educação.
É bom demais para ser verdade.
Desde logo, espanta, até certo ponto, pelo menos a uma comum mortal que não o conhece a não ser de algumas coisas que vai lendo, vendo, ouvindo, que ele tenha aceitado o cargo. Primeiro, porque é de pensar que ele está acima destas coisas mesquinhas de ser ministro, de fazer parte do Governo. Em segundo lugar, porque não precisa deste cargo para nada: é mais do que respeitado, ninguém se atreve a contradizê-lo (como poderiam?). E depois porque o que ele diz é demasiado incómodo para o quererem para ministro. (Implodir o Ministério da Educação, lembram-se?)
Donde: ou a ideia é cortar-lhe as pernas (e a voz) de vez, encostá-lo a um canto, caso em que, ou muito me engano, ou ele demite-se não tarde nada, ou então temos, pela primeira vez desde que me lembro, um Governo que está seriamente preocupado com a educação no nosso país, com a educação dos nossos filhos, um Governo que está a falar a sério: de mudança.
"As Provas de Aferição são uma anedota." - sic, palavras do novo ministro. Já avisei os meus alunos. No próximo ano os cabeçalhos das provas mudam. Passam a dizer Exame. A sério que acho isto: quem tem a temer, neste momento, são os alunos - não os professores. Nós podemos até ter de trabalhar mais, mas eles vão ter de pedalar como nunca sonharam.
O novo ministro defende os exames. E a autonomia das escolas. Concordo com ambos: cada escola sabe o que é melhor para os seus alunos muito melhor do que qualquer ministério sediado na capital, tão longe daquilo a que nos habituámos a chamar Portugal real. Falo por experiência própria: a "minha" escola fica no meio de nenhures, alguns alunos acabam o nono ano e têm medo de ir estudar para Guimarães: a cidade é grande, não conhecem, têm medo de se perderem. Ou vão ter um afilhado e, entre a escola e o trabalho, optam pelo último: sempre terão dinheiro para lhe dar prendas. Quanto aos exames, parecem-me essenciais para devolver credibilidade ao sistema educativo. Vivemos uma era de facilitismo: um aluno que "queira" reprovar tem de meter requerimento, de preferência em papel azul de vinte e cinco linhas - aquele que já nem há. Só assim - responsabilizando os alunos pelo seu (in)sucesso escolar é que as coisas poderão mudar para melhor. Os alunos têm de deixar de ser os "coitadinhos". Não podemos dizer que, à luz da lei, a passagem de ano seja automática, claro que não, mas a verdade é que reprovar é cada vez mais difícil. E um Zequinha que já tenha uma reprovação na mochila só muito dificilmente terá segunda. Ou então... que seria das estatísticas?
É precisamente aqui que reside a minha esperança no novo ministro: ele não quer saber de estatísticas. Ele está preocupado com os resultados reais. E sabe que, para melhorar, primeiro tem de piorar. Vão chumbar muitos meninos - até ao dia em que perceberem que têm de estudar e, então, regressarão as boas notas.

terça-feira, 14 de junho de 2011

são lindos...

A minha pequenata, que tem dois anos e meio, e o primo, que já fez três - filho da minha prima, madrinha dela, melhor dizendo - adoram-se.
Nem podia deixar de ser: têm idades muito próximas, são colegas de sala no Colégio. Ele protege-a, que é forte (é mesmo), ela venera-o. Só brinca com ele, quase não fala com mais nenhum colega. Ele porta-se bem (!), mas passa-lhe assim uma nuvem se alguém tenta chegar à beira dela.
No Sábado foi dia de festa para os dois. Encontraram-se em casa da minha mãe, à hora do almoço, e passaram a tarde juntos, jantaram juntos... Há uma fotografia linda dos dois sentados num baloiço. Ele quis levá-la a ver os seus amigos, i.e.: comer um gelado ao café onde ele habitualmente vai com os pais, e ela obedeceu-lhe em tudo: "Diz olá.", "Dá um beijinho." (Quem a conhece sabe como é difícil acreditar...)
Esta noite, como se não bastasse ter adormecido tardíssimo e eu ainda ter vindo trabalhar, apareceu-me às quatro e meia da manhã, o que é habitual nela. Choramingava...
"O que foi, querida?"
"Tou tiste."
"Estás triste? Porquê?"
"Quero o..."
"Tens saudades dele?"
"Xim."
"Então vamos dormir mais um bocadinho, para amanhã brincares com ele no Colégio, todo o dia, está bem?"
"Xim."
E assim foi.
À tarde, no regresso a casa, contou-me:
"Sabes? Eu tenho um irmão."
"Tens um irmão? Quem é?" (Como se eu não soubesse...)
"É o..."
E lá vinha, toda contente.


Nota: Não ponho os nomes das minhas filhas, nem os de outras crianças, em nenhum sítio na Internet. Nem aqui.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

am I gothic?

You can be too moody and impossible to understand. Most people don't have feelings as strong as yours.
You are a sensitive, romantic soul. You live to love... it's the most important thing for you.

You're quite loyal to those you love most - friends and family. You have a sweet heart.
You are a deeply spiritual and wise person. You seek meaning in every aspect of your life.



Hoje, nos intervalos de todos os contos que li para um suposto concurso "literário", fiz uns testes no Facebook.
Pelos vistos, o meu estilo arquitectónico é o Gótico... Ora bem... Este é um dos pontos em que eu e o meu marido discordamos sempre: Ele adora edifícios (especialmente catedrais) em estilo Gótico, percorremos quilómetros para ver só mais aquela catedral que tem a nave não sei quê e as torres mais altas do que não sei qual. Eu prefiro o Renascentista, para ser muito sincera. O problema é que muitas das catedrais renascentistas foram mais tarde - para meu grande desgosto - "embelezadas" pelo Barroco.
Quanto ao resto, à apreciação que o tal teste cientificamente testado (?) diz, acho que a descrição me assenta como uma luva.

terça-feira, 7 de junho de 2011

aquela pré-adolescente insuportável

A resposta é... sim. As minhas filhas são perfeitamente viciadas na Pipi das Meias Altas (deixa-me pôr o título com as minhas maiúsculas todas antes que passe a ser oficialmente erro ortográfico).
A minha irmã tem na Pipi a mais acalentada recordação de infância. Eu, confesso, não me lembro tanto assim. Na verdade, algumas cenas que vejo agora nos filmes são-me familiares, a música, mas não recordava tanto como ela.
A Pipi reentrou na nossa vida quando a minha santa mãe comprou um DVD para a minha filha mais velha, que tinha então... dois anos. Já ouviram falar em amor à primeira vista? A Pipi tornou-se de imediato na mais absoluta heroína. Sempre que acabava o filme, toca a puxar a fita atrás e pôr outra vez... Não! Era DVD! Nem sequer tínhamos a folga do tempo de passar a fita atrás. Depois, mais um conjunto de coleccionador: quatro DVDs, no Natal, para mim e para a minha irmã, for old times' sake. Foi o delírio da pequenita.
A mim, dá-me nos nervos.
Na minha (humilde ma non tropo) opinião de mãe, a Pipi das Meias Altas personifica tudo aquilo que eu NÃO QUERO que as minhas filhas sejam. A minha mãe, sempre benevolente, diz que ela é desenrascada, que consegue ultrapassar todas as dificuldades. Não. Ela é malcriada, não tem maneiras, não respeita a autoridade, não respeita os mais velhos, e é a heroína da pequenada. Pior: quando os dois amigos decidem fugir de casa, a mãe deles pede à Pipi para os acompanhar, tipo anjo da guarda.
A Pipi vive sozinha, o que lhe permite fazer tudo e mais alguma coisa. Tipo: dormir vestida e calçada, com as botas, cujo cheiro o DVD não esconde, em cima da almofada. Tem um saco cheio de dinheiro - um saco a sério, uma mala daquelas de médico à antiga - que se destina, como diz a música do genérico, a doces, rebuçados e caramelos. Mas também dá para atirar pelo ar, na brincadeira. Toma banho numa enorme meia-pipa de madeira, no meio da casa (nada a opor) e, no fim, deita a água para o chão, que esfrega "patinando" sobre duas escovas. Literalmente. Mas há mais: parte os ovos na cabeça e bate-os com uma vassoura. Não sabe ler, porque não é preciso, e não vai à escola, porque seria uma seca ter de obedecer à professora.
Não dá para a minha paciência. Não sou uma mãe perfeita - antes desastrada, como confesso uns posts abaixo - nem quero as minhas filhas numa redoma de vidro. Mas tanto também não.
Então, tomei uma decisão drástica. Nas férias da Pascoa, em 2008, estava eu grávida da minha pequena, fomos uns dias a Barcelona. A Pipi foi de férias também, visitar o pai, que está nos Mares do Sul, seja lá onde isso for. Agradaram-lhe os ares, ficou lá uns anos. Não é que a minha moça, que tinha dois anos e meio, não se esqueceu?!
Passaram-se outros dois anos e lá me convenceram que era tempo de a Pipi regressar. Escusado será dizer que o sucesso foi total e imediato - nas duas. Vêem a Pipi sempre que estão em casa da avó e o máximo que consegui foi limitar a uma vez por dia.
E o pior de tudo é a música. Sim, porque podia haver toda aquela anarquia - reitero: ela é uma hippie - a voz esganiçada e tudo, mas não a música. Pior que má. Pra lá de irritante. 

sábado, 4 de junho de 2011

lar, doce lar...

Uma prima perguntou-me há dias se sabia bem ter quem me fizesse tudo, nem que fosse só por uns dias. A resposta é sim. Sim, sim, sim. Nem podia deixar de ser. Tirar (quase) umas mini-férias de (quase) tudo, incluindo as birras das sopas, dos banhos, do acordar de manhã, é bom. É muito bom.
Mas regressar a casa, oh! regressar a casa é o melhor do mundo. Mesmo quando se vai de férias.
Primeiro: aqui em casa há muito menos televisões - e estão desligadas. A não ser que as piruças estejam a ver desenhos animados... o que é quase sempre. Lá, só na sala, há três televisões. A sério. Uma na parte de sala de estar, uma na sala de jantar e uma a meio - para as meninas, as minhas meninas... E o pior de tudo é que chegam a estar ligadas as três... ao mesmo tempo. (Fora a da cozinha...) E o pior é que a das meninas dá a Pipi das Meias Altas pelo menos uma vez por dia. Descontando a minha implicância, mais que justificada, diga-se de passagem, com aquela pré-adolescente hippie, concordem: a música é de dar nos nervos.
E eu que gosto tanto do silêncio...
E depois, por mais que estejamos à vontade - e estávamos, todos, por mais que tenhamos tudo, e tínhamos, there's no place like home.
Não há nada como estar em casa.

só não percebo a alusão aos padres...

In all countries where women are not honored in public, like sacred objects, even higher than priests, there will be no morals.
Restif de la Bretonne

quarta-feira, 1 de junho de 2011

não resisto. uma aluna fez este balanço da oficina de leitura:

A Oficina de Leitura é um projecto que tem vindo a fortalecer as crianças, desde os pequeninos aos mais velhos. Sem dúvida nenhuma, este Projecto tem uma boa função: normalmente, em todas as idades, sejam crianças, adolescentes ou adultos, não mostram interesse pela leitura. O nosso Projecto tem o desafio de despertar em todos o gosto pela leitura e nestes últimos tempos temos vindo a observar bons resultados. Vamos ler às escolas e os meninos pedem sempre mais, e vê-se na carinha de todos que gostam das histórias que lhes são lidas, e ver isso em todos ainda nos dá mais prazer de lhes ler, de passar mais tempo com eles.
Falo por mim, e penso que todos os que estão neste grupo o dizem também: nós, que chegámos ao Instituto Silva Monteiro pequeninos, traquinas, sem interesse e sem preocupação pelas disciplinas, principalmente a disciplina de Língua Portuguesa que é o que se aplica aqui, a professora Eduarda Abreu conseguiu despertar em nós aquele gosto pela leitura que estava adormecido em nós, através de pequenos contos, exercícios de relaxamento… parecia que quando ouvia aquelas histórias suaves, maravilhosas a entrarem pelos meus ouvidos, parecia que entrava num mundo fora da realidade, e além do mais esquecia todos os problemas que uma criança tem, sejam em casa, na escola, tudo, era como se entrasse nas histórias ou vivesse um Conto de Fadas. Não sei se aconteceu com alguém, mas comigo aconteceu, num dos exercícios de relaxamento que a professora Eduarda fez eu consegui ver a imagem de uma pessoa muito próxima, não cheguei a conhecê-la, só a conhecia por fotografias, parecia que comunicava com ele e fiquei um bocado assustada, mas no entanto percebi que foi bom aquele momento, principalmente depois de desabafar com a professora Eduarda e ela me dar um ombro amigo.
Entrar nesta Oficina, para mim, foi um desafio muito bom de superar, fiquei mais culta, e de certa forma também contribuiu para a minha maturidade.
Não me arrependo de passar as sextas-feiras de tarde rodeada de meninos pequeninos, que me surpreendem de dia para dia, gostarem tanto da leitura, e eu que me arrependo de não ter podido passar assim pequenos momentos, que me lessem contos, para viver uma vida ainda mais feliz, mas aproveito agora, para que não me escape nenhum menino de se vir a arrepender do que eu me arrependi.
Queria que este projecto continuasse, para continuarmos a fazer a nossa função e dar a oportunidade a adolescentes da nossa idade entrarem também neste Projecto.
Peço mesmo, do fundo do meu coração que este Projecto continue!

cântico negro, José Régio

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,
( Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam os meus próprios passos…
Se o que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velhos dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é quem me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!