Havia há muito decidido desenvolver uma actividade de incentivo à leitura que envolvesse não só os alunos, mas também o seu agregado familiar. Comecei por “sondar” se os alunos estariam receptivos a ler os contos que eu queria que eles lessem. Logo no início do ano, na primeira aula, em jeito de boas vindas, li-lhes um conto, o Encontro com a Dama das Histórias, de que me pareceu terem gostado muito. Passados uns dias, li um outro e, desta vez, mostraram-se tão entusiasmados que decidi aceder ao seu pedido de lhes fotocopiar conto (O Relógio da Avó).
Woman reading
Alexander Deineka
segunda-feira, 19 de abril de 2010
conto contigo
mais leituras
Seria muita petulância achar que as minhas leituras foram as ideais, as acertadas, adequadas, em qualidade e quantidade. Em quantidade, por absurdo que pareça, acho que estiveram muito aquém do que eu gostaria. Claro que eu sei que a quantidade é completamente irrelevante, mas, mesmo assim, gostaria de ter sido mais guiada, mais aconselhada, sobretudo durante a adolescência, que é uma fase em que nem sempre se sabe o que se há-de ler. Já não se gosta dos livros de criança, ou já estão lidos, e ainda é cedo para ler os livros ‘de adultos’.
Gostaria de ter escrito aquele texto da Isabel Stilwell, em que ela descreve como as personagens dos mundos encantados dos livros que povoaram a sua infância continuam a fazer-lhe companhia e a alimentar o seu imaginário.
Infelizmente, a minha cultura literária, tenho de confessar, não é tão vasta. Pelo menos no que diz respeito a literatura infantil.
Li mais na idade adulta. Curioso, este pretérito perfeito. Eu continuo na idade adulta, muito a tempo de ler muitas coisas – boas e más. Mas a verdade, facilmente compreensível por quem tiver filhos, grandes ou pequenos, porque todos começaram por ser pequenos, é que tenho lido muito pouco. Gostaria de ler mais. Penso nisso muitas vezes, mas como conseguir tempo? Como conseguir capacidade de concentração ao fim de um dia de trabalho, de correrias para colégios, piscinas, banhos, sopas? É que ler é um exercício de concentração. Claro que também promove a imaginação, ajuda a abstrair das ocupações absorventes do dia-a-dia, a escapar. Mas continua a ser preciso ter alguma capacidade de concentração. Ou, pelo menos, de tempo para que essa concentração surja.
domingo, 18 de abril de 2010
leituras
De repente lembrei-me que tenho uma história parecida com aquela que aparece no início de “O Principezinho”. Lembram-se, quando o narrador, ainda menino, mostrava um desenho a todos os adultos que encontrava e nenhum percebia que se tratava de uma jibóia a digerir um elefante, enquanto o Principezinho nem hesitou na resposta?
Eu estava, na altura, a ler “A História Interminável”, de Michael Ende. É a história de Bastian Baltazar Bux, um rapaz de doze ou treze anos a quem os colegas de escola roubam diariamente o lanche, dinheiro, o que puderem. Num desses dias, tentando fugir-lhes e depois de se ter escondido num contentor de lixo, abre a primeira porta que encontra e entra – para, mais uma vez, se esconder dos colegas. Sem saber, aquela porta abre a loja de um alfarrabista velho e rabugento. Bastian é um amante de livros, uma criança que devora livros em todos os locais e a todas as horas. Ver-se de repente num alfarrabista dá-lhe a sensação de ter entrado no paraíso propriamente dito. O velho está sentado a uma mesa a ler um livro que parece muito antigo e, claro, Bastian não consegue deixar de perguntar que livro é aquele. Numa resposta evasiva, o velho diz-lhe que é um livro perigoso, que ele não deve ler. De repente, toca o telefone, num escritório na parte de trás da loja e o alfarrabista afasta-se para atender, não sem antes recomendar que Bastian podia pegar em qualquer livro, menos naquele. Ora aqui está a última coisa que se pode dizer a uma pessoa completamente viciada
Este, por sua vez, é giríssimo, porque está impresso a duas cores: bordeaux para o que se passa na Terra, com Bastian, verde para o que se passa no reino de Fantasia, para onde Bastian é transportado através da leitura. Sensivelmente a meio da história, Bastian é chamado, por ser aquele que está neste momento a ler o livro, a resolver um problema que está a colocar em causa a continuidade da existência do próprio reino de Fantasia: a Imperatriz Menina está a morrer e precisa de um novo nome. Meio incrédulo, Bastian lá pronuncia em voz alta, tal como o livro exige, o nome que escolheu e é imediatamente transportado para o reino de Fantasia, onde vive as mais fantásticas aventuras, de todos os tipos.
Eu tentava, a meio da minha leitura, não tão mágica, apesar de tudo, explicar a história a um adulto, que prontamente me respondeu: “se é em fantasia, não existe”. “Existe, insisti, existe porque ele vai para lá.” Perante a “razão” que eu compreendia que o adulto tinha e a sua aparente incapacidade de compreender a razão que eu tinha, preferi calar-me, pensando que ele seria bem mais feliz se tivesse lido um livro como aquele quando era criança.