A resposta é... sim. As minhas filhas são perfeitamente viciadas na Pipi das Meias Altas (deixa-me pôr o título com as minhas maiúsculas todas antes que passe a ser oficialmente erro ortográfico).
A minha irmã tem na Pipi a mais acalentada recordação de infância. Eu, confesso, não me lembro tanto assim. Na verdade, algumas cenas que vejo agora nos filmes são-me familiares, a música, mas não recordava tanto como ela.
A Pipi reentrou na nossa vida quando a minha santa mãe comprou um DVD para a minha filha mais velha, que tinha então... dois anos. Já ouviram falar em amor à primeira vista? A Pipi tornou-se de imediato na mais absoluta heroína. Sempre que acabava o filme, toca a puxar a fita atrás e pôr outra vez... Não! Era DVD! Nem sequer tínhamos a folga do tempo de passar a fita atrás. Depois, mais um conjunto de coleccionador: quatro DVDs, no Natal, para mim e para a minha irmã, for old times' sake. Foi o delírio da pequenita.
A mim, dá-me nos nervos.
Na minha (humilde ma non tropo) opinião de mãe, a Pipi das Meias Altas personifica tudo aquilo que eu NÃO QUERO que as minhas filhas sejam. A minha mãe, sempre benevolente, diz que ela é desenrascada, que consegue ultrapassar todas as dificuldades. Não. Ela é malcriada, não tem maneiras, não respeita a autoridade, não respeita os mais velhos, e é a heroína da pequenada. Pior: quando os dois amigos decidem fugir de casa, a mãe deles pede à Pipi para os acompanhar, tipo anjo da guarda.
A Pipi vive sozinha, o que lhe permite fazer tudo e mais alguma coisa. Tipo: dormir vestida e calçada, com as botas, cujo cheiro o DVD não esconde, em cima da almofada. Tem um saco cheio de dinheiro - um saco a sério, uma mala daquelas de médico à antiga - que se destina, como diz a música do genérico, a doces, rebuçados e caramelos. Mas também dá para atirar pelo ar, na brincadeira. Toma banho numa enorme meia-pipa de madeira, no meio da casa (nada a opor) e, no fim, deita a água para o chão, que esfrega "patinando" sobre duas escovas. Literalmente. Mas há mais: parte os ovos na cabeça e bate-os com uma vassoura. Não sabe ler, porque não é preciso, e não vai à escola, porque seria uma seca ter de obedecer à professora.
Não dá para a minha paciência. Não sou uma mãe perfeita - antes desastrada, como confesso uns posts abaixo - nem quero as minhas filhas numa redoma de vidro. Mas tanto também não.
Então, tomei uma decisão drástica. Nas férias da Pascoa, em 2008, estava eu grávida da minha pequena, fomos uns dias a Barcelona. A Pipi foi de férias também, visitar o pai, que está nos Mares do Sul, seja lá onde isso for. Agradaram-lhe os ares, ficou lá uns anos. Não é que a minha moça, que tinha dois anos e meio, não se esqueceu?!
Passaram-se outros dois anos e lá me convenceram que era tempo de a Pipi regressar. Escusado será dizer que o sucesso foi total e imediato - nas duas. Vêem a Pipi sempre que estão em casa da avó e o máximo que consegui foi limitar a uma vez por dia.
E o pior de tudo é a música. Sim, porque podia haver toda aquela anarquia - reitero: ela é uma hippie - a voz esganiçada e tudo, mas não a música. Pior que má. Pra lá de irritante.
Não diria melhor... Que raio de escola há no ventre materno que elas saem de nós com a lição na ponta da língua? Agora nem tanto, mas houve uma fase que minha mais velha passava uma tarde a ver o episódio do cavalo dentro de casa e das peripécias da ruiva a fugir e a mangar dos polícias... Ah e lembrei-me de outro, da taberna, em que a "pipilota" arrumou com uns quantos piratas...
ResponderEliminarExcelente texto ;-)