Woman reading

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Alexander Deineka

domingo, 27 de setembro de 2009

importa-se de repetir?

Foi ontem o funeral de uma pessoa muito querida. Embora nunca tenha tido filhos, o que ontem se viu foi que deixou muitos sobrinhos órfãos. Choravam inconsoláveis a sua perda.
Na missa de corpo presente, o padre, que a conhecia muito bem desde há muitos anos, por muitas razões, mais pelo seu envolvimento em todos os assuntos da igreja, a começar pela catequese, num rasgo de inspiração informou que estávamos ali perante "o cadáver carcomido pela doença".
O que é que eu vou fazer a estas igrejas?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

como fiz da minha filha uma bibliófila IV

Quais são as suas preferências? Os contos tradicionais, sem dúvida alguma. Os Três Porquinhos, Capuchinho Vermelho, O Gato das Botas, por aí adiante. Tipicamente, ouve-os vezes sem conta, seguidas, até eu os saber de cor. Primeiro em silêncio. À terceira ou quarta vez, começa a fazer uma perguntita sobre o enredo. Quando as perguntas começam a ser muitas, é sinal de que já percebeu, já assimilou todos os detalhes que lhe são importantes. Então, passa-se a outro conto. Este processo demora vários dias, claro.

Para minha surpresa (e estou a ser sincera) há novas colecções de livros, muitas vezes inspiradas em séries de televisão, que são muito bonitos, de que ela também gosta muito e que encerram informação importante e bem transmitida sobre os valores da amizade, da entreajuda, do trabalho. Quanto a mim, o problema é que são livros que se baseiam em filmes, sendo que o filme é frequentemente mais completo e mais interessante do que o livro, contrariando aquilo a que estamos habituados.
Com os contos tradicionais, o problema que surge é de outra natureza. A fúria editorial é tamanha que algumas edições recriam as histórias. Por exemplo: tenho uma versão de Os Três Porquinhos em que, em vez de cada irmão construir a sua casa, constroem os três as três casas, em sucessivas tentativas de escaparem ao lobo mau, o que desvirtua completamente, na minha opinião, a mensagem central do conto: o arquétipo de que a união faz a força.

Não sei dizer se a minha estratégia é a perfeita, se há mais e melhores coisas que eu poderia ou deveria fazer, mas uma coisa é certa: não raras vezes, encontro-a sentada num sofá, no chão, com um livro, que “lê”, em voz alta, a si própria. Conhece mais verbos introdutores do diálogo (dos complicados) do que os meus alunos de sexto ano que obtêm classificação “C” na Prova de Aferição. Sem nunca ter convivido com famílias judias, sabe que existe e o que é um menorah.
Um livro é o que escolhe para oferecer, nos aniversários, aos amiguinhos, porque, para ela, um embrulho que faça adivinhar um livro é o que lhe desperta mais curiosidade, o que abre com maior avidez.

sábado, 19 de setembro de 2009

o novo livro do meu pai

É. Não é que o meu pai tenha recentemente escrito um novo livro. Descobriram há tempos mais um livro que ele tinha na gaveta e foi apresentado na quinta-feira, na Sociedade Martins Sarmento, e na sexta-feira em S. Martinho.

"S. Martinho de Candoso, Ontem e Hoje"

Eu não fazia ideia, mas é uma obra com grande valor histórico, por duas razões: em primeiro lugar, porque são raras as monografias sobre freguesias do concelho, quase inexistentes. Depois, porque obedece a uma cuidada investigação histórica e a um conhecimento muito profundo do local.

Ele escreve muito, sempre escreveu. Tenho tentado convencê-lo a criar um blog. Não lhe daria trabalho nenhum, porque já escreve imenso - e dar-lhe-ia muito prazer.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

como fiz da minha filha uma bibliófila III

Quando tinha dezoito meses, a sua capacidade de concentração já me permitia ler-lhe as histórias de um livro que recomendo a todas as mães e que encontrei nas prateleiras de um supermercado: Boa Noite, Ursinho. Um vistoso “calhamaço” com três histórias lindíssimas que a mãe Urso lê ao seu filhote para o colocar nas asas de Morfeu: histórias sobre a hora de dormir, que surge como uma coisa boa, sem bruxas, lobos maus ou outros seres capazes de despertarem pesadelos. Aprendeu-as de cor, como seria de esperar, de tantas vezes que lhas li por sua própria insistência, exigência, até.
Entretanto, o cuidado que tinha ao manusear os livros foi evoluindo também e isso permitiu alargar o leque: aos dois anos e pouco já folheava sozinha livros de folhas finas, sendo de registar que nunca rasgou nenhum.

Quando a irmã nasceu, a três meses do seu terceiro aniversário, perguntámo-nos que prenda lhe deveria trazer, o que a faria mais feliz, que presente seria mais especial. Rapidamente concluímos que aquilo que lhe dá mais prazer são os livros.

Mais tarde, quando se tornou vital criar em casa um espaço chamado “quarto dos brinquedos”, tentei uma nova “casca de banana”: junto às quatro prateleiras que já tem repletas de livros, coloquei o seu sofá, à sua medida, e uma manta que trouxe o Pai Natal, “para pores nos joelhos, se tiveres frio”. Tenho de confessar que fiquei admirada quando a vi ir directa a esse cantinho, colocar a manta nos joelhos e escolher um livro. Pode ter sido da novidade, de ter ficado assoberbada por ver os seus brinquedos, tantos, subitamente arrumados de maneira que tinha acesso a todos, o que até aí não acontecia, mas a verdade é que já se passaram vários meses e esse continua a ser o seu cantinho favorito. Dentro e fora de casa: um sofá e um livro são os ingredientes perfeitos para um bom pedaço de tempo.

Recentemente, de um momento para o outro, tivemos de sair de casa para dormir fora, situação que, sabíamos à partida, se prolongaria por uma semana. Ficou incrédula quando, à hora de dormir, nos apercebemos de que não havia livro – apenas conseguimos encontrar dois, “de bebé”, que é o que chamamos aos livros que não têm praticamente texto, que apresentam a história muito resumida. Lá lhos li, acrescentei histórias sem livro e lá passou a primeira noite.
Quando, no dia seguinte, com mais calma, fui a casa munir-me dos “precisos” para a semana, escolhi uma série de livros e levei-lhos, dentro de uma mochila. Ao chegar, disse-lhe que lhe trazia uma surpresa. Ao perceber que se tratava de uma mochila cheia de livros por onde escolher para cada noite, o seu rosto iluminou-se num sorriso!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

há sempre uma primeira vez...

Chamem-me o que quiserem, mas a verdade é que levei hoje, pela primeira vez, as minhas filhas ao parque. A mais velha tem três anos, quase quatro, a pequenina treze meses.
Não tenho o hábito de as levar ao parque porque têm um "parque" mais que bom em casa dos meus pais: imenso espaço exterior, jardim, flores, bolotas, baloiços, bicicletas, triciclos e por aí fora. Na verdade não precisam de ir ao parque para saírem do apartamento em que vivem e onde, a bem da verdade, passam pouco tempo.
Hoje saí da escola relativamente cedo, fui buscar a pequenina a casa dos avós, dei uma boleia ao meu pai e fui buscar a grande ao colégio. Cheguei um pouco mais tarde do que costumo, mas cedo, ainda assim, na opinião dela, que queria continuar no parque. Quando percebeu que tomávamos a direcção de casa - e não de casa da avó - protestou. Protestar significa fazer birra, insistir que quer ir à avó, enfim, prova de paciência. Expliquei-lhe que não estava ninguém em casa: uma meia verdade, mas não estavam de facto as pessoas com quem ela queria brincar.
Num flash de inspiração, lembrei-me: e se fôssemos ao parque da cidade? Ficou feliz, claro.
Lá fomos. Andaram de baloiço (como se já não o fizessem há anos), de escorrega. Não era preciso ir ao lago, porque "vê-se daqui". Quer dizer: o baloiço era demasiado importante.
Cerca de uma hora depois, estava na hora de regressar. Já passava das seis da tarde e estava a ficar frio, sobretudo para a mais pequenina, e eu não tinha levado casacos: fomos de improviso. Não podia ser, porque ainda não tínhamos ido ao lago. Tinha de ser porque estava na hora e estava a ficar frio. Berrou o tempo todo. Do parque até ao carro, que estava no fim do parque de estacionamento. No carro porque tinha que entrar antes da irmã. Porque tinha de entrar primeiro a irmã. Porque não queria vir para casa. Berrou até chegar a casa: a viagem, a cerimónia de as tirar do carro - que leva o seu tempo - o elevador, até ligar a televisão e me pedir o comando, aos berros.
Foi a minha primeira vez com as minhas filhas no parque.

sábado, 12 de setembro de 2009

a gripe

Parece-me que há um exagero na forma como se está a tratar este assunto da gripe A. Acho sempre que os nossos jornalistas têm o dom de irresponsavelmente empolar certo tipo de assuntos, criando um alarmismo exagerado.
Esta semana, fui com a minha bebé a uma consulta de rotina na pediatra. Disse-me que estava na altura de lhe dar a vacina da varicela, mas que era melhor perguntar primeiro à cardiologista se achava conveniente dar-lhe a vacina da gripe sazonal, visto que ela é grupo de risco, por causa da merdinha do canal arterial - a mais velha nunca tomou vacinas contra a gripe.
A pergunta foi feita e a resposta foi de forma a não deixar dúvidas: a cardiologista atou as mãos à cabeça e quase gritou que nem pensar em vacinar contra a gripe, porque o enfraquecimento que se segue à administração da vacina poderia favorecer o surgimento de sintomas - o que, por sua vez, seria o fim do mundo.
E agora?
E se a mais velha apanha a famosa gripe A no colégio? A pequenina NÃO pode apanhar.
Como é que eu impeço?
Pela primeira vez, tenho de dizer: estou cheia de medo. Não me interessa que me digam que o que ela tem não é grave. Agora digo: quero que lhe façam o tal cateterismo o mais cedo possível. Mas e se tem de ir para cirurgia?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

como fiz da minha filha uma bibliófila II

Tratei de fazer do livro um objecto normal, do dia-a-dia dela, tal como os guizos, a chupeta, a fralda que roçava com os dedos para adormecer.

O primeiro livro que ela teve era de pano, sobre o “Fundo do Mar”. As “folhas” faziam barulho e os seus cantos eram de borracha, para massajar as gengivas aquando do aparecimento dos primeiros dentes. Tinha uma asa, para ela poder agarrar, como todos os outros guizos que se destinam a bebés de três ou seis meses.

Seguiu-se um outro livro, com ilustrações giríssimas de animais marinhos (também), que era um brinquedo para o banho. Até no banho - um rápido duche - havia espaço para ler.

Quando se tornou possível interagir um pouco mais, ou seja: quando atingiu a idade que a irmã tem agora, apareceram os primeiros livros "a sério": pequenos, à medida das mãos dela; cartonados, para serem mais resistentes, claro; com imagens, pouco texto, mas o suficiente para ela perceber que nos livros existia informação e que essa informação lhe interessava: as vozes dos animais, os seus filhotes, os elementos da Natureza, a relação entre os meios de transporte e a função a que estão destinados, o inevitável Natal, os frutos, as cores, os vegetais... Rapidamente os leu sozinha: abria na página com a imagem do perú e "lia": "galu, galu". Fazia as minhas delícias.

Vendo que estes estavam a "entrar", arrisquei outros, que já contavam uma pequena história: uns livros da Anita, pequeninos, também cartonados (o que, além do mais, lhe facilitava o folhear), com oito ou dez páginas daquelas belíssimas ilustrações acompanhadas de uma ou duas frases muito simples, que resumiam os livros da Anita que conhecemos de toda a vida. Rapidamente começou a comentar a leitura: "totó", quando a protagonista ia brincar para a neve sem casaco nem gorro, apontava para a imagem do gato quando eu lia que ele fora visitara a Anita convalescente, etc. Associava o livro à pessoa que lho oferecera.

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