Woman reading

Woman reading
Alexander Deineka
Mostrar mensagens com a etiqueta recordações. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta recordações. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

o Pinheiro







Não há noite mais importante para um estudante de Guimarães. Mesmo o meu pai, em quem Deus se esqueceu de incluir a costela boémia, acha inconcebível, imperdoável, que um estudante de Guimarães não saiba dizer, mesmo a dormir, a data do Pinheiro. Há muitos anos que não, mas recordo-me de o ver sair nesta noite. Nesta e em nenhuma outra. A não ser que estivesse de urgência. Levava o barrete verde e vermelho da praxe, religiosamente guardado na gaveta durante todo o resto do ano, e em que estávamos proibidas de mexer. O papá sair para uma festa de barulho e excessos, ele que odeia barulho e nunca, por nunca, foi de excessos. Não que na altura soubéssemos já o tipo e a quantdade dos tais excessos. Só muitos anos mais tarde tivemos direito a ver também. Começava com o jantar de rojões, papas, castanhas assadas, regado com vinho verde. No Jordão, naturalmente.
É preciso dizer: esta é a noite de pesadelo de quem trabalha no hospital, sobretudo no serviço de Urgência. Pela hora do jantar, começam a entrar os que se excederam mais do que deviam e o cortejo de vómitos não acaba até meio da manhã do dia seguinte. Dobra-se o pessoal de serviço, é bem preciso.
Mas a verdade verdadeira é que não há nenhum (antigo) estudante de Guimarães que não guarde pelo menos uma boa recordação, de pelo menos uma noite de Pinheiro bem passada.
As minhas melhores recordações do Pinheiro datam de 1990 e de 1991. A primeira é a do Pinheiro do meu 12º ano; a segunda, do meu primeiro ano de Faculdade. Vim a Guimarães de propósito, claro está, coisa que, no Porto, nem todos compreenderam.
O meu dia, ou, melhor dizendo, a minha tarde de 29 de Novebro de 1990 foi longa. Penosamente longa.
Tinha dezassete anos, comeara a usar óculos duas ou três semanas antes e nessa tarde, na paragem de autocarro, dirigindo-me a casa, debati-me com a maior dor de cabeça que sentira em toda a vida. Não sabia o que fazer. Tirei os óculos, voltei a colocá-los, quem usa sabe que a adaptação pode ser difícil, demorada. Era possível que a minha dor de cabeça se devesse ao óculos. Cheguei a casa para encontrar apenas a avó, que a mamã tinha saído. Protestava, a minha avó, como sempre que a mamã saía: está sempre lá fora. Mas não demorou a chegar. Na verdade, decidindo que o que a ausentava de casa não valia a pena, dera a volta na primeira esquina e estava de regresso. Percebeu de imediato que eu tinha uma terrível enxaqueca (detesto esta palavra), a primeira de muitas, tantas que já lhes perdi a conta. Com a mesma idade que ela. Dezassete anos. Há heranças que se dispensavam. Meteu-me na cama, quente, deu-me comprimidos, que tomei sem perguntar o que eram. E chá. E ali ficou, sentada aos meu pés, a ver como evoluía. Entretanto, ia-me contando da sua vasta experiência na matéria. "Sabes de que tenho medo quando estou assim? de uma hemorragia cerebra, de um AVC." Pois. Eu ali, sem poder mexer-me, e ela ia desfiando o rol de coisas terríveis que podiam, improvavelmente, acontecer. Passaram várias horas, a dor de cabeça foi embora à força de tanta droga, dando espaço à minha preocupação mais importante do dia: eu tenho de ir ao Pinheiro. Tu não bebas nada, dizia-me a minha mãe. Nem uma coca-cola. Com as coisas que tomaste, beber é muito perigoso. Lá fui. Cumpri à risca, claro. Nem sumo de laranja arrisquei. Bebi só água. E diverti-me como em nenhuma outra noite em toda a minha vida, até hoje, vinte e um anos depois.
Voltei a casa no autocarro do meio-dia.

terça-feira, 7 de junho de 2011

aquela pré-adolescente insuportável

A resposta é... sim. As minhas filhas são perfeitamente viciadas na Pipi das Meias Altas (deixa-me pôr o título com as minhas maiúsculas todas antes que passe a ser oficialmente erro ortográfico).
A minha irmã tem na Pipi a mais acalentada recordação de infância. Eu, confesso, não me lembro tanto assim. Na verdade, algumas cenas que vejo agora nos filmes são-me familiares, a música, mas não recordava tanto como ela.
A Pipi reentrou na nossa vida quando a minha santa mãe comprou um DVD para a minha filha mais velha, que tinha então... dois anos. Já ouviram falar em amor à primeira vista? A Pipi tornou-se de imediato na mais absoluta heroína. Sempre que acabava o filme, toca a puxar a fita atrás e pôr outra vez... Não! Era DVD! Nem sequer tínhamos a folga do tempo de passar a fita atrás. Depois, mais um conjunto de coleccionador: quatro DVDs, no Natal, para mim e para a minha irmã, for old times' sake. Foi o delírio da pequenita.
A mim, dá-me nos nervos.
Na minha (humilde ma non tropo) opinião de mãe, a Pipi das Meias Altas personifica tudo aquilo que eu NÃO QUERO que as minhas filhas sejam. A minha mãe, sempre benevolente, diz que ela é desenrascada, que consegue ultrapassar todas as dificuldades. Não. Ela é malcriada, não tem maneiras, não respeita a autoridade, não respeita os mais velhos, e é a heroína da pequenada. Pior: quando os dois amigos decidem fugir de casa, a mãe deles pede à Pipi para os acompanhar, tipo anjo da guarda.
A Pipi vive sozinha, o que lhe permite fazer tudo e mais alguma coisa. Tipo: dormir vestida e calçada, com as botas, cujo cheiro o DVD não esconde, em cima da almofada. Tem um saco cheio de dinheiro - um saco a sério, uma mala daquelas de médico à antiga - que se destina, como diz a música do genérico, a doces, rebuçados e caramelos. Mas também dá para atirar pelo ar, na brincadeira. Toma banho numa enorme meia-pipa de madeira, no meio da casa (nada a opor) e, no fim, deita a água para o chão, que esfrega "patinando" sobre duas escovas. Literalmente. Mas há mais: parte os ovos na cabeça e bate-os com uma vassoura. Não sabe ler, porque não é preciso, e não vai à escola, porque seria uma seca ter de obedecer à professora.
Não dá para a minha paciência. Não sou uma mãe perfeita - antes desastrada, como confesso uns posts abaixo - nem quero as minhas filhas numa redoma de vidro. Mas tanto também não.
Então, tomei uma decisão drástica. Nas férias da Pascoa, em 2008, estava eu grávida da minha pequena, fomos uns dias a Barcelona. A Pipi foi de férias também, visitar o pai, que está nos Mares do Sul, seja lá onde isso for. Agradaram-lhe os ares, ficou lá uns anos. Não é que a minha moça, que tinha dois anos e meio, não se esqueceu?!
Passaram-se outros dois anos e lá me convenceram que era tempo de a Pipi regressar. Escusado será dizer que o sucesso foi total e imediato - nas duas. Vêem a Pipi sempre que estão em casa da avó e o máximo que consegui foi limitar a uma vez por dia.
E o pior de tudo é a música. Sim, porque podia haver toda aquela anarquia - reitero: ela é uma hippie - a voz esganiçada e tudo, mas não a música. Pior que má. Pra lá de irritante.