Woman reading

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Alexander Deineka

sábado, 28 de fevereiro de 2009

ter um horário...

Quem me dera entrar às seis e sair às duas...
Não trazia trabalho para casa, não ia para o trabalho fora de horas (ou de dias), a não ser, claro, que o patrão pagasse as horas... Sim, porque o sindicato estaria atento!
Não assinava papéis!...

a pessoa errada

Disseram-me uma vez que há pessoas que vêm ao mundo só para nos mostrarem aquilo que não devemos ser.
É verdade.
Mas referiam-se à pessoa errada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

é estranho que não faça falta

É estranho não sentir a falta do tempo para ler.

Uma das falas famosas da personagem principal de uma das minhas séries de culto dizia isso mesmo: para se ter filhos só é preciso abdicar de... tudo.
De dormir o tempo que se quer, à hora que se quer, de ir, de andar, de fazer, de ler.
Sobretudo de ler.

E do silêncio.

O mais surpreendente é não sentir a falta desse tempo. Tem-se saudades, mas não se sente a falta.

o sofrimento é demasiado

Para morrer não devia ser preciso tanto.

carta aberta a uma amiga

Vou-te contar, mas, se tudo tivesse continuado a ser como era antes de eu ter tido a minha primeira filha, tu saberias melhor do que ninguém.

Sabes, criar um filho é o cabo dos trabalhos, mas criar dois não é o dobro: é o triplo, ou mais. Por isso, algumas pessoas, sobretudo uma amiga que só tem uma filha, já adulta, dizia-me que uma chegava e sobrava. Eu argumentava que ter um irmão (na verdade, eu achava que uma irmã) era a coisa mais importante que podia - e devia - dar à minha filha, porque com uma irmã se cria uma relação diferente de todas as outras relações que se pode ter, em toda a vida. Essa amiga, que tem irmãs e com quem, pelos vistos, tem um relacionamento problemático, tentava convencer-me, dizendo que tinha ensinado à filha o valor da amizade. Eu não lhe disse, mas pensei que não são comparáveis: uma amizade pode não ser para toda a vida - a maior parte delas não é. Enquanto uma irmã pode nunca vir a ser exactamente uma amiga, mas será sempre irmã. A relação que se tem com uma irmã é muito complicada de explicar a quem nunca teve uma. Uma irmã é uma pessoa que está lá sempre, mesmo que metade das vezes que lhe telefonamos a pedir ajuda nos dê, se calhar, uma resposta torta. Está lá sempre. Viveu connosco tudo o que nós vivemos. E, mesmo que estejamos afastadas, de alguma forma, durante muito tempo, ela continua a existir e é sempre nossa irmã.

Depois, claro, há o argumento de que os filhos únicos são insuportáveis de mimados, mas eu conhecia-te a ti e tu contrarias essa teoria.

Porquê tudo isto?
Porque recentemente tenho pensado muito no facto de tu não teres irmãos.

Dizes-me frequentemente, ou melhor: com a frequência com que falamos ultimamente, que é rarissimamente, dizes-me que trabalhas imenso, que isso te deixa pouquíssimo tempo para estares com os amigos, que o tempo passa a correr parece que começas a perder contactos. Eu presumo, então, talvez erradamente, que o que está a acontecer comigo deve estar a acontecer com outras amigas tuas, também.

O que eu gostava de te dizer é: tem cuidado. Os amigos não são como os irmãos: eles vêm e vão. Como um iô-iô, se se quiser ser agressivo. Tens de tentar fazer aquilo que eu achava que tu fazias: cultivar as relações de amizade como se elas fossem de família. Pelo menos - permite-me - com aquelas pessoas que te chamaram para a sua família. Corres o risco de, um dia, seres apenas uma recordação. Até porque nós temos irmãos...

Houve uma época em que eu sabia sempre em que dia e a que horas tu saías em viagem e regressavas. Era a mim que telefonavas a dizer que a viagem tinha corrido bem, que havia espaço para mim no quarto, se eu não tivesse preferido ficar em casa. Hoje, imagino que estejas cá, porque as janelas de tua casa estavam abertas. Mas pode ser a tua mãe, que já tenha regressado. Tenho saudades daqueles tempos.

É por isso que te vou fazer hoje uma proposta que ando há muitos anos para te fazer. Muitos anos mesmo. Desde o tempo em que falávamos todos os dias e noventa por cento das mensagens que recebia no telemóvel eram tuas. Devíamos comprometer-nos a falar ao telefone pelo menos uma vez por semana. Combinávamos um dia e mais ou menos uma hora e, todas as semanas, ligávamos. Nem que tu estivesses no fim do mundo.
Beijinhos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

a pergunta

Algum dia alguém lerá isto, além de mim?

a minha avó

Estranho, começar por escrever sobre ela.
Foi sempre uma pessoa tão difícil. E agora, passados os anos que foi preciso que passassem, pensando bem. Pensando bem, sobretudo.
Como é que ela poderia ter sido fácil, se teve sempre uma vida tão difícil? É preciso escrever a vida dela, mas como? Ela já não se ouve. As outras pessoas não contam as histórias todas nem toda a história. Algumas, nem quero ouvi-las, por isso, como?

a começar

Ao que busco saber nenhum de vós responde.