É isso mesmo.
Aconteceu-me o mesmo que aconteceu à minha mãe, há muitos anos. A mim, que tinha jurado que não.
A minha mãe escolheu, tanto para mim como para a minha irmã, madrinhas que nem sequer sabem que nós exixstimos. Que nunca estiveram presentes. Sobretudo no meu caso, é triste, porque, na altura em que eu nasci, ela era a pessoa com quem a minha mãe se dava melhor. Durante vários anos, contam, tinha perfeita loucura por mim. Depois complicou-se porque a vida dela deu muitas voltas muito grandes e muito complicadas. No fundo, apesar da mágoa de nunca ter tido madrinha, ao contrário de todas as minhas primas e mesmo da minha irmã, apesar da dor que isso me causava, sobretudo todas as Páscoas, tenho que reconhecer que, de facto, foi a vida que ditou assim. A minha mãe não pôde fazer nada.
Eu não sei se posso fazer alguma coisa para alterar o estado das coisas no que diz respeito à madrinha da minha filha, mas pelo menos tento. Pelo menos ponho cá fora o que estou a sentir, ponho cá fora a tremenda desilusão que eu e o M. sentimos pela tua ausência.
Pensa bem: nem há um ano, foste a convidada mais importante do baptizado. Tu e a N., mas a N. era a madrinha esperável. Para tu seres também madrinha, deves lembrar-te, fui contra tudo e contra todos. Se o baptizado fosse agora não faria sequer sentido convidar-te para a festa. Porque tu não fazes parte.
Em relação à minha madrinha e à da minha irmã, há uma atenuante: uma era criança e a outra era adolescente. Não tinham noção do compromisso que estavam a assumir. Tu és uma adulta. Se não estavas disposta a assumir o compromisso, não aceitavas. Teria sido mais honesto.
A decepção é ainda maior quando nos lembramos de quantas vezes foste ao Porto de propósito para ver a S. Tudo levava a crer que ias ser uma madrinha presente. Muito presente, a avaliar pelo tempo que passavas cá em casa. Mas isso era no tempo em que não tinhas ninguém, não é?
Já sei que vais dizer que a tua vida mudou, que agora passas muito tempo no Porto, mas a verdade é que continuas a trabalhar em Guimarães, jantas cá pelo menos duas vezes por semana, passas cá fins de semana alternados (quando não estás para aturar os filhos do Rui...). Ou seja: se tivesses algum interesse em ver a M., em participar no crescimento dela, em dar-te a conhecer - sim, porque ela não te conhece... - em saber se ela já anda, se já fala, se tem comido bem, se está doente... conseguirias com muita facilidade arranjar um bocadinho.
Mas a verdade é que tu não gostas de crianças. Não é? Mas então por que é que aceitaste? Há quase um mês que não apareces nem dizes nada. E não é caso isolado. Tem acontecido sempre. Ou como quando telefonas ou quando vamos almoçar e nem perguntas por ela. A M. é tua afilhada. É tua obrigação querer saber dela. Não, eu também nada digo. Deves conhecer-me o suficiente para saber que eu nada diria. Fico à espera.
Demorei muito tempo a decidir escrever isto. Por muitos motivos. Primeiro porque é difícil admitir um erro. O erro de te ter convidado a ti e não a N. ou a S.
Depois, porque nunca saberei, quando telefonares a saber da tua afilhada, se o fazes por ela ou por isto que acabas de ler.
Nota: Este texto foi escrito em Junho de 2007. De lá para cá, a situação não só não se alterou, mas agravou-se.