Naquele tempo, como ela dizia. Dezanove anos, grávida. Não que até ali a vida lhe tivesse sido fácil, a mãe sempre má, sempre a bater, sempre má. O pai fora melhor, deixara-a ir à escola, aprender costura, se primeiro o ajudasse com os sapatos. Levantava-se cedo para acabar, casar, coser, levar ao freguês, o que fosse preciso. Depois, sim, podia ir à mestra, que para a escola nove meses chegaram para a terceira classe, sem exame, claro.
Desta vez era diferente. Ela sabia que ia ser muito mau. O padre levou-a de rastos até casa dele, para a mulher a ver. Caiu para o lado quando lhe disseram esta vai dar ao teu homem aquilo que tu nunca. E ela ali, a humilhação máxima. Naquele tempo era assim. Como se fosse. Que o padre tivesse filhos, era vergonha, não se dizia, mas não fazia mal. Uma moça solteira era pior vergonha, então irmã do padre, irmãs mais novas por casar. Espancada todos os dias desde pequena, que o pai era o único por ela. E então agora o padre. Não teve escolha. Uma coisa era baterem-lhe a ela, aguentava de habituada que estava, mas à menina não. Isso e as ameaças de lha tirar. Tirar-lha? Para quê? Para vender? Dar? Fazer dela freira? Antes dá-la ao pai. Tratava-a bem, isso de certeza. Rico, ela teria conforto como nunca ali poderia a mãe dar-lhe. E comida. E boa escola. Filha única que seria de uma mãe que nunca pariria os seus. Estava certa. A menina teve vida de morgada, mas disseram-lhe que a mãe a vendera por pouco dinheiro. Muitos anos mais tarde, a menina, já avó, admitiria que se lembrava de ter visto bater à mãe por lhe pôr manteiga, marmelada, qualquer coisa, num pão. Mas nem assim conseguia perdoar. Saber-se aos quatro anos abandonada pela mãe, vendida ao pai por pouco dinheiro, nem sabia bem quanto. Nem depois de velha, mãe de filhos e até já avó perdoava. Também não é preciso tanto. Era grande já quando exigiu regressar para junto da mãe e o pai, falho de argumentos que a dissuadissem, teimosa que era, lhe fez a vontade. Bom dia escolheu. Depois de horas de espera, lá viu vir a mãe e a irmã. Era Verão e vinham do monte, de apanhar lenha para o Inverno, que não tardaria a ser preciso acender o lume. O espectáculo não lhe agradou e muito menos imaginar-se naquilo no verão seguinte ou já amanhã. Em casa do pai tocava-lhe bordar, aprender de cozinha, mas não ir ao monte à lenha. Para isso estavam os criados. Muitos, que chegassem. E a lenha era a sério, da que demorava a arder, que se escolhia as árvores.
Woman reading
Alexander Deineka
sábado, 27 de junho de 2009
Rendi-me, tenho de confessar.
Isto da net está a tornar-se cada vez mais um vício.
Durante algum tempo ainda tentei resistir, mas não deu.
Rendi-me, é isso.
Isto da net está a tornar-se cada vez mais um vício.
Durante algum tempo ainda tentei resistir, mas não deu.
Rendi-me, é isso.
sábado, 6 de junho de 2009
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