Woman reading

Woman reading
Alexander Deineka

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

hora de dormir

Quando o Sol adormecia sobre a linha do horizonte, um cobertor de nuvens descia sobre ele, aconchegando-o para uma boa noite de sono, retemperadora antes de um novo dia de trabalho.
Então, a Lua abria os braços, estendendo o seu manto negro sobre o céu e o sorriso de prata no seu rosto iluminava os caminhos mais escondidos da floresta. Alguns animais ainda não tinham recolhido às suas tocas, como a Joaninha, o Porco-Espinho e o Rato do Campo.
Ao fechar das últimas portas, ao apagar das últimas luzes nas janelas, era a vez das Corujas saírem, espreguiçando-se, para se empoleirarem nos ramos das suas árvores favoritas. Este era o momento mais aguardado pelas crianças da floresta: fingiam dormir até ouvirem a Coruja e, então, espreitavam pela janela, sempre com as mesmas palavras, sempre em coro:
– Dona Coruja, conte-nos uma história para adormecermos…
E a Coruja lá começava:
– Era uma vez…
Assim sucedia todas as noites, havia tantos anos que ninguém sabia dizer quantos. Era já uma tradição na floresta: as crianças herdaram dos seus pais, dos seus avós, o hábito de ouvir uma história contada pela Coruja, todas as noites, antes de adormecer. Por sua vez, a coruja herdara dos seus pais, dos seus avós, uma habilidade, um jeito especial para contar todas as noites uma história mais encantadora ainda do que a da véspera.
Os animais da floresta pensavam que ela passava o dia a dormir e que, à noite, contava um dos sonhos que sonhara. Mas não era assim. Durante o dia, embora parecesse adormecida, a coruja observava atentamente tudo o que se passava com os outros animais. À noite, chegado o momento mágico da história, ela sabia bem que o Texugo estava assustado com o primeiro dia de escola, que o pai Castor andava preocupado porque a filha não queria comer sopa, que a Doninha tinha ciúmes do irmãozinho: era muito pequenino e tinha sempre o colo da mãe.
Cada história da velha Coruja dirigia-se, assim, a um habitante da floresta e, ao mesmo tempo, a todos. A Coruja trazia paz, tranquilidade. Por isso todos eram amigos. Era por isso, também, que não dispensavam uma história à hora de dormir.