Woman reading

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Alexander Deineka
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terça-feira, 19 de junho de 2012

Saramago no exame de sexto ano


Raios partam a sorte. Houve um ano, há muitos anos, em que abri a primeira aula de um sexto ano de Língua Portuguesa com a leitura de "A Maior Flor do Mundo", o delicioso livro infantil de José Saramago.



Foi muito antes das minhas andanças mais a sério pelos contos e pelos projectos de leitura. Não me pareceu que os alunos tivesem gostado assim lá muito. Não foi por isso, mas a verdade é que eu nunca li este livro aos alunos que estão agora a fazer exame. Nem lhes mostrei o filme, uma curta-metragem disponível no YouTube, mas que tenho gravada no meu pc. Já me fartei de dar com a cabeça na parede. 



Se é difícil? É um texto literário, dos literários a sério. Não oferece uma leitura imediata, é mais para quem lê a sonhar. Como diz a professora da minha filha: não é para ser lido, é para ser ouvido. Resta-me saber se os meus aunos são capazes de ler como quem ouve. Não sei se o texto foi escrito para ser lido por crianças, talvez esteja mais pensado para ser lido a crianças. Por um adulto. Por um adulto que já o tenha lido, ou que tenha a capacidade de ir lendo antes, para depois ler. É lindo. É muito lindo. E se for bem lido não é nada difícil. Já foi lido na sala da minha filha, que anda no primeiro ano. E eles adoraram.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

livros

Os livros.
Os livros são uma parte tão importante da minha vida que não saberia viver sem eles.
Dizia Jorge Luis Borges que imaginava que o paraíso fosse assim uma espécie de biblioteca. É isso. O paraíso é uma biblioteca, uma livraria, uma feira do livro - livros. O paraíso é feito de livros.
Cresci rodeada de livros e das histórias do avô, que lia os romances de Camilo noite fora. Queimava uma vela inteira a ler, só depois se deitava. E de dia - lia. Só uma forte chuvada o fazia abandonar o livro, para pegar num guarda-chuva e andar pela quinta. Temos de concordar: o cheiro da terra molhada da chuva é delicioso.
E o cheiro dos livros? Oh, o cheiro dos livros! Então daqueles que já passaram anos nas prateleiras, já foram lidos por muitas pessoas, folheados por muitas mãos. Já repararam que quanto mais folheado um livro é, mais fácil de folhear se torna? Experimentei com a minha gramática de Latim. No início, era muito complicado abrir naquela página. Passado pouco tempo, as folhas já eram minhas, já passavam sozinhas.
Mas estava a falar de livros. Daqueles que contam histórias, histórias que nos prendem até não sabermos que horas são, onde estamos, aqueles que lemos de um fôlego, por não ser possível parar.
Hello, my name is Eduarda and I am a bookaholic.
É muito isso.
Uma vez, ao entrar numa feira do livro, no Porto, onde estudava, fui ao multibanco e levantei dez contos - sim, no saudoso tempo dos contos. Obriguei-me a jurar a mim própria que não gastaria mais do que aquele montante. O segundo pagamento teve de ser com cartão. Where is human nature so weak as in the bookstore? Reconheço: sou um perigo, quando entro numa livraria. E então numa feira do livro...
Leio, leio, leio. Sempre que posso. Mas não qualquer coisa. Gosto de ler na sala de espera do dentista, como toda a gente, mas nem aí me serve a chamada literatura de cordel. Ou os livros daqueles autores, quase sempre mulheres, que publicam um livro por ano. Não gosto de literatura de panela de pressão. Como a comida, os grandes livros cozinham-se a fogo lento. Depois de marinar a história num tempero como deve ser. porque os grandes livros não são necessariamente os que contam grandes histórias - mas os que as contam magistralmente.
Estantes para livros são a peça de decoração mais bela que pode existir numa casa. A sério. Lembro-me de visitar a casa de um casal amigo, era eu ainda pequenita, e de ter comentado com o meu pai, à saída, que não havia livros naquela casa. Era verdade: na sala havia prateleiras, mas o número de livros devia ser menor do que o número de dedos das mãos.
Gosto de ver livros quando entro numa casa. Gosto de ver pessoas a ler - no café, na paragem do autocarro, nas salas de espera. Mas é tão raro. E tenho de me segurar para não perguntar que livro é aquele.
É por isso que gosto de comparar a aprendizagem da leitura a um renascimento. Quando uma criança aprende a ler, ela renasce. Abre-se para ela um mundo inteiro que antes lhe estava vedado por não saber decifrar a palavra escrita. E depois a leitura torna-se num acto reflexo. Quem não lê os letreiros todos, nas lojas por que passa à ida para o trabalho, num passeio pela cidade? E o que dizem? Nada. Pelo menos, nada que não saibamos que está lá escrito: Pão de Ló, Bolo Rei, Vende-se, Saldos, Pão Quente, etc, etc, etc. A quem interessa ler isto? Mas a verdade é que lemos. Juntamos as letras.
Quando estive na Hungria, tinha quinze anos, o que mais me custou - mais do que não perceber nada do que diziam, mais do que não conseguir tomar o pequeno-almoço num café, por manifesta falta das coisas complicadas que as pessoas normais tomam ao pequeno-almoço, tipo pão com manteiga - o que mais me custou foi não conseguir juntar as letras para formar palavras.
Podem chamar-me exagerada, mas ler diariamente com as minhas filhas é, para mim, uma religião. E a verdade é que a mais velha, que inicia em Setembro a escola primária, já se impacienta por precisar de um adulto como intermediário entre ela e o livro. Excellent parenting.
Os livros. E os marcadores de livros. E agora os colares da imagem... com livros.
I need therapy.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

podemos dizer o que pensamos? mesmo?

Esta é uma história curiosa: eu comprei o livro muito barato, para o Kindle, e o livro não presta. É aquilo a que as freiras lá do Colégio da minha infância chamariam literatura de cordel. Mas mesmo para a literatura de cordel há limites: trocar o nome de uma personagem é mais do que a minha paciência tem capacidade para aguentar. Não dá: um escritor esquecer-se do nome da personagem? É certo que se trata de uma personagem secundária, que basicamente só aparece duas vezes em todo o livro - que até é pequeno - mas não se lembrar que ele já tem nome???
Um dia, a autora voltou a anunciá-lo e eu comentei que o livro não prestava. Não devia, eu sei. Pelo menos não numa página lida diariamente por centenas de milhar de pessoas. E não fui meiga: "This is trash." Pronto. Era a minha opinião. A autora não tem paciência para críticas menos favoráveis, pelo que removeu o post, enviou-me uma mensagem, pedi desculpas por ter sido tão curta e grossa na praça pública, explicou-me que o livro não era edição de autor, que tinha sido mais que editado e que eu era só a terceira pessoa que dava pela troca do nome do Zequinha, apesar de várias dezenas de livros vendidos e críticas fantásticas. Ficámos amigas, enviou-me por mail o PDF do novo livro, com votos de que me agradasse mais. Mas não. É impossível lê-lo. Muito pior do que o anterior...
Amigas do peito continuámos, embora sem muito contacto ultimamente, porque perdi a paciência: ainda não ouviu falar do Twitter, portanto actualiza o estado no Facebook de 5 em 5 minutos. Vou tomar café. Já tomei café. Adoro o meu filho. Vou dormir a sesta. Não dá.
Passaram-se uns meses e eu voltei, porque entretanto tenho muitos novos conhecimentos que o justificavam, à minha página no Goodreads. Actualizei o perfil e coloquei o meu nome no lugar do Sunshine que lá estava, mudei a foto, para os meus amigos me encontrarem... Tenho as opções de privacidade muito "abertas" no Goodreads. Acho piada. Não tem nada pessoal sobre mim, apenas os livros que li e a minha "classificação". Acho engraçado outras pessoas poderem saber o que eu achei dos livros, mesmo que não me conheçam e eu gosto do que gosto, pronto. Diz-me o que lês, dir-te-ei quem és.
Ora bem... Eu raramente faço comentários aos livros e também não comentei o tal horroroso da tal escritora de quem, entretanto, era amiga. Apenas lhe dei... 1 estrela (de 5). Tudo bem enquanto me chamei Sunshine. Quando descobriu quem eu era, enviou-me uma mensagem a dizer que com amigas (do Facebook) como eu ninguém precisa de inimigos... Isto deu montes de gargalhadas nos meus grupos, pensei bloqueá-la, mas não foi preciso: ela bloqueou-me. End of story.