Os livros.
Os livros são uma parte tão importante da minha vida que não saberia viver sem eles.
Dizia Jorge Luis Borges que imaginava que o paraíso fosse assim uma espécie de biblioteca. É isso. O paraíso é uma biblioteca, uma livraria, uma feira do livro - livros. O paraíso é feito de livros.
Cresci rodeada de livros e das histórias do avô, que lia os romances de Camilo noite fora. Queimava uma vela inteira a ler, só depois se deitava. E de dia - lia. Só uma forte chuvada o fazia abandonar o livro, para pegar num guarda-chuva e andar pela quinta. Temos de concordar: o cheiro da terra molhada da chuva é delicioso.
E o cheiro dos livros? Oh, o cheiro dos livros! Então daqueles que já passaram anos nas prateleiras, já foram lidos por muitas pessoas, folheados por muitas mãos. Já repararam que quanto mais folheado um livro é, mais fácil de folhear se torna? Experimentei com a minha gramática de Latim. No início, era muito complicado abrir
naquela página. Passado pouco tempo, as folhas já eram minhas, já passavam sozinhas.
Mas estava a falar de livros. Daqueles que contam histórias, histórias que nos prendem até não sabermos que horas são, onde estamos, aqueles que lemos de um fôlego, por não ser possível parar.
Hello, my name is Eduarda and I am a bookaholic.
É muito isso.
Uma vez, ao entrar numa feira do livro, no Porto, onde estudava, fui ao multibanco e levantei dez contos - sim, no saudoso tempo dos contos. Obriguei-me a jurar a mim própria que não gastaria mais do que aquele montante. O segundo pagamento teve de ser com cartão. Where is human nature so weak as in the bookstore? Reconheço: sou um perigo, quando entro numa livraria. E então numa feira do livro...
Leio, leio, leio. Sempre que posso. Mas não qualquer coisa. Gosto de ler na sala de espera do dentista, como toda a gente, mas nem aí me serve a chamada literatura de cordel. Ou os livros daqueles autores, quase sempre mulheres, que publicam um livro por ano. Não gosto de literatura de panela de pressão. Como a comida, os grandes livros cozinham-se a fogo lento. Depois de marinar a história num tempero como deve ser. porque os grandes livros não são necessariamente os que contam grandes histórias - mas os que as contam magistralmente.
Estantes para livros são a peça de decoração mais bela que pode existir numa casa. A sério. Lembro-me de visitar a casa de um casal amigo, era eu ainda pequenita, e de ter comentado com o meu pai, à saída, que não havia livros naquela casa. Era verdade: na sala havia prateleiras, mas o número de livros devia ser menor do que o número de dedos das mãos.
Gosto de ver livros quando entro numa casa. Gosto de ver pessoas a ler - no café, na paragem do autocarro, nas salas de espera. Mas é tão raro. E tenho de me segurar para não perguntar que livro é aquele.
É por isso que gosto de comparar a aprendizagem da leitura a um renascimento. Quando uma criança aprende a ler, ela renasce. Abre-se para ela um mundo inteiro que antes lhe estava vedado por não saber decifrar a palavra escrita. E depois a leitura torna-se num acto reflexo. Quem não lê os letreiros todos, nas lojas por que passa à ida para o trabalho, num passeio pela cidade? E o que dizem? Nada. Pelo menos, nada que não saibamos que está lá escrito: Pão de Ló, Bolo Rei, Vende-se, Saldos, Pão Quente, etc, etc, etc. A quem interessa ler isto? Mas a verdade é que lemos. Juntamos as letras.
Quando estive na Hungria, tinha quinze anos, o que mais me custou - mais do que não perceber nada do que diziam, mais do que não conseguir tomar o pequeno-almoço num café, por manifesta falta das coisas complicadas que as pessoas normais tomam ao pequeno-almoço, tipo pão com manteiga - o que mais me custou foi não conseguir juntar as letras para formar palavras.
Podem chamar-me exagerada, mas ler diariamente com as minhas filhas é, para mim, uma religião. E a verdade é que a mais velha, que inicia em Setembro a escola primária, já se impacienta por precisar de um adulto como intermediário entre ela e o livro. Excellent parenting.
Os livros. E os marcadores de livros. E agora os colares da imagem... com livros.
I need therapy.