Woman reading

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Alexander Deineka

sábado, 11 de abril de 2009

quem atira a primeira pedra?

Na estrada para casa dos meus pais, onde passo pelo menos duas vezes por dia, houve, há tempos, um acidente em que morreu um rapaz, que seguia de moto, creio. Perco a noção do tempo, por isso é-me difícil dizer quando foi, mas passaram-se seguramente dois anos. Um rapaz de vinte e poucos anos morreu ali. Ao princípio, começaram por lá pôr umas flores, tímidas, uma vela. Depois, uma jarra para as flores, mais velas. Uma cruz improvisada. Velas diferentes, daquelas que não se apagam com o vento nem com a chuva, conforme acontecia às vezes com as outras. Flores arranjadas, em coroa. Entretanto, um grande crucifixo, dos a sério, para durar. E, a “assear” tudo aquilo, vejo de vez em quando um senhor, todo de preto, da cabeça aos pés. O pai, talvez.

da autocomiseração

Eu nunca me achei uma pessoa assim tão boa e também nunca me aconteceram coisas assim tão más. Eu precisava de fazer um luto, mas esse luto não era meu. O que eu não conseguia era perceber por que é que tanto sofrimento tinha tocado a uma pessoa como ela. Foi por isso que quando veio para mim eu não pensei sou uma desgraçada, antes: claro que a mim também. E depois, no meu caso, nem sequer se tratou de um sofrimento prolongado com um final horroroso. Eu fui confrontada com a notícia de um facto consumado. Nem sequer era um diagnóstico mau que precisava de ser confirmado. Já estava ali. Só era preciso digerir a notícia.

O melhor, claro, é que tudo corra sempre bem. A seguir a isso, o melhor é que o mal seja o menos mau possível. Há muito mais sofrimento num mau diagnóstico que dita a necessidade de novos exames, mesmo que estes venham a infirmá-lo, do que num mau diagnóstico definitivo, recebido de forma abrupta.

É bom quando, mesmo estando a sofrer, conseguimos dar o real valor àquilo que nos aconteceu, perceber que às vezes não há nada, nem ninguém, nem nós próprios, a quem atribuir a “culpa” e que só temos motivos para seguir em frente.

sábado, 4 de abril de 2009

o que ando a ler

Vi pessoas muito próximas, amigos muito queridos, passarem por situações de sofrimento extremo. Pessoas boas a quem estavam a acontecer coisas muito más, parecia que em cadeia. Então descobri um livro que, diziam, ajudava a "fazer o luto". O título parecia adequado: Quando Acontecem Coisas Más a Pessoas Boas. Escrito por um rabino americano, Harold S. Kushner.

Custou, mas lá encontrei e, devo confessar, devorei. Gostei tanto que comprei uns tantos, que vou distribuindo, mas sobretudo não páro de falar do que ele diz. Depois descobri outros títulos do mesmo autor, todos na prateleira da "auto-ajuda", mas que não me saíram bem isso, ou melhor: não só.

(Devo confessar que sempre senti uma grande admiração pela religião judaica e, mais ainda, por um povo que conseguiu criar uma identidade nacional partindo do mais absoluto nada, um país próspero numa região do mundo onde nada prospera.)

A minha relação com a religião é problemática. Tentaram ensinar-me a ser cristã, católica, mas tenho muitos problemas com a parte de ser cristã e muitos mais ainda com a parte de ser católica. Esta é uma religião dogmática, muito, e eu não consigo acreditar em nenhum dos seus dogmas, para começar. A coisa piora quando começo a pensar na Igreja Católica como instituição, por me parecer o expoente máximo do vício, da mentira e da corrupção. (Leiam, a propósito, Memórias de Um Anão Gnóstico, de David Madsen.)

O que este senhor Kushner me tem trazido é uma leitura da Bíblia que eu não conhecia e até de uma Bíblia que eu não conhecia. Claro: ele fala do Antigo Testamento, texto mais ou menos proibido aos cristãos, que, de resto, pelo menos no caso dos católicos, pouca Bíblia lêem. E nenhuma discutem.