Woman reading

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Alexander Deineka

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

ai as fadas...


Ontem ouve choro e ranger de dentes.
De poucos dentes, na verdade, porque, ao almoço, tinha caído mais um, o quarto.
Era noite de a Fada nos visitar, portanto, o que causa sempre grande emoção.
Com medo de deixar o dente esquecido em cima da mesa, não fosse ele ir parar ao lixo, o que seria uma grande desgraça, meti-o no bolso. Vai daí, não sei como nem quando, talvez quando experimentei um vestido, o dente desapareceu.
E agora? Não vou poder deixar o dente à fada e ela não me vai dar uma prenda.
Tentamos deixar-lhe um bilhete, a dizer que o dente te caiu, mas que a tua mãe o perdeu.
Não é a mesma coisa, ela não vai deixar nada...
Lá continuei argumentando que não há nada como tentar, porque, sabes como são as fadas, não castigariam uma criança por causa do erro de um adulto.
O desespero era tanto que nos obrigou a prometer que lhe daríamos NÓS uma prenda se a estratégia do bilhete não resultasse. Prometemos tudo, e, em desespero de causa, cheguei mesmo a perguntar-lhe "Mas afinal acreditas em fadas ou não?", tendo a resposta sido, evidentemente, afirmativa.
Depois de muitas lágrimas, muito desgostosas, lá escrevemos o bilhete, a explicar exactamente como tudo tinha acontecido. Ilustrou-se com o dente, claro, mais uma grande flor, um coração (não sabemos a quem pode sair com tamanho jeito para o desenho...).
E lá pusemos o bilhete debaixo da almofada.
E, claro, a fada lá o substituiu pela tão desejada prenda, o que, além do mais, tem sempre o efeito secundário de um despertar sorridente e bem disposto.
E lá concordou, novamente, de manhã: as fadas existem mesmo. E eu acrescento: são das crianças e para as crianças.

Quanto ao bilhete, esse está guardado, bem guardadinho. Com certeza, daqui por uns anos, fará um novo sorriso brilhar naquele rostinho, que vai ser sempre o mais lindo do mundo.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

porque uma amiga tem escrito sobre madrinhas... mais uma carta aberta

É isso mesmo.
Aconteceu-me o mesmo que aconteceu à minha mãe, há muitos anos. A mim, que tinha jurado que não.


A minha mãe escolheu, tanto para mim como para a minha irmã, madrinhas que nem sequer sabem que nós exixstimos. Que nunca estiveram presentes. Sobretudo no meu caso, é triste, porque, na altura em que eu nasci, ela era a pessoa com quem a minha mãe se dava melhor. Durante vários anos, contam, tinha perfeita loucura por mim. Depois complicou-se porque a vida dela deu muitas voltas muito grandes e muito complicadas. No fundo, apesar da mágoa de nunca ter tido madrinha, ao contrário de todas as minhas primas e mesmo da minha irmã, apesar da dor que isso me causava, sobretudo todas as Páscoas, tenho que reconhecer que, de facto, foi a vida que ditou assim. A minha mãe não pôde fazer nada.


Eu não sei se posso fazer alguma coisa para alterar o estado das coisas no que diz respeito à madrinha da minha filha, mas pelo menos tento. Pelo menos ponho cá fora o que estou a sentir, ponho cá fora a tremenda desilusão que eu e o M. sentimos pela tua ausência.
Pensa bem: nem há um ano, foste a convidada mais importante do baptizado. Tu e a N., mas a N. era a madrinha esperável. Para tu seres também madrinha, deves lembrar-te, fui contra tudo e contra todos. Se o baptizado fosse agora não faria sequer sentido convidar-te para a festa. Porque tu não fazes parte.


Em relação à minha madrinha e à da minha irmã, há uma atenuante: uma era criança e a outra era adolescente. Não tinham noção do compromisso que estavam a assumir. Tu és uma adulta. Se não estavas disposta a assumir o compromisso, não aceitavas. Teria sido mais honesto.


A decepção é ainda maior quando nos lembramos de quantas vezes foste ao Porto de propósito para ver a S. Tudo levava a crer que ias ser uma madrinha presente. Muito presente, a avaliar pelo tempo que passavas cá em casa. Mas isso era no tempo em que não tinhas ninguém, não é?


Já sei que vais dizer que a tua vida mudou, que agora passas muito tempo no Porto, mas a verdade é que continuas a trabalhar em Guimarães, jantas cá pelo menos duas vezes por semana, passas cá fins de semana alternados (quando não estás para aturar os filhos do Rui...). Ou seja: se tivesses algum interesse em ver a M., em participar no crescimento dela, em dar-te a conhecer - sim, porque ela não te conhece... - em saber se ela já anda, se já fala, se tem comido bem, se está doente... conseguirias com muita facilidade arranjar um bocadinho.


Mas a verdade é que tu não gostas de crianças. Não é? Mas então por que é que aceitaste? Há quase um mês que não apareces nem dizes nada. E não é caso isolado. Tem acontecido sempre. Ou como quando telefonas ou quando vamos almoçar e nem perguntas por ela. A M. é tua afilhada. É tua obrigação querer saber dela. Não, eu também nada digo. Deves conhecer-me o suficiente para saber que eu nada diria. Fico à espera.


Demorei muito tempo a decidir escrever isto. Por muitos motivos. Primeiro porque é difícil admitir um erro. O erro de te ter convidado a ti e não a N. ou a S.


Depois, porque nunca saberei, quando telefonares a saber da tua afilhada, se o fazes por ela ou por isto que acabas de ler.


Nota: Este texto foi escrito em Junho de 2007. De lá para cá, a situação não só não se alterou, mas agravou-se.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

feliz ano novo!


Esta altura do ano é sempre emocionante. A minha preferida.O cheiro a novo dos livros e cadernos, os lápis novos, as canetas por estrear, os porta-lápis imaculados, o regresso à rotina, aos amigos, os professores novos, os já conhecidos...
É nesta altura que, há mais de trinta anos, faço a minha lista de resoluções de ano novo. Eu sei que costuma ser em Dezembro, mas na verdade, para quem vive da escola, para a escola, os anos que contam são os anos lectivos - não os civis.
E todos os anos faço promessas que cumprirei à risca, prometo a mim própria, ao longo de todo o ano. Durante doze anos, fiz esta lista na qualidade de aluna. Desde há quinze anos, na qualidade de professora. Mudou a posição, mas não mudou a lista, pelo menos não no essencial. E só agora me apercebo de que o meu lombo já leva mais anos deste lado da barricada do que do outro.

Então cá vai a lista:
1. Este ano não vou deixar trabalho acomular.
2. Não vou deixar trabalhos de casa para a última hora, e muito menos por fazer.
3. Vou ter as minhas coisas organizadas - sobretudo os papéis.
4. Não andarei com coisas desnecessárias na pasta.
5. Vou acordar a horas, para não andar a correr de manhã.

Pois. Dizem que o ano novo acabou quando os ex-fumadores voltam a fumar.

Ainda o primeiro período não vai a meio e a situação é mais ou menos a seguinte:
1. Actas de departamento e de conselho de turma atrasadas. (Respectivos presidentes atrás de mim, impacientes.)
2. O teste é dentro de dois dias e ainda nem escolhi o texto.
3. Nem pus os testes nos dossiers (agora enviamos por mail), nem deitei fora os rascunhos das correcções, nem arrumei as fichas em que peguei para tirar fotocópias. (Está tudo acumulado no escritório, numa desordem em que me entendo perfeitamente, mas que odeio.)
4. Tenho tudo metido na pasta, que pesa tanto que já me rendeu tendinites e espondilites. As coisas de que preciso, as de que precisei, as de que posso vir a precisar, as completamente inúteis.
5. Acordo a horas, mas não saio da cama até ser demasiado tarde. Ando sempre a correr e começa a acontecer-me o impensável: o pequeno almoço, por vezes, é um leite chocolatado tomado no carro, a caminhpo da escola.

Este ano é diferente. Não só eu começo um novo ano lectivo, mas também a minha filha começa o seu primeiro ano de escola. Além daquelas observações idiotas que todas fazemos nestas alturas, como "o tempo passou tão depressa", "já está crescida", etc, debato-me com dúvidas existenciais mais sérias.
E a mais sincera, a mais profunda, é esta: serei capaz?
Quero que ela tenha um dia-a-dia calmo, que lhe permita cumprir as suas tarefas escolares com eficiência, mas que não lhe roube a infância, o tempo para brincar.
Ela tem capacidades que lhe permitirão obter sucesso nos estudos, mas há uma parte que tenho de ser eu a fazer. A maior parte, a mais importante. Ela vai passar 700 horas na escola ao longo deste ano. Mas vai passar 8000 em casa, o que é muito mais, portanto a bola está no meu campo.
E então vem ao de cima a síndrome de Peter Pan, o menino que não queria crescer.

Este ano, acho melhor resumir a minha lista de resoluções de ano novo:
Ponto único: Time to put on your big girl pants.

Está na hora de crescer.