Ontem ouve choro e ranger de dentes.
De poucos dentes, na verdade, porque, ao almoço, tinha caído mais um, o quarto.
Era noite de a Fada nos visitar, portanto, o que causa sempre grande emoção.
Com medo de deixar o dente esquecido em cima da mesa, não fosse ele ir parar ao lixo, o que seria uma grande desgraça, meti-o no bolso. Vai daí, não sei como nem quando, talvez quando experimentei um vestido, o dente desapareceu.
E agora? Não vou poder deixar o dente à fada e ela não me vai dar uma prenda.
Tentamos deixar-lhe um bilhete, a dizer que o dente te caiu, mas que a tua mãe o perdeu.
Não é a mesma coisa, ela não vai deixar nada...
Lá continuei argumentando que não há nada como tentar, porque, sabes como são as fadas, não castigariam uma criança por causa do erro de um adulto.
O desespero era tanto que nos obrigou a prometer que lhe daríamos NÓS uma prenda se a estratégia do bilhete não resultasse. Prometemos tudo, e, em desespero de causa, cheguei mesmo a perguntar-lhe "Mas afinal acreditas em fadas ou não?", tendo a resposta sido, evidentemente, afirmativa.
Depois de muitas lágrimas, muito desgostosas, lá escrevemos o bilhete, a explicar exactamente como tudo tinha acontecido. Ilustrou-se com o dente, claro, mais uma grande flor, um coração (não sabemos a quem pode sair com tamanho jeito para o desenho...).
E lá pusemos o bilhete debaixo da almofada.
E, claro, a fada lá o substituiu pela tão desejada prenda, o que, além do mais, tem sempre o efeito secundário de um despertar sorridente e bem disposto.
E lá concordou, novamente, de manhã: as fadas existem mesmo. E eu acrescento: são das crianças e para as crianças.
Quanto ao bilhete, esse está guardado, bem guardadinho. Com certeza, daqui por uns anos, fará um novo sorriso brilhar naquele rostinho, que vai ser sempre o mais lindo do mundo.

