Woman reading

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Alexander Deineka

quarta-feira, 29 de junho de 2011

uma desgraça não podia vir sozinha?

No início deste mês, uma moça de 19 anos atirou-se abaixo de um viaduto, depois de ter passado todo o dia a andar de um lado para o outro, a escrever...
Não morreu da queda, mas sim atropelada por um carro (jipe?) que passou naquele momento. Ponha o braço no ar quem gostaria de estar na pele do condutor do jipe. Pois.
Todos nós, que conduzimos, estamos sujeitos a que nos aconteçam as coisas mais incríveis. Mas aparecer-nos de repente uma pessoa, literalmente caída do céu, e não termos tempo sequer de fazer nada, nem de pensar, e saírmos do carro e vermos que matámos uma pessoa...
E os pais? Perder uma filha desta idade, desta maneira, sem saber os motivos que podem tê-la levado a fazer isto...
Mas a resposta à minha pergunta é... não, uma desgraça não vem sozinha.
O condutor do veículo passou mal. Quando chegaram ao local, os bombeiros tiveram de lhe prestar assistência. Assistência médica. Estava mal. (Eu também estaria.)
Passada uma semana, contaram-me ontem, os pais da rapariga processaram o condutor, acusando-o de ser culpado da morte da filha. O senhor, que ainda não se tinha recomposto da monstruosidade do que lhe tinha acontecido, o que não é para menos, e não se trata de menorizar o sofrimento dos pais, passou mal. Não conseguiu lidar com a culpa que lhe imputavam.
Morreu.

terça-feira, 28 de junho de 2011

e agora?

Eu pensei que isto nem fosse possível. Aliás, eu já nem sequer pensava nesta hipótese.
Acabo de receber um telefonema. A minha filha entra na escola que eu queria. Não na escola da minha área, mas na escola que eu queria. E eu que até já a inscrevi no Colégio...
Vamos por partes.
Vantagens do Colégio:
É à porta fechada, vai ter um bom professor, há muita disciplina, regras.
Desvantagens do Colégio:
Mensalidade de € 210, que inclui apenas a leccionação (mais € 50 para o almoço, mais € 20 para o lanche, mais o prolongamento, que não me lembro de repente quanto é), até certo ponto não sei se se batem pela excelência propriamente dita ou mais pela fama de que é difícil. Sai todos os dias às 16:30.
Vantagens da escola pública:
Sai às 15:30 pelo menos alguns dias por semana, o que permite piscina e Inglês mais cedo, está entre pessoas mais "normais".
Desvantagens da escola pública:
O intervalo para almoço é mais curto, pode impossibilitar o almoço em casa.
Que faço?

que alívio!



Consegui. Finalmente. E não, não é uma vitória de pirro. A Pipi desapareceu.
Existem duas versões. A primeira, que era para ser a oficial, dizia que os DVDs tinham ido de empréstimo para o filho de uma amiga da minha irmã. A segunda, que a minha mãe adiantou quando a piquena perguntou, diz que foram para limpar, que estavam muito sujos e blá blá blá.
Não interessa nada qual é o motivo. O que interessa é que desapareceu. E não, não me parece que consigam voltar a convencer-me a deixá-la voltar.
No regresso a casa, foi tema de conversa:
- Sabes que idade ela tem?
- Não.
- Nove. E o Tommy também. A Anica tem oito. Mas a Pipi é mais velha, porque faz dez anos no filme da neve.
- Então ela já tem dez anos e ainda não sabe ler? Acho isso muito estranho, não é?
- É, ela ainda não sabe ler. Não vai à escola.
- Tu sabes em que ano vais andar quando tiveres dez anos? No quinto ano! Imagina: já terás feito toda a primária e já estás numa escola como a minha e a da Nonó, no quinto ano.
- A sério? E ela ainda nem sabe ler.
- Pois. E nem sabe a tabuada nem nada. Não acho isso nada bem.
Concordou comigo, a minha grande. A Pipi não é modelo em tudo.
E eu estou feliz com o desaparecimento desta hippie em formato pré-adolescente. Pelas asneiras, pelos exemplos perigosos, pela música...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

livros e mais livros


Num apartamento onde vivem quatro pessoas (dois adultos e duas crianças), quatro dos quais viciados em livros, sim, quer dizer, todos, por junto, a coisa torna-se complicada.
Mesmo tratando-se de um apartamento grande, mesmo que haja estantes - os tais elementos de decoração mais-belos-do-que-todos-os-outros - na sala, no esctitório, no quarto de brinquedos, mesmo que se amontoem livros nas mesinhas de cabeceira, nas cómodas, na credência da entrada, mesmo assim a coisa é complicada.
(Nota: o segundo vício complicado conta mais de 4000 CDs. Sim, quatro mil.)
O problema, dizia, é complicado. E tende a agravar-se. Sim, e a breve trecho. Eu explico.
As duas crianças ainda não lêem. São viciadas em livros... que nós, os adultos, lhes lemos. Não passam sem uma história, um conto, um livro (ou dois, ou dez) todas as noites antes de adormecer. Pelo menos antes de adormecer. E têm. Esse tempo é delas. Por muito trabalho que tenhamos para fazer, por muito tarde que nos deitemos depois, porque ficaram pontas soltas (contos, testes, normalmente, mas de tudo). À hora de deitar somos delas. E lemos. E conseguimos fazer com que elas gostassem tanto que não passam sem.
Para já, somos nós que lemos, mas em Setembro uma começa a escola, o que quer dizer, espero, que vai ler mais. Vai deixar de precisar do adulto como intermediário. E a outra não vai querer ficar para trás, cheira-me.
A situação não é bem "não cabe nem mais um livro". É mais "não cabe nem mais uma folha de papel..."
Lá em casa, as estantes estão cheias. O que quer dizer: há duas filas de livros em cada prateleira, há livros por cima dos livros. Há livros em cima das estantes. Há lirvos... (Não, não temos livros a calçar mesas, isso não.)
É um problema. Mas é um doce problema.

conselhos de turma

Papelada, papelada, papelada...
Sinto-me tão abençoada por não ser directora de turma este ano... Ainda por cima, porque essas horas deixaram de ser pagas desde Janeiro.
Faço a acta. E, como já disse, as minhas actas são literatura. Mas detesto. Detesto tanto fazer actas que às vezes esqueço-me que tenho de as fazer.
É isso e as p**** das planificações das famosas áreas. Aquilo não vale de nada, não interessa a ninguém, mas temos de fazer uma planificação para cada fase do PCT*.
Como diria o meu sogro: Valha-me a pilinha do Menino Jesus, que é benta...

* Projecto Curricular de Turma

livros

Os livros.
Os livros são uma parte tão importante da minha vida que não saberia viver sem eles.
Dizia Jorge Luis Borges que imaginava que o paraíso fosse assim uma espécie de biblioteca. É isso. O paraíso é uma biblioteca, uma livraria, uma feira do livro - livros. O paraíso é feito de livros.
Cresci rodeada de livros e das histórias do avô, que lia os romances de Camilo noite fora. Queimava uma vela inteira a ler, só depois se deitava. E de dia - lia. Só uma forte chuvada o fazia abandonar o livro, para pegar num guarda-chuva e andar pela quinta. Temos de concordar: o cheiro da terra molhada da chuva é delicioso.
E o cheiro dos livros? Oh, o cheiro dos livros! Então daqueles que já passaram anos nas prateleiras, já foram lidos por muitas pessoas, folheados por muitas mãos. Já repararam que quanto mais folheado um livro é, mais fácil de folhear se torna? Experimentei com a minha gramática de Latim. No início, era muito complicado abrir naquela página. Passado pouco tempo, as folhas já eram minhas, já passavam sozinhas.
Mas estava a falar de livros. Daqueles que contam histórias, histórias que nos prendem até não sabermos que horas são, onde estamos, aqueles que lemos de um fôlego, por não ser possível parar.
Hello, my name is Eduarda and I am a bookaholic.
É muito isso.
Uma vez, ao entrar numa feira do livro, no Porto, onde estudava, fui ao multibanco e levantei dez contos - sim, no saudoso tempo dos contos. Obriguei-me a jurar a mim própria que não gastaria mais do que aquele montante. O segundo pagamento teve de ser com cartão. Where is human nature so weak as in the bookstore? Reconheço: sou um perigo, quando entro numa livraria. E então numa feira do livro...
Leio, leio, leio. Sempre que posso. Mas não qualquer coisa. Gosto de ler na sala de espera do dentista, como toda a gente, mas nem aí me serve a chamada literatura de cordel. Ou os livros daqueles autores, quase sempre mulheres, que publicam um livro por ano. Não gosto de literatura de panela de pressão. Como a comida, os grandes livros cozinham-se a fogo lento. Depois de marinar a história num tempero como deve ser. porque os grandes livros não são necessariamente os que contam grandes histórias - mas os que as contam magistralmente.
Estantes para livros são a peça de decoração mais bela que pode existir numa casa. A sério. Lembro-me de visitar a casa de um casal amigo, era eu ainda pequenita, e de ter comentado com o meu pai, à saída, que não havia livros naquela casa. Era verdade: na sala havia prateleiras, mas o número de livros devia ser menor do que o número de dedos das mãos.
Gosto de ver livros quando entro numa casa. Gosto de ver pessoas a ler - no café, na paragem do autocarro, nas salas de espera. Mas é tão raro. E tenho de me segurar para não perguntar que livro é aquele.
É por isso que gosto de comparar a aprendizagem da leitura a um renascimento. Quando uma criança aprende a ler, ela renasce. Abre-se para ela um mundo inteiro que antes lhe estava vedado por não saber decifrar a palavra escrita. E depois a leitura torna-se num acto reflexo. Quem não lê os letreiros todos, nas lojas por que passa à ida para o trabalho, num passeio pela cidade? E o que dizem? Nada. Pelo menos, nada que não saibamos que está lá escrito: Pão de Ló, Bolo Rei, Vende-se, Saldos, Pão Quente, etc, etc, etc. A quem interessa ler isto? Mas a verdade é que lemos. Juntamos as letras.
Quando estive na Hungria, tinha quinze anos, o que mais me custou - mais do que não perceber nada do que diziam, mais do que não conseguir tomar o pequeno-almoço num café, por manifesta falta das coisas complicadas que as pessoas normais tomam ao pequeno-almoço, tipo pão com manteiga - o que mais me custou foi não conseguir juntar as letras para formar palavras.
Podem chamar-me exagerada, mas ler diariamente com as minhas filhas é, para mim, uma religião. E a verdade é que a mais velha, que inicia em Setembro a escola primária, já se impacienta por precisar de um adulto como intermediário entre ela e o livro. Excellent parenting.
Os livros. E os marcadores de livros. E agora os colares da imagem... com livros.
I need therapy.

domingo, 26 de junho de 2011

e eu é que sou maluca?

A coisa piorou.
Dantes, gostavam de ver os filmes da Pipi (a pequena mais fanática do que a grande). Consegui limitar a um filme por dia, uma vez. Continuam a perguntar quando é que a Pipi chega a nossa casa (vinda dos mares do sul de ir visitar o pai, lembram-se?). Ora, os filmes da Pipi estão guardadinhos no armário por cima do frigorífico, há mais de dois anos, e não, não vão sair de lá. Esta parte baralha-me, a sério. A minha filha é inteligente, a sério, perguntar-me quando é que a Pipi chega a nossa casa é uma coisa que não percebo. Então ela não vê?
A coisa piorou, dizia eu. Pois é.
Ontem de tarde, a mais velha era a Pipi - claro - e a mais nova era a Anica. O Tommy, que remédio, era um Nenuco. Não prestava para nada, mas fazer o quê? Não temos aqui o P. Ora o P. é o primo, a quem a I. chama irmão. São da mesma idade, ele um pouco mais velho, mora mesmo em frente e, pior de tudo, tem uma força que não é normal para uma criança de 5 anos. E só tem 3.
Teve piada, tenho de reconhecer, ouvi-las repetir as falas das personagens, mas não teve tanta piada quando a "Anica" atirou não sei o quê pelo ar e deixou a "Pipi" com uma negra. E ponho-me a pensar E se cá estava o "Tommy"? É que de vez em quando está...
Poderá ser uma visão catastrofista, mas não me sai da ideia: à falta de um cavalo que levante no ar, para provar a força que tem, a "Pipi" pode optar, sei lá, por uma das cadeiras delas - há montes e não, não são todas de esponja. E, quando a força da gravidade for mais poderosa, o que não deve ser muito tempo depois, vai cair onde? Na televisão? Numa terrina? Numa cabeça, num pé? Ou podem fazer aquele jogo fantástico de não pôr os pés no chão: passeiam de cadeira em cadeira, por cima da mesa... e então lembrei-me de outra coisa. Se se puserem em cima da mesa conseguem chegar ao candeeiro. E pendurar-se nele. A sério. Podem mesmo.
E depois há todo o resto, que descrevo alguns posta abaixo.
E o único que me percebe é o meu pai.
Então decidi: os DVDs da minha irmã vão hoje de empréstimo para o filho de uma amiga. A hipótese dos mares do sul já não deve pegar. O outro, entretanto, vai evaporar também.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

you should take up journaling

You are very private, but you aren't aloof. You just have a well developed inner world.
You spend a lot of time thinking by yourself. It helps to get your thoughts down on paper.
You are an idealistic soul. You have noble ideas about the world.
You are a natural writer of all sorts. You are equally suited writing essays, journals, and fiction.



(Am I all this?!)

um buraco, por favor...

Era uma vez um grupo de imigrantes ucranianos.
É de prever que tenham dificuldades económicas, todos têm. Que outro motivo poderia levar um médico, um engenheiro a trabalhar na construção civil, em bombas de gasolina a abastecer veículos ou a lavar carros?
Ora os indivíduos em questão sentaram-se a uma mesa a conversar, fizeram contas, mediram os sacrifícios e acharam que sim, podia ser.
O assunto que debatiam devia ser motivo para todos os portugueses esconderem a cara num buraco: eles fizeram contas e mais contas ao pouco dinheiro que têm para, por fim, decidirem contratar um professor que desse aulas suplementares de Matemática aos seus filhos. Estavam alarmados com a maneira como a Matemática (não) é ensinada em Portugal.
Pois é. Os imigrantes ucranianos vêm de um país muito pobre, que conhece a liberdade há muito pouco tempo, portanto sabem que a única coisa que nos pode valer quando tudo o resto falhar é o conhecimento. São imigrantes, sujeitam-se a trabalhos precários, mas têm formação e não é uma formação qualquer: medicina, engenharia... Formação da a sério, da que só se consegue estudando muito.
Ao portuga o que interessa é safar-se.

terça-feira, 21 de junho de 2011

o nosso ministro

Criaram no Facebook um grupo: "Nuno Crato a Ministro da Educação". Rapidamente adquiriu mais de meio milhar de seguidores, o que indicava que não - o Nuno Crato não seria Ministro da Educação, apesar do apoio recebido na rede social, até porque este apoio de rede social, se contar, é para trás.
Mas eis que.
Nuno Crato acaba de tomar posse como Ministro da Educação.
É bom demais para ser verdade.
Desde logo, espanta, até certo ponto, pelo menos a uma comum mortal que não o conhece a não ser de algumas coisas que vai lendo, vendo, ouvindo, que ele tenha aceitado o cargo. Primeiro, porque é de pensar que ele está acima destas coisas mesquinhas de ser ministro, de fazer parte do Governo. Em segundo lugar, porque não precisa deste cargo para nada: é mais do que respeitado, ninguém se atreve a contradizê-lo (como poderiam?). E depois porque o que ele diz é demasiado incómodo para o quererem para ministro. (Implodir o Ministério da Educação, lembram-se?)
Donde: ou a ideia é cortar-lhe as pernas (e a voz) de vez, encostá-lo a um canto, caso em que, ou muito me engano, ou ele demite-se não tarde nada, ou então temos, pela primeira vez desde que me lembro, um Governo que está seriamente preocupado com a educação no nosso país, com a educação dos nossos filhos, um Governo que está a falar a sério: de mudança.
"As Provas de Aferição são uma anedota." - sic, palavras do novo ministro. Já avisei os meus alunos. No próximo ano os cabeçalhos das provas mudam. Passam a dizer Exame. A sério que acho isto: quem tem a temer, neste momento, são os alunos - não os professores. Nós podemos até ter de trabalhar mais, mas eles vão ter de pedalar como nunca sonharam.
O novo ministro defende os exames. E a autonomia das escolas. Concordo com ambos: cada escola sabe o que é melhor para os seus alunos muito melhor do que qualquer ministério sediado na capital, tão longe daquilo a que nos habituámos a chamar Portugal real. Falo por experiência própria: a "minha" escola fica no meio de nenhures, alguns alunos acabam o nono ano e têm medo de ir estudar para Guimarães: a cidade é grande, não conhecem, têm medo de se perderem. Ou vão ter um afilhado e, entre a escola e o trabalho, optam pelo último: sempre terão dinheiro para lhe dar prendas. Quanto aos exames, parecem-me essenciais para devolver credibilidade ao sistema educativo. Vivemos uma era de facilitismo: um aluno que "queira" reprovar tem de meter requerimento, de preferência em papel azul de vinte e cinco linhas - aquele que já nem há. Só assim - responsabilizando os alunos pelo seu (in)sucesso escolar é que as coisas poderão mudar para melhor. Os alunos têm de deixar de ser os "coitadinhos". Não podemos dizer que, à luz da lei, a passagem de ano seja automática, claro que não, mas a verdade é que reprovar é cada vez mais difícil. E um Zequinha que já tenha uma reprovação na mochila só muito dificilmente terá segunda. Ou então... que seria das estatísticas?
É precisamente aqui que reside a minha esperança no novo ministro: ele não quer saber de estatísticas. Ele está preocupado com os resultados reais. E sabe que, para melhorar, primeiro tem de piorar. Vão chumbar muitos meninos - até ao dia em que perceberem que têm de estudar e, então, regressarão as boas notas.

terça-feira, 14 de junho de 2011

são lindos...

A minha pequenata, que tem dois anos e meio, e o primo, que já fez três - filho da minha prima, madrinha dela, melhor dizendo - adoram-se.
Nem podia deixar de ser: têm idades muito próximas, são colegas de sala no Colégio. Ele protege-a, que é forte (é mesmo), ela venera-o. Só brinca com ele, quase não fala com mais nenhum colega. Ele porta-se bem (!), mas passa-lhe assim uma nuvem se alguém tenta chegar à beira dela.
No Sábado foi dia de festa para os dois. Encontraram-se em casa da minha mãe, à hora do almoço, e passaram a tarde juntos, jantaram juntos... Há uma fotografia linda dos dois sentados num baloiço. Ele quis levá-la a ver os seus amigos, i.e.: comer um gelado ao café onde ele habitualmente vai com os pais, e ela obedeceu-lhe em tudo: "Diz olá.", "Dá um beijinho." (Quem a conhece sabe como é difícil acreditar...)
Esta noite, como se não bastasse ter adormecido tardíssimo e eu ainda ter vindo trabalhar, apareceu-me às quatro e meia da manhã, o que é habitual nela. Choramingava...
"O que foi, querida?"
"Tou tiste."
"Estás triste? Porquê?"
"Quero o..."
"Tens saudades dele?"
"Xim."
"Então vamos dormir mais um bocadinho, para amanhã brincares com ele no Colégio, todo o dia, está bem?"
"Xim."
E assim foi.
À tarde, no regresso a casa, contou-me:
"Sabes? Eu tenho um irmão."
"Tens um irmão? Quem é?" (Como se eu não soubesse...)
"É o..."
E lá vinha, toda contente.


Nota: Não ponho os nomes das minhas filhas, nem os de outras crianças, em nenhum sítio na Internet. Nem aqui.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

am I gothic?

You can be too moody and impossible to understand. Most people don't have feelings as strong as yours.
You are a sensitive, romantic soul. You live to love... it's the most important thing for you.

You're quite loyal to those you love most - friends and family. You have a sweet heart.
You are a deeply spiritual and wise person. You seek meaning in every aspect of your life.



Hoje, nos intervalos de todos os contos que li para um suposto concurso "literário", fiz uns testes no Facebook.
Pelos vistos, o meu estilo arquitectónico é o Gótico... Ora bem... Este é um dos pontos em que eu e o meu marido discordamos sempre: Ele adora edifícios (especialmente catedrais) em estilo Gótico, percorremos quilómetros para ver só mais aquela catedral que tem a nave não sei quê e as torres mais altas do que não sei qual. Eu prefiro o Renascentista, para ser muito sincera. O problema é que muitas das catedrais renascentistas foram mais tarde - para meu grande desgosto - "embelezadas" pelo Barroco.
Quanto ao resto, à apreciação que o tal teste cientificamente testado (?) diz, acho que a descrição me assenta como uma luva.

terça-feira, 7 de junho de 2011

aquela pré-adolescente insuportável

A resposta é... sim. As minhas filhas são perfeitamente viciadas na Pipi das Meias Altas (deixa-me pôr o título com as minhas maiúsculas todas antes que passe a ser oficialmente erro ortográfico).
A minha irmã tem na Pipi a mais acalentada recordação de infância. Eu, confesso, não me lembro tanto assim. Na verdade, algumas cenas que vejo agora nos filmes são-me familiares, a música, mas não recordava tanto como ela.
A Pipi reentrou na nossa vida quando a minha santa mãe comprou um DVD para a minha filha mais velha, que tinha então... dois anos. Já ouviram falar em amor à primeira vista? A Pipi tornou-se de imediato na mais absoluta heroína. Sempre que acabava o filme, toca a puxar a fita atrás e pôr outra vez... Não! Era DVD! Nem sequer tínhamos a folga do tempo de passar a fita atrás. Depois, mais um conjunto de coleccionador: quatro DVDs, no Natal, para mim e para a minha irmã, for old times' sake. Foi o delírio da pequenita.
A mim, dá-me nos nervos.
Na minha (humilde ma non tropo) opinião de mãe, a Pipi das Meias Altas personifica tudo aquilo que eu NÃO QUERO que as minhas filhas sejam. A minha mãe, sempre benevolente, diz que ela é desenrascada, que consegue ultrapassar todas as dificuldades. Não. Ela é malcriada, não tem maneiras, não respeita a autoridade, não respeita os mais velhos, e é a heroína da pequenada. Pior: quando os dois amigos decidem fugir de casa, a mãe deles pede à Pipi para os acompanhar, tipo anjo da guarda.
A Pipi vive sozinha, o que lhe permite fazer tudo e mais alguma coisa. Tipo: dormir vestida e calçada, com as botas, cujo cheiro o DVD não esconde, em cima da almofada. Tem um saco cheio de dinheiro - um saco a sério, uma mala daquelas de médico à antiga - que se destina, como diz a música do genérico, a doces, rebuçados e caramelos. Mas também dá para atirar pelo ar, na brincadeira. Toma banho numa enorme meia-pipa de madeira, no meio da casa (nada a opor) e, no fim, deita a água para o chão, que esfrega "patinando" sobre duas escovas. Literalmente. Mas há mais: parte os ovos na cabeça e bate-os com uma vassoura. Não sabe ler, porque não é preciso, e não vai à escola, porque seria uma seca ter de obedecer à professora.
Não dá para a minha paciência. Não sou uma mãe perfeita - antes desastrada, como confesso uns posts abaixo - nem quero as minhas filhas numa redoma de vidro. Mas tanto também não.
Então, tomei uma decisão drástica. Nas férias da Pascoa, em 2008, estava eu grávida da minha pequena, fomos uns dias a Barcelona. A Pipi foi de férias também, visitar o pai, que está nos Mares do Sul, seja lá onde isso for. Agradaram-lhe os ares, ficou lá uns anos. Não é que a minha moça, que tinha dois anos e meio, não se esqueceu?!
Passaram-se outros dois anos e lá me convenceram que era tempo de a Pipi regressar. Escusado será dizer que o sucesso foi total e imediato - nas duas. Vêem a Pipi sempre que estão em casa da avó e o máximo que consegui foi limitar a uma vez por dia.
E o pior de tudo é a música. Sim, porque podia haver toda aquela anarquia - reitero: ela é uma hippie - a voz esganiçada e tudo, mas não a música. Pior que má. Pra lá de irritante. 

sábado, 4 de junho de 2011

lar, doce lar...

Uma prima perguntou-me há dias se sabia bem ter quem me fizesse tudo, nem que fosse só por uns dias. A resposta é sim. Sim, sim, sim. Nem podia deixar de ser. Tirar (quase) umas mini-férias de (quase) tudo, incluindo as birras das sopas, dos banhos, do acordar de manhã, é bom. É muito bom.
Mas regressar a casa, oh! regressar a casa é o melhor do mundo. Mesmo quando se vai de férias.
Primeiro: aqui em casa há muito menos televisões - e estão desligadas. A não ser que as piruças estejam a ver desenhos animados... o que é quase sempre. Lá, só na sala, há três televisões. A sério. Uma na parte de sala de estar, uma na sala de jantar e uma a meio - para as meninas, as minhas meninas... E o pior de tudo é que chegam a estar ligadas as três... ao mesmo tempo. (Fora a da cozinha...) E o pior é que a das meninas dá a Pipi das Meias Altas pelo menos uma vez por dia. Descontando a minha implicância, mais que justificada, diga-se de passagem, com aquela pré-adolescente hippie, concordem: a música é de dar nos nervos.
E eu que gosto tanto do silêncio...
E depois, por mais que estejamos à vontade - e estávamos, todos, por mais que tenhamos tudo, e tínhamos, there's no place like home.
Não há nada como estar em casa.

só não percebo a alusão aos padres...

In all countries where women are not honored in public, like sacred objects, even higher than priests, there will be no morals.
Restif de la Bretonne

quarta-feira, 1 de junho de 2011

não resisto. uma aluna fez este balanço da oficina de leitura:

A Oficina de Leitura é um projecto que tem vindo a fortalecer as crianças, desde os pequeninos aos mais velhos. Sem dúvida nenhuma, este Projecto tem uma boa função: normalmente, em todas as idades, sejam crianças, adolescentes ou adultos, não mostram interesse pela leitura. O nosso Projecto tem o desafio de despertar em todos o gosto pela leitura e nestes últimos tempos temos vindo a observar bons resultados. Vamos ler às escolas e os meninos pedem sempre mais, e vê-se na carinha de todos que gostam das histórias que lhes são lidas, e ver isso em todos ainda nos dá mais prazer de lhes ler, de passar mais tempo com eles.
Falo por mim, e penso que todos os que estão neste grupo o dizem também: nós, que chegámos ao Instituto Silva Monteiro pequeninos, traquinas, sem interesse e sem preocupação pelas disciplinas, principalmente a disciplina de Língua Portuguesa que é o que se aplica aqui, a professora Eduarda Abreu conseguiu despertar em nós aquele gosto pela leitura que estava adormecido em nós, através de pequenos contos, exercícios de relaxamento… parecia que quando ouvia aquelas histórias suaves, maravilhosas a entrarem pelos meus ouvidos, parecia que entrava num mundo fora da realidade, e além do mais esquecia todos os problemas que uma criança tem, sejam em casa, na escola, tudo, era como se entrasse nas histórias ou vivesse um Conto de Fadas. Não sei se aconteceu com alguém, mas comigo aconteceu, num dos exercícios de relaxamento que a professora Eduarda fez eu consegui ver a imagem de uma pessoa muito próxima, não cheguei a conhecê-la, só a conhecia por fotografias, parecia que comunicava com ele e fiquei um bocado assustada, mas no entanto percebi que foi bom aquele momento, principalmente depois de desabafar com a professora Eduarda e ela me dar um ombro amigo.
Entrar nesta Oficina, para mim, foi um desafio muito bom de superar, fiquei mais culta, e de certa forma também contribuiu para a minha maturidade.
Não me arrependo de passar as sextas-feiras de tarde rodeada de meninos pequeninos, que me surpreendem de dia para dia, gostarem tanto da leitura, e eu que me arrependo de não ter podido passar assim pequenos momentos, que me lessem contos, para viver uma vida ainda mais feliz, mas aproveito agora, para que não me escape nenhum menino de se vir a arrepender do que eu me arrependi.
Queria que este projecto continuasse, para continuarmos a fazer a nossa função e dar a oportunidade a adolescentes da nossa idade entrarem também neste Projecto.
Peço mesmo, do fundo do meu coração que este Projecto continue!

cântico negro, José Régio

“Vem por aqui” – dizem-me alguns com olhos doces,
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que os ouvisse
Quando me dizem: “vem por aqui”!

Eu olho-os com olhos lassos,
( Há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
- Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe.
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam os meus próprios passos…
Se o que busco saber nenhum de vós responde,
Por que me repetis: “vem por aqui”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí…
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velhos dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátrias, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.

Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…
Deus e o Diabo é quem me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um átomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
- Sei que não vou por aí!