Woman reading

Woman reading
Alexander Deineka

sábado, 7 de novembro de 2009

chinese proverb of the day

"Over a long distance, you learn about the strength of your horse; over a long time, you learn about the character of your friend."
This can be used positively to praise a true friend; or negatively to criticize friends that could not stand a test.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

a frase

A good book is the best of friends, the same today and forever.
- Martin Tupper

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

é isto que eu quero

Mas parece que ainda tenho (devo) esperar que isto tenha ligação à net...
Não sei se consigo...

domingo, 27 de setembro de 2009

importa-se de repetir?

Foi ontem o funeral de uma pessoa muito querida. Embora nunca tenha tido filhos, o que ontem se viu foi que deixou muitos sobrinhos órfãos. Choravam inconsoláveis a sua perda.
Na missa de corpo presente, o padre, que a conhecia muito bem desde há muitos anos, por muitas razões, mais pelo seu envolvimento em todos os assuntos da igreja, a começar pela catequese, num rasgo de inspiração informou que estávamos ali perante "o cadáver carcomido pela doença".
O que é que eu vou fazer a estas igrejas?

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

como fiz da minha filha uma bibliófila IV

Quais são as suas preferências? Os contos tradicionais, sem dúvida alguma. Os Três Porquinhos, Capuchinho Vermelho, O Gato das Botas, por aí adiante. Tipicamente, ouve-os vezes sem conta, seguidas, até eu os saber de cor. Primeiro em silêncio. À terceira ou quarta vez, começa a fazer uma perguntita sobre o enredo. Quando as perguntas começam a ser muitas, é sinal de que já percebeu, já assimilou todos os detalhes que lhe são importantes. Então, passa-se a outro conto. Este processo demora vários dias, claro.

Para minha surpresa (e estou a ser sincera) há novas colecções de livros, muitas vezes inspiradas em séries de televisão, que são muito bonitos, de que ela também gosta muito e que encerram informação importante e bem transmitida sobre os valores da amizade, da entreajuda, do trabalho. Quanto a mim, o problema é que são livros que se baseiam em filmes, sendo que o filme é frequentemente mais completo e mais interessante do que o livro, contrariando aquilo a que estamos habituados.
Com os contos tradicionais, o problema que surge é de outra natureza. A fúria editorial é tamanha que algumas edições recriam as histórias. Por exemplo: tenho uma versão de Os Três Porquinhos em que, em vez de cada irmão construir a sua casa, constroem os três as três casas, em sucessivas tentativas de escaparem ao lobo mau, o que desvirtua completamente, na minha opinião, a mensagem central do conto: o arquétipo de que a união faz a força.

Não sei dizer se a minha estratégia é a perfeita, se há mais e melhores coisas que eu poderia ou deveria fazer, mas uma coisa é certa: não raras vezes, encontro-a sentada num sofá, no chão, com um livro, que “lê”, em voz alta, a si própria. Conhece mais verbos introdutores do diálogo (dos complicados) do que os meus alunos de sexto ano que obtêm classificação “C” na Prova de Aferição. Sem nunca ter convivido com famílias judias, sabe que existe e o que é um menorah.
Um livro é o que escolhe para oferecer, nos aniversários, aos amiguinhos, porque, para ela, um embrulho que faça adivinhar um livro é o que lhe desperta mais curiosidade, o que abre com maior avidez.

sábado, 19 de setembro de 2009

o novo livro do meu pai

É. Não é que o meu pai tenha recentemente escrito um novo livro. Descobriram há tempos mais um livro que ele tinha na gaveta e foi apresentado na quinta-feira, na Sociedade Martins Sarmento, e na sexta-feira em S. Martinho.

"S. Martinho de Candoso, Ontem e Hoje"

Eu não fazia ideia, mas é uma obra com grande valor histórico, por duas razões: em primeiro lugar, porque são raras as monografias sobre freguesias do concelho, quase inexistentes. Depois, porque obedece a uma cuidada investigação histórica e a um conhecimento muito profundo do local.

Ele escreve muito, sempre escreveu. Tenho tentado convencê-lo a criar um blog. Não lhe daria trabalho nenhum, porque já escreve imenso - e dar-lhe-ia muito prazer.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

como fiz da minha filha uma bibliófila III

Quando tinha dezoito meses, a sua capacidade de concentração já me permitia ler-lhe as histórias de um livro que recomendo a todas as mães e que encontrei nas prateleiras de um supermercado: Boa Noite, Ursinho. Um vistoso “calhamaço” com três histórias lindíssimas que a mãe Urso lê ao seu filhote para o colocar nas asas de Morfeu: histórias sobre a hora de dormir, que surge como uma coisa boa, sem bruxas, lobos maus ou outros seres capazes de despertarem pesadelos. Aprendeu-as de cor, como seria de esperar, de tantas vezes que lhas li por sua própria insistência, exigência, até.
Entretanto, o cuidado que tinha ao manusear os livros foi evoluindo também e isso permitiu alargar o leque: aos dois anos e pouco já folheava sozinha livros de folhas finas, sendo de registar que nunca rasgou nenhum.

Quando a irmã nasceu, a três meses do seu terceiro aniversário, perguntámo-nos que prenda lhe deveria trazer, o que a faria mais feliz, que presente seria mais especial. Rapidamente concluímos que aquilo que lhe dá mais prazer são os livros.

Mais tarde, quando se tornou vital criar em casa um espaço chamado “quarto dos brinquedos”, tentei uma nova “casca de banana”: junto às quatro prateleiras que já tem repletas de livros, coloquei o seu sofá, à sua medida, e uma manta que trouxe o Pai Natal, “para pores nos joelhos, se tiveres frio”. Tenho de confessar que fiquei admirada quando a vi ir directa a esse cantinho, colocar a manta nos joelhos e escolher um livro. Pode ter sido da novidade, de ter ficado assoberbada por ver os seus brinquedos, tantos, subitamente arrumados de maneira que tinha acesso a todos, o que até aí não acontecia, mas a verdade é que já se passaram vários meses e esse continua a ser o seu cantinho favorito. Dentro e fora de casa: um sofá e um livro são os ingredientes perfeitos para um bom pedaço de tempo.

Recentemente, de um momento para o outro, tivemos de sair de casa para dormir fora, situação que, sabíamos à partida, se prolongaria por uma semana. Ficou incrédula quando, à hora de dormir, nos apercebemos de que não havia livro – apenas conseguimos encontrar dois, “de bebé”, que é o que chamamos aos livros que não têm praticamente texto, que apresentam a história muito resumida. Lá lhos li, acrescentei histórias sem livro e lá passou a primeira noite.
Quando, no dia seguinte, com mais calma, fui a casa munir-me dos “precisos” para a semana, escolhi uma série de livros e levei-lhos, dentro de uma mochila. Ao chegar, disse-lhe que lhe trazia uma surpresa. Ao perceber que se tratava de uma mochila cheia de livros por onde escolher para cada noite, o seu rosto iluminou-se num sorriso!

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

há sempre uma primeira vez...

Chamem-me o que quiserem, mas a verdade é que levei hoje, pela primeira vez, as minhas filhas ao parque. A mais velha tem três anos, quase quatro, a pequenina treze meses.
Não tenho o hábito de as levar ao parque porque têm um "parque" mais que bom em casa dos meus pais: imenso espaço exterior, jardim, flores, bolotas, baloiços, bicicletas, triciclos e por aí fora. Na verdade não precisam de ir ao parque para saírem do apartamento em que vivem e onde, a bem da verdade, passam pouco tempo.
Hoje saí da escola relativamente cedo, fui buscar a pequenina a casa dos avós, dei uma boleia ao meu pai e fui buscar a grande ao colégio. Cheguei um pouco mais tarde do que costumo, mas cedo, ainda assim, na opinião dela, que queria continuar no parque. Quando percebeu que tomávamos a direcção de casa - e não de casa da avó - protestou. Protestar significa fazer birra, insistir que quer ir à avó, enfim, prova de paciência. Expliquei-lhe que não estava ninguém em casa: uma meia verdade, mas não estavam de facto as pessoas com quem ela queria brincar.
Num flash de inspiração, lembrei-me: e se fôssemos ao parque da cidade? Ficou feliz, claro.
Lá fomos. Andaram de baloiço (como se já não o fizessem há anos), de escorrega. Não era preciso ir ao lago, porque "vê-se daqui". Quer dizer: o baloiço era demasiado importante.
Cerca de uma hora depois, estava na hora de regressar. Já passava das seis da tarde e estava a ficar frio, sobretudo para a mais pequenina, e eu não tinha levado casacos: fomos de improviso. Não podia ser, porque ainda não tínhamos ido ao lago. Tinha de ser porque estava na hora e estava a ficar frio. Berrou o tempo todo. Do parque até ao carro, que estava no fim do parque de estacionamento. No carro porque tinha que entrar antes da irmã. Porque tinha de entrar primeiro a irmã. Porque não queria vir para casa. Berrou até chegar a casa: a viagem, a cerimónia de as tirar do carro - que leva o seu tempo - o elevador, até ligar a televisão e me pedir o comando, aos berros.
Foi a minha primeira vez com as minhas filhas no parque.

sábado, 12 de setembro de 2009

a gripe

Parece-me que há um exagero na forma como se está a tratar este assunto da gripe A. Acho sempre que os nossos jornalistas têm o dom de irresponsavelmente empolar certo tipo de assuntos, criando um alarmismo exagerado.
Esta semana, fui com a minha bebé a uma consulta de rotina na pediatra. Disse-me que estava na altura de lhe dar a vacina da varicela, mas que era melhor perguntar primeiro à cardiologista se achava conveniente dar-lhe a vacina da gripe sazonal, visto que ela é grupo de risco, por causa da merdinha do canal arterial - a mais velha nunca tomou vacinas contra a gripe.
A pergunta foi feita e a resposta foi de forma a não deixar dúvidas: a cardiologista atou as mãos à cabeça e quase gritou que nem pensar em vacinar contra a gripe, porque o enfraquecimento que se segue à administração da vacina poderia favorecer o surgimento de sintomas - o que, por sua vez, seria o fim do mundo.
E agora?
E se a mais velha apanha a famosa gripe A no colégio? A pequenina NÃO pode apanhar.
Como é que eu impeço?
Pela primeira vez, tenho de dizer: estou cheia de medo. Não me interessa que me digam que o que ela tem não é grave. Agora digo: quero que lhe façam o tal cateterismo o mais cedo possível. Mas e se tem de ir para cirurgia?

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

como fiz da minha filha uma bibliófila II

Tratei de fazer do livro um objecto normal, do dia-a-dia dela, tal como os guizos, a chupeta, a fralda que roçava com os dedos para adormecer.

O primeiro livro que ela teve era de pano, sobre o “Fundo do Mar”. As “folhas” faziam barulho e os seus cantos eram de borracha, para massajar as gengivas aquando do aparecimento dos primeiros dentes. Tinha uma asa, para ela poder agarrar, como todos os outros guizos que se destinam a bebés de três ou seis meses.

Seguiu-se um outro livro, com ilustrações giríssimas de animais marinhos (também), que era um brinquedo para o banho. Até no banho - um rápido duche - havia espaço para ler.

Quando se tornou possível interagir um pouco mais, ou seja: quando atingiu a idade que a irmã tem agora, apareceram os primeiros livros "a sério": pequenos, à medida das mãos dela; cartonados, para serem mais resistentes, claro; com imagens, pouco texto, mas o suficiente para ela perceber que nos livros existia informação e que essa informação lhe interessava: as vozes dos animais, os seus filhotes, os elementos da Natureza, a relação entre os meios de transporte e a função a que estão destinados, o inevitável Natal, os frutos, as cores, os vegetais... Rapidamente os leu sozinha: abria na página com a imagem do perú e "lia": "galu, galu". Fazia as minhas delícias.

Vendo que estes estavam a "entrar", arrisquei outros, que já contavam uma pequena história: uns livros da Anita, pequeninos, também cartonados (o que, além do mais, lhe facilitava o folhear), com oito ou dez páginas daquelas belíssimas ilustrações acompanhadas de uma ou duas frases muito simples, que resumiam os livros da Anita que conhecemos de toda a vida. Rapidamente começou a comentar a leitura: "totó", quando a protagonista ia brincar para a neve sem casaco nem gorro, apontava para a imagem do gato quando eu lia que ele fora visitara a Anita convalescente, etc. Associava o livro à pessoa que lho oferecera.

ouçam isto também

está melhor aqui

ouçam isto

sábado, 29 de agosto de 2009

como fiz da minha filha uma bibliófila I

Quero que a minha filha goste de ler. Ainda mais do que eu gosto. Tenho utilizado muitas estratégias para atingir este objectivo. Já há muito, o feedback que recebo indica que vou no bom caminho. Ela gosta que se lhe conte histórias (que eu conte, para ser mais precisa), mas gosta sobretudo de ver folhear o livro, de ver passar as páginas, de ouvir ler. De me ouvir ler-lhe.

(Um pequeno apontamento: falo na minha filha, no singular, porque a pequenina acaba de completar o primeiro ano de idade – e para tudo é preciso esperar pelo momento. A minha experiência como mãe de uma futura leitora cinge-se, por enquanto, à mais velha, que tem três anos.)

É claro que ela recebeu livros como prenda de nascimento e de primeiro aniversário: as Histórias e Contos Completos de Hans Christian Andersen e As Melhores Histórias dos Irmãos Grimm, respectivamente, mas trata-se de artigos "de luxo", lá virá a sua hora.

Não foi assim que começou.

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

sábado, 27 de junho de 2009

a filha

Naquele tempo, como ela dizia. Dezanove anos, grávida. Não que até ali a vida lhe tivesse sido fácil, a mãe sempre má, sempre a bater, sempre má. O pai fora melhor, deixara-a ir à escola, aprender costura, se primeiro o ajudasse com os sapatos. Levantava-se cedo para acabar, casar, coser, levar ao freguês, o que fosse preciso. Depois, sim, podia ir à mestra, que para a escola nove meses chegaram para a terceira classe, sem exame, claro.
Desta vez era diferente. Ela sabia que ia ser muito mau. O padre levou-a de rastos até casa dele, para a mulher a ver. Caiu para o lado quando lhe disseram esta vai dar ao teu homem aquilo que tu nunca. E ela ali, a humilhação máxima. Naquele tempo era assim. Como se fosse. Que o padre tivesse filhos, era vergonha, não se dizia, mas não fazia mal. Uma moça solteira era pior vergonha, então irmã do padre, irmãs mais novas por casar. Espancada todos os dias desde pequena, que o pai era o único por ela. E então agora o padre. Não teve escolha. Uma coisa era baterem-lhe a ela, aguentava de habituada que estava, mas à menina não. Isso e as ameaças de lha tirar. Tirar-lha? Para quê? Para vender? Dar? Fazer dela freira? Antes dá-la ao pai. Tratava-a bem, isso de certeza. Rico, ela teria conforto como nunca ali poderia a mãe dar-lhe. E comida. E boa escola. Filha única que seria de uma mãe que nunca pariria os seus. Estava certa. A menina teve vida de morgada, mas disseram-lhe que a mãe a vendera por pouco dinheiro. Muitos anos mais tarde, a menina, já avó, admitiria que se lembrava de ter visto bater à mãe por lhe pôr manteiga, marmelada, qualquer coisa, num pão. Mas nem assim conseguia perdoar. Saber-se aos quatro anos abandonada pela mãe, vendida ao pai por pouco dinheiro, nem sabia bem quanto. Nem depois de velha, mãe de filhos e até já avó perdoava. Também não é preciso tanto. Era grande já quando exigiu regressar para junto da mãe e o pai, falho de argumentos que a dissuadissem, teimosa que era, lhe fez a vontade. Bom dia escolheu. Depois de horas de espera, lá viu vir a mãe e a irmã. Era Verão e vinham do monte, de apanhar lenha para o Inverno, que não tardaria a ser preciso acender o lume. O espectáculo não lhe agradou e muito menos imaginar-se naquilo no verão seguinte ou já amanhã. Em casa do pai tocava-lhe bordar, aprender de cozinha, mas não ir ao monte à lenha. Para isso estavam os criados. Muitos, que chegassem. E a lenha era a sério, da que demorava a arder, que se escolhia as árvores.

era suposto chorar?

Não fiquei devastada com a morte do Michael Jackson.
Peço desculpa.

facebook

Rendi-me, tenho de confessar.
Isto da net está a tornar-se cada vez mais um vício.
Durante algum tempo ainda tentei resistir, mas não deu.
Rendi-me, é isso.

sábado, 6 de junho de 2009

terça-feira, 19 de maio de 2009

a prova de aferição?

O que digo sempre aos meus alunos é que a prova, mais do que um teste de conhecimentos, é sobretudo um exercício de atenção. E foi o que se passou ontem. Não me parece que se possa dizer que a prova fosse difícil, pelo contrário, mas exigia uma atenção muito grande.
O problema é que há sempre um mas.
Nunca surgem textos dramáticos no segundo ciclo, estejam ou não no programa.
Continua a ser verdade que a prova era fácil (conheço apenas a opinião dos meus alunos, que ontem nem espreitei noticiários), mesmo no que diz respeito aos elementos relacionados com o texto dramático propriamente dito - desde que os alunos pusessem a cabeça a trabalhar e pensassem no que era pedido, o que, toda a gente sabe, nem sempre acontece.
A não ser, claro, que esteja em jogo alguma coisa muito importante para eles (passar de ano, por exemplo) e eles sabem que não está.

A minha opinião muito sincera?
Venham os exames nacionais. Exames. E não só a Português e Matemática. A todas as disciplinas. Só assim.

já não bebes mais

A Mónica sonhou comigo e no sonho dela eu dizia esta coisa fantástica:
"Todo o corpo tem uma alma. Alma que às vezes até o próprio corpo deconhece..."
(Sabem, a Mónica costuma parar os relógios. A sério!)

segunda-feira, 18 de maio de 2009

professor sofre

Hoje é o dia da prova de aferição de Língua Portuguesa.
Há um frio na barriga. Claro.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

já repararam?

Todos os meus colegas, professores das mais diversas disciplinas, se queixam do mesmo. Os alunos têm notas miseráveis não porque não saibam realizar as actividades propostas, mas porque não compreendem o enunciado, ou seja: não sabem Português. Concordo. Concordo mesmo a sério, porque vejo todos os dias, na minha sala de aula, que eles não percebem praticamente nada do que lêem. O problema do Português tem, necessariamente, de se reflectir em todas as outras disciplinas.
Então expliquem-me: por que é que a disciplina de Língua Portuguesa não tem maior carga horária? No segundo ciclo, no sexto ano, Matemática tem mais um tempo de quarenta e cinco minutos do que Língua Portuguesa. (Língua Portuguesa, esclareço, tem apenas dois blocos de noventa minutos semanais no quinto ano, sendo acrescida uma aula de quarenta e cinco minutos no sexto ano.) Mas os professores de Matemática queixam-se: os alunos não fazem os exercícios por uma única razão: não sabem ler o enunciado.
Podem, por favor, já agora, explicar-me também a lógica de insistirem naquelas coisas fantásticas do Estudo Acompanhado, da Formação Cívica, da Área de Projecto? Ainda não repararam no tempo que se perde (perde mesmo) com estas palhaçadas?

sábado, 11 de abril de 2009

quem atira a primeira pedra?

Na estrada para casa dos meus pais, onde passo pelo menos duas vezes por dia, houve, há tempos, um acidente em que morreu um rapaz, que seguia de moto, creio. Perco a noção do tempo, por isso é-me difícil dizer quando foi, mas passaram-se seguramente dois anos. Um rapaz de vinte e poucos anos morreu ali. Ao princípio, começaram por lá pôr umas flores, tímidas, uma vela. Depois, uma jarra para as flores, mais velas. Uma cruz improvisada. Velas diferentes, daquelas que não se apagam com o vento nem com a chuva, conforme acontecia às vezes com as outras. Flores arranjadas, em coroa. Entretanto, um grande crucifixo, dos a sério, para durar. E, a “assear” tudo aquilo, vejo de vez em quando um senhor, todo de preto, da cabeça aos pés. O pai, talvez.

da autocomiseração

Eu nunca me achei uma pessoa assim tão boa e também nunca me aconteceram coisas assim tão más. Eu precisava de fazer um luto, mas esse luto não era meu. O que eu não conseguia era perceber por que é que tanto sofrimento tinha tocado a uma pessoa como ela. Foi por isso que quando veio para mim eu não pensei sou uma desgraçada, antes: claro que a mim também. E depois, no meu caso, nem sequer se tratou de um sofrimento prolongado com um final horroroso. Eu fui confrontada com a notícia de um facto consumado. Nem sequer era um diagnóstico mau que precisava de ser confirmado. Já estava ali. Só era preciso digerir a notícia.

O melhor, claro, é que tudo corra sempre bem. A seguir a isso, o melhor é que o mal seja o menos mau possível. Há muito mais sofrimento num mau diagnóstico que dita a necessidade de novos exames, mesmo que estes venham a infirmá-lo, do que num mau diagnóstico definitivo, recebido de forma abrupta.

É bom quando, mesmo estando a sofrer, conseguimos dar o real valor àquilo que nos aconteceu, perceber que às vezes não há nada, nem ninguém, nem nós próprios, a quem atribuir a “culpa” e que só temos motivos para seguir em frente.

sábado, 4 de abril de 2009

o que ando a ler

Vi pessoas muito próximas, amigos muito queridos, passarem por situações de sofrimento extremo. Pessoas boas a quem estavam a acontecer coisas muito más, parecia que em cadeia. Então descobri um livro que, diziam, ajudava a "fazer o luto". O título parecia adequado: Quando Acontecem Coisas Más a Pessoas Boas. Escrito por um rabino americano, Harold S. Kushner.

Custou, mas lá encontrei e, devo confessar, devorei. Gostei tanto que comprei uns tantos, que vou distribuindo, mas sobretudo não páro de falar do que ele diz. Depois descobri outros títulos do mesmo autor, todos na prateleira da "auto-ajuda", mas que não me saíram bem isso, ou melhor: não só.

(Devo confessar que sempre senti uma grande admiração pela religião judaica e, mais ainda, por um povo que conseguiu criar uma identidade nacional partindo do mais absoluto nada, um país próspero numa região do mundo onde nada prospera.)

A minha relação com a religião é problemática. Tentaram ensinar-me a ser cristã, católica, mas tenho muitos problemas com a parte de ser cristã e muitos mais ainda com a parte de ser católica. Esta é uma religião dogmática, muito, e eu não consigo acreditar em nenhum dos seus dogmas, para começar. A coisa piora quando começo a pensar na Igreja Católica como instituição, por me parecer o expoente máximo do vício, da mentira e da corrupção. (Leiam, a propósito, Memórias de Um Anão Gnóstico, de David Madsen.)

O que este senhor Kushner me tem trazido é uma leitura da Bíblia que eu não conhecia e até de uma Bíblia que eu não conhecia. Claro: ele fala do Antigo Testamento, texto mais ou menos proibido aos cristãos, que, de resto, pelo menos no caso dos católicos, pouca Bíblia lêem. E nenhuma discutem.

segunda-feira, 30 de março de 2009

tenho de falar sobre isto

Desta vez não foi nos Estados Unidos. Nem da outra.
Às vezes parece que há uma espécie de mania de dizer que as coisas horrendas acontecem “claro” nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, note-se que os Estados Unidos são do tamanho de um continente e têm uma população imensa. A quantidade de notícias que chegam de lá têm de ser observadas à luz desta realidade, já dizia um colega meu ao professor de História do nono ano, quando este, comuna, anunciava que, em números absolutos, lá há mais analfabetos do que cá.
A verdade é que os mais hediondos casos de rapto, sequestro, etc., etc., têm chegado da Áustria. Áustria. País idóneo, paraíso, achávamos. Donde: a Áustria é um país de monstros. Não, claro que não, mas serve para percebermos que os monstros estão onde estão, não nos países que Deus não vê e os Estados Unidos não têm, de todo, o exclusivo.
A história de Natasha Kampush é arrepiante, mas a de Elizabeth Fritzl está para além da nossa (minha) capacidade de imaginar, de descrever. Não conheço adjectivos adequados à monstruosidade do que o pai lhe fez. O pai. Um homem que diz que nasceu para violar.
Ainda não consegui decidir se sou ou não a favor da pena de morte, mas a verdade é que há casos em que até isso soa a pouco. E, no caso dele, morrer é pouco. O que ele merece é sofrer. Sofrer muito. O ideal seria fazê-lo sofrer tanto como ele fez sofrer a filha, mas isso é impossível. Ela teve não sei quantos filhos, mais um aborto, sem qualquer assistência de qualquer espécie: nem médica, nem nenhuma. Apenas na presença do monstro que lhos tinha feito, à força, à frente dos outros filhos. A justiça que lhe deveriam aplicar era passar pelo mesmo que ele a fez passar, mas isso é impossível.
Só é pena que tenha sido num país em que as cadeias se parecem com hotéis de luxo. Era bom se o mandassem para o Brasil ou um país assim. Disseram alguns comentadores no Público, mas eu a sério que já tinha dito. Punham-no numa cela de dez, mas em que estão cinquenta. Aí teria tratamento condigno.
Eu sei que isto já tem muito tempo, já toda a gente escreveu tudo. Também já li no Pedro Mexia, tenho pena de não ter escrito primeiro: esta Elizabeth Fritzl é uma heroína. Mesmo. Passar por tudo o que ela passou e conseguir ter pelos filhos aquele sentimento que as mães têm pelos filhos. Conseguir instruí-los, educá-los na religião que lhe ensinaram a ela. Li nesse texto do Pedro Mexia, não sei onde, que os polícias que trouxeram “para cima” as crianças que continuavam no bunker quebraram quando o mais novo apontou para o céu e perguntou: “É ali que está Deus?”
Deus? É caso para perguntar.

voltei

Desculpem os leitores a demora, mas vida de professor nem sempre permite fazer o que se quer quando se quer. Professores de Português estão especialmente sujeitos a longas e compulsivas hibernações. Mas está prometido: sempre que eu demorar, I’ll be back.

sexta-feira, 6 de março de 2009

a frase

"Making the decision to have a child - it's momentous.
It is to decide forever to have your heart go walking around outside your body."
Elizabeth Stone

tem de ser assim

Eu sei que demoro uma eternidade, mas as minhas actas são literatura.

quarta-feira, 4 de março de 2009

o que é mais deprimente?

As mães dos meus alunos começam a ser mais novas do que eu.
As mães dos meus alunos parecem minhas mães.

terça-feira, 3 de março de 2009

a frase

It's a funny thing about life: if you refuse to take anything but the best, you very often get it.
William Somerset Maugham

já ninguém se lembra

No tempo em que não havia telemóveis, e muito menos net, perdia-se contactos com facilidade. É-nos difícil, hoje, imaginar como seria a nossa vida sem estas coisas, mas a verdade é que recuperar um amigo depois de uma dúzia de anos não é tarefa fácil. Depois desta dúzia de anos, sobretudo, porque começaram precisamente nessa altura em que não havia nada e de repente começou a haver tudo. E então quando é sim! a resposta à pergunta ainda se lembrará de mim? é melhor do que ganhar o totoloto. Mesmo. Adorei.
Sunshine.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

ter um horário...

Quem me dera entrar às seis e sair às duas...
Não trazia trabalho para casa, não ia para o trabalho fora de horas (ou de dias), a não ser, claro, que o patrão pagasse as horas... Sim, porque o sindicato estaria atento!
Não assinava papéis!...

a pessoa errada

Disseram-me uma vez que há pessoas que vêm ao mundo só para nos mostrarem aquilo que não devemos ser.
É verdade.
Mas referiam-se à pessoa errada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

é estranho que não faça falta

É estranho não sentir a falta do tempo para ler.

Uma das falas famosas da personagem principal de uma das minhas séries de culto dizia isso mesmo: para se ter filhos só é preciso abdicar de... tudo.
De dormir o tempo que se quer, à hora que se quer, de ir, de andar, de fazer, de ler.
Sobretudo de ler.

E do silêncio.

O mais surpreendente é não sentir a falta desse tempo. Tem-se saudades, mas não se sente a falta.

o sofrimento é demasiado

Para morrer não devia ser preciso tanto.

carta aberta a uma amiga

Vou-te contar, mas, se tudo tivesse continuado a ser como era antes de eu ter tido a minha primeira filha, tu saberias melhor do que ninguém.

Sabes, criar um filho é o cabo dos trabalhos, mas criar dois não é o dobro: é o triplo, ou mais. Por isso, algumas pessoas, sobretudo uma amiga que só tem uma filha, já adulta, dizia-me que uma chegava e sobrava. Eu argumentava que ter um irmão (na verdade, eu achava que uma irmã) era a coisa mais importante que podia - e devia - dar à minha filha, porque com uma irmã se cria uma relação diferente de todas as outras relações que se pode ter, em toda a vida. Essa amiga, que tem irmãs e com quem, pelos vistos, tem um relacionamento problemático, tentava convencer-me, dizendo que tinha ensinado à filha o valor da amizade. Eu não lhe disse, mas pensei que não são comparáveis: uma amizade pode não ser para toda a vida - a maior parte delas não é. Enquanto uma irmã pode nunca vir a ser exactamente uma amiga, mas será sempre irmã. A relação que se tem com uma irmã é muito complicada de explicar a quem nunca teve uma. Uma irmã é uma pessoa que está lá sempre, mesmo que metade das vezes que lhe telefonamos a pedir ajuda nos dê, se calhar, uma resposta torta. Está lá sempre. Viveu connosco tudo o que nós vivemos. E, mesmo que estejamos afastadas, de alguma forma, durante muito tempo, ela continua a existir e é sempre nossa irmã.

Depois, claro, há o argumento de que os filhos únicos são insuportáveis de mimados, mas eu conhecia-te a ti e tu contrarias essa teoria.

Porquê tudo isto?
Porque recentemente tenho pensado muito no facto de tu não teres irmãos.

Dizes-me frequentemente, ou melhor: com a frequência com que falamos ultimamente, que é rarissimamente, dizes-me que trabalhas imenso, que isso te deixa pouquíssimo tempo para estares com os amigos, que o tempo passa a correr parece que começas a perder contactos. Eu presumo, então, talvez erradamente, que o que está a acontecer comigo deve estar a acontecer com outras amigas tuas, também.

O que eu gostava de te dizer é: tem cuidado. Os amigos não são como os irmãos: eles vêm e vão. Como um iô-iô, se se quiser ser agressivo. Tens de tentar fazer aquilo que eu achava que tu fazias: cultivar as relações de amizade como se elas fossem de família. Pelo menos - permite-me - com aquelas pessoas que te chamaram para a sua família. Corres o risco de, um dia, seres apenas uma recordação. Até porque nós temos irmãos...

Houve uma época em que eu sabia sempre em que dia e a que horas tu saías em viagem e regressavas. Era a mim que telefonavas a dizer que a viagem tinha corrido bem, que havia espaço para mim no quarto, se eu não tivesse preferido ficar em casa. Hoje, imagino que estejas cá, porque as janelas de tua casa estavam abertas. Mas pode ser a tua mãe, que já tenha regressado. Tenho saudades daqueles tempos.

É por isso que te vou fazer hoje uma proposta que ando há muitos anos para te fazer. Muitos anos mesmo. Desde o tempo em que falávamos todos os dias e noventa por cento das mensagens que recebia no telemóvel eram tuas. Devíamos comprometer-nos a falar ao telefone pelo menos uma vez por semana. Combinávamos um dia e mais ou menos uma hora e, todas as semanas, ligávamos. Nem que tu estivesses no fim do mundo.
Beijinhos.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

a pergunta

Algum dia alguém lerá isto, além de mim?

a minha avó

Estranho, começar por escrever sobre ela.
Foi sempre uma pessoa tão difícil. E agora, passados os anos que foi preciso que passassem, pensando bem. Pensando bem, sobretudo.
Como é que ela poderia ter sido fácil, se teve sempre uma vida tão difícil? É preciso escrever a vida dela, mas como? Ela já não se ouve. As outras pessoas não contam as histórias todas nem toda a história. Algumas, nem quero ouvi-las, por isso, como?

a começar

Ao que busco saber nenhum de vós responde.