Não somos muito de rituais, cá em casa. Fazemos tudo com algo de improviso, sempre. A única excepção é a hora de deitar. Não no que diz respeito à hora, que essa é sempre mais ou menos, mas na ordem de trabalhos.
O nosso rirual diário, aquele que não dispensamos nunca, é o de ler às meninas, à hora de deitar. Quando está na hora de deitar, e a hora de ditar é sempre mais ou menos, desligo o telemóvel, visto o pijama e arranjo-me como se fosse hora de me deitar também. Não é e a minha esperança é conseguir adormecer as meninas e voltar para o meu trabalho, que é sempre muito, ou para o meu livro. Mas na verdade adormeço com elas as mais das vezes, por isso me preparo como quem diz até amanhã. Escolhemos o que vamos ler - a pequena, mais segura do seu querer, escolhe conto atrás de conto, ordenando "Lê!". E eu leio. Primeiro a uma, depois a outra, deito-me com uma e abraço-a até que durma, deito-me com outra e abraço-a até que durma. E então é aí. É aí que o tempo pára. Não existe mais nada. Não há testes para corrigir, não há aulas para preparar, não há mails, estados do Facebook, roupa para estender. Nada. Aquela é a minha hora da paz. Percebi isto recentemente com uma clarividência extraordinária. Tenho andado sob uma tensão nervosa tremenda. Tem-me acontecido algo que já me haviam descrito, mas que nunca tinha percebido bem. Acordo de manhã, muito cedo, eu que durmo sempre até tarde, e não aguento ficar na cama. Como se tivesse uma pedra pesada em cima do peito, a esmagar. Essa pedra fica cá dentro todo o dia, o coração bate pesado, todo o dia. E a pressão da pedra, dura, pesada, só alivia à noite, na cama delas, enquanto lhes leio, enquanto as abraço e espero que adormeçam.
Há um milhão de autores que advogam a favor da leitura pelos pais aos filhos à hora de deitar, como ritual de transição entre o dia e a noite. Que é útil para criar laços, que faz bem às crianças. É preciso dizer que este ritual faz bem aos pais também. Nós precisamos dele tanto ou mais que os nossos filhos.
Woman reading
Alexander Deineka
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
domingo, 26 de junho de 2011
e eu é que sou maluca?
A coisa piorou.
Dantes, gostavam de ver os filmes da Pipi (a pequena mais fanática do que a grande). Consegui limitar a um filme por dia, uma vez. Continuam a perguntar quando é que a Pipi chega a nossa casa (vinda dos mares do sul de ir visitar o pai, lembram-se?). Ora, os filmes da Pipi estão guardadinhos no armário por cima do frigorífico, há mais de dois anos, e não, não vão sair de lá. Esta parte baralha-me, a sério. A minha filha é inteligente, a sério, perguntar-me quando é que a Pipi chega a nossa casa é uma coisa que não percebo. Então ela não vê?
A coisa piorou, dizia eu. Pois é.
Ontem de tarde, a mais velha era a Pipi - claro - e a mais nova era a Anica. O Tommy, que remédio, era um Nenuco. Não prestava para nada, mas fazer o quê? Não temos aqui o P. Ora o P. é o primo, a quem a I. chama irmão. São da mesma idade, ele um pouco mais velho, mora mesmo em frente e, pior de tudo, tem uma força que não é normal para uma criança de 5 anos. E só tem 3.
Teve piada, tenho de reconhecer, ouvi-las repetir as falas das personagens, mas não teve tanta piada quando a "Anica" atirou não sei o quê pelo ar e deixou a "Pipi" com uma negra. E ponho-me a pensar E se cá estava o "Tommy"? É que de vez em quando está...
Poderá ser uma visão catastrofista, mas não me sai da ideia: à falta de um cavalo que levante no ar, para provar a força que tem, a "Pipi" pode optar, sei lá, por uma das cadeiras delas - há montes e não, não são todas de esponja. E, quando a força da gravidade for mais poderosa, o que não deve ser muito tempo depois, vai cair onde? Na televisão? Numa terrina? Numa cabeça, num pé? Ou podem fazer aquele jogo fantástico de não pôr os pés no chão: passeiam de cadeira em cadeira, por cima da mesa... e então lembrei-me de outra coisa. Se se puserem em cima da mesa conseguem chegar ao candeeiro. E pendurar-se nele. A sério. Podem mesmo.
E depois há todo o resto, que descrevo alguns posta abaixo.
E o único que me percebe é o meu pai.
Então decidi: os DVDs da minha irmã vão hoje de empréstimo para o filho de uma amiga. A hipótese dos mares do sul já não deve pegar. O outro, entretanto, vai evaporar também.
Dantes, gostavam de ver os filmes da Pipi (a pequena mais fanática do que a grande). Consegui limitar a um filme por dia, uma vez. Continuam a perguntar quando é que a Pipi chega a nossa casa (vinda dos mares do sul de ir visitar o pai, lembram-se?). Ora, os filmes da Pipi estão guardadinhos no armário por cima do frigorífico, há mais de dois anos, e não, não vão sair de lá. Esta parte baralha-me, a sério. A minha filha é inteligente, a sério, perguntar-me quando é que a Pipi chega a nossa casa é uma coisa que não percebo. Então ela não vê?
A coisa piorou, dizia eu. Pois é.
Ontem de tarde, a mais velha era a Pipi - claro - e a mais nova era a Anica. O Tommy, que remédio, era um Nenuco. Não prestava para nada, mas fazer o quê? Não temos aqui o P. Ora o P. é o primo, a quem a I. chama irmão. São da mesma idade, ele um pouco mais velho, mora mesmo em frente e, pior de tudo, tem uma força que não é normal para uma criança de 5 anos. E só tem 3.
Teve piada, tenho de reconhecer, ouvi-las repetir as falas das personagens, mas não teve tanta piada quando a "Anica" atirou não sei o quê pelo ar e deixou a "Pipi" com uma negra. E ponho-me a pensar E se cá estava o "Tommy"? É que de vez em quando está...
Poderá ser uma visão catastrofista, mas não me sai da ideia: à falta de um cavalo que levante no ar, para provar a força que tem, a "Pipi" pode optar, sei lá, por uma das cadeiras delas - há montes e não, não são todas de esponja. E, quando a força da gravidade for mais poderosa, o que não deve ser muito tempo depois, vai cair onde? Na televisão? Numa terrina? Numa cabeça, num pé? Ou podem fazer aquele jogo fantástico de não pôr os pés no chão: passeiam de cadeira em cadeira, por cima da mesa... e então lembrei-me de outra coisa. Se se puserem em cima da mesa conseguem chegar ao candeeiro. E pendurar-se nele. A sério. Podem mesmo.
E depois há todo o resto, que descrevo alguns posta abaixo.
E o único que me percebe é o meu pai.
Então decidi: os DVDs da minha irmã vão hoje de empréstimo para o filho de uma amiga. A hipótese dos mares do sul já não deve pegar. O outro, entretanto, vai evaporar também.
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Pipi das Meias Altas
terça-feira, 7 de junho de 2011
aquela pré-adolescente insuportável
A resposta é... sim. As minhas filhas são perfeitamente viciadas na Pipi das Meias Altas (deixa-me pôr o título com as minhas maiúsculas todas antes que passe a ser oficialmente erro ortográfico).
A minha irmã tem na Pipi a mais acalentada recordação de infância. Eu, confesso, não me lembro tanto assim. Na verdade, algumas cenas que vejo agora nos filmes são-me familiares, a música, mas não recordava tanto como ela.
A Pipi reentrou na nossa vida quando a minha santa mãe comprou um DVD para a minha filha mais velha, que tinha então... dois anos. Já ouviram falar em amor à primeira vista? A Pipi tornou-se de imediato na mais absoluta heroína. Sempre que acabava o filme, toca a puxar a fita atrás e pôr outra vez... Não! Era DVD! Nem sequer tínhamos a folga do tempo de passar a fita atrás. Depois, mais um conjunto de coleccionador: quatro DVDs, no Natal, para mim e para a minha irmã, for old times' sake. Foi o delírio da pequenita.
A mim, dá-me nos nervos.
Na minha (humilde ma non tropo) opinião de mãe, a Pipi das Meias Altas personifica tudo aquilo que eu NÃO QUERO que as minhas filhas sejam. A minha mãe, sempre benevolente, diz que ela é desenrascada, que consegue ultrapassar todas as dificuldades. Não. Ela é malcriada, não tem maneiras, não respeita a autoridade, não respeita os mais velhos, e é a heroína da pequenada. Pior: quando os dois amigos decidem fugir de casa, a mãe deles pede à Pipi para os acompanhar, tipo anjo da guarda.
A Pipi vive sozinha, o que lhe permite fazer tudo e mais alguma coisa. Tipo: dormir vestida e calçada, com as botas, cujo cheiro o DVD não esconde, em cima da almofada. Tem um saco cheio de dinheiro - um saco a sério, uma mala daquelas de médico à antiga - que se destina, como diz a música do genérico, a doces, rebuçados e caramelos. Mas também dá para atirar pelo ar, na brincadeira. Toma banho numa enorme meia-pipa de madeira, no meio da casa (nada a opor) e, no fim, deita a água para o chão, que esfrega "patinando" sobre duas escovas. Literalmente. Mas há mais: parte os ovos na cabeça e bate-os com uma vassoura. Não sabe ler, porque não é preciso, e não vai à escola, porque seria uma seca ter de obedecer à professora.
Não dá para a minha paciência. Não sou uma mãe perfeita - antes desastrada, como confesso uns posts abaixo - nem quero as minhas filhas numa redoma de vidro. Mas tanto também não.
Então, tomei uma decisão drástica. Nas férias da Pascoa, em 2008, estava eu grávida da minha pequena, fomos uns dias a Barcelona. A Pipi foi de férias também, visitar o pai, que está nos Mares do Sul, seja lá onde isso for. Agradaram-lhe os ares, ficou lá uns anos. Não é que a minha moça, que tinha dois anos e meio, não se esqueceu?!
Passaram-se outros dois anos e lá me convenceram que era tempo de a Pipi regressar. Escusado será dizer que o sucesso foi total e imediato - nas duas. Vêem a Pipi sempre que estão em casa da avó e o máximo que consegui foi limitar a uma vez por dia.
E o pior de tudo é a música. Sim, porque podia haver toda aquela anarquia - reitero: ela é uma hippie - a voz esganiçada e tudo, mas não a música. Pior que má. Pra lá de irritante.
A minha irmã tem na Pipi a mais acalentada recordação de infância. Eu, confesso, não me lembro tanto assim. Na verdade, algumas cenas que vejo agora nos filmes são-me familiares, a música, mas não recordava tanto como ela.
A Pipi reentrou na nossa vida quando a minha santa mãe comprou um DVD para a minha filha mais velha, que tinha então... dois anos. Já ouviram falar em amor à primeira vista? A Pipi tornou-se de imediato na mais absoluta heroína. Sempre que acabava o filme, toca a puxar a fita atrás e pôr outra vez... Não! Era DVD! Nem sequer tínhamos a folga do tempo de passar a fita atrás. Depois, mais um conjunto de coleccionador: quatro DVDs, no Natal, para mim e para a minha irmã, for old times' sake. Foi o delírio da pequenita.
A mim, dá-me nos nervos.
Na minha (humilde ma non tropo) opinião de mãe, a Pipi das Meias Altas personifica tudo aquilo que eu NÃO QUERO que as minhas filhas sejam. A minha mãe, sempre benevolente, diz que ela é desenrascada, que consegue ultrapassar todas as dificuldades. Não. Ela é malcriada, não tem maneiras, não respeita a autoridade, não respeita os mais velhos, e é a heroína da pequenada. Pior: quando os dois amigos decidem fugir de casa, a mãe deles pede à Pipi para os acompanhar, tipo anjo da guarda.
A Pipi vive sozinha, o que lhe permite fazer tudo e mais alguma coisa. Tipo: dormir vestida e calçada, com as botas, cujo cheiro o DVD não esconde, em cima da almofada. Tem um saco cheio de dinheiro - um saco a sério, uma mala daquelas de médico à antiga - que se destina, como diz a música do genérico, a doces, rebuçados e caramelos. Mas também dá para atirar pelo ar, na brincadeira. Toma banho numa enorme meia-pipa de madeira, no meio da casa (nada a opor) e, no fim, deita a água para o chão, que esfrega "patinando" sobre duas escovas. Literalmente. Mas há mais: parte os ovos na cabeça e bate-os com uma vassoura. Não sabe ler, porque não é preciso, e não vai à escola, porque seria uma seca ter de obedecer à professora.
Não dá para a minha paciência. Não sou uma mãe perfeita - antes desastrada, como confesso uns posts abaixo - nem quero as minhas filhas numa redoma de vidro. Mas tanto também não.
Então, tomei uma decisão drástica. Nas férias da Pascoa, em 2008, estava eu grávida da minha pequena, fomos uns dias a Barcelona. A Pipi foi de férias também, visitar o pai, que está nos Mares do Sul, seja lá onde isso for. Agradaram-lhe os ares, ficou lá uns anos. Não é que a minha moça, que tinha dois anos e meio, não se esqueceu?!
Passaram-se outros dois anos e lá me convenceram que era tempo de a Pipi regressar. Escusado será dizer que o sucesso foi total e imediato - nas duas. Vêem a Pipi sempre que estão em casa da avó e o máximo que consegui foi limitar a uma vez por dia.
E o pior de tudo é a música. Sim, porque podia haver toda aquela anarquia - reitero: ela é uma hippie - a voz esganiçada e tudo, mas não a música. Pior que má. Pra lá de irritante.
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