Que dizer para explicar uma ausência tão demorada?
Estive longe. Por muitos motivos, muito pessoais e muito válidos todos, mas é por esses mesmos motivos que estou de volta, agora.
Com a promessa de ser mais assídua.
O que busco saber
Woman reading
Alexander Deineka
segunda-feira, 7 de janeiro de 2013
segunda-feira, 23 de julho de 2012
quando o mundo pára
Não somos muito de rituais, cá em casa. Fazemos tudo com algo de improviso, sempre. A única excepção é a hora de deitar. Não no que diz respeito à hora, que essa é sempre mais ou menos, mas na ordem de trabalhos.
O nosso rirual diário, aquele que não dispensamos nunca, é o de ler às meninas, à hora de deitar. Quando está na hora de deitar, e a hora de ditar é sempre mais ou menos, desligo o telemóvel, visto o pijama e arranjo-me como se fosse hora de me deitar também. Não é e a minha esperança é conseguir adormecer as meninas e voltar para o meu trabalho, que é sempre muito, ou para o meu livro. Mas na verdade adormeço com elas as mais das vezes, por isso me preparo como quem diz até amanhã. Escolhemos o que vamos ler - a pequena, mais segura do seu querer, escolhe conto atrás de conto, ordenando "Lê!". E eu leio. Primeiro a uma, depois a outra, deito-me com uma e abraço-a até que durma, deito-me com outra e abraço-a até que durma. E então é aí. É aí que o tempo pára. Não existe mais nada. Não há testes para corrigir, não há aulas para preparar, não há mails, estados do Facebook, roupa para estender. Nada. Aquela é a minha hora da paz. Percebi isto recentemente com uma clarividência extraordinária. Tenho andado sob uma tensão nervosa tremenda. Tem-me acontecido algo que já me haviam descrito, mas que nunca tinha percebido bem. Acordo de manhã, muito cedo, eu que durmo sempre até tarde, e não aguento ficar na cama. Como se tivesse uma pedra pesada em cima do peito, a esmagar. Essa pedra fica cá dentro todo o dia, o coração bate pesado, todo o dia. E a pressão da pedra, dura, pesada, só alivia à noite, na cama delas, enquanto lhes leio, enquanto as abraço e espero que adormeçam.
Há um milhão de autores que advogam a favor da leitura pelos pais aos filhos à hora de deitar, como ritual de transição entre o dia e a noite. Que é útil para criar laços, que faz bem às crianças. É preciso dizer que este ritual faz bem aos pais também. Nós precisamos dele tanto ou mais que os nossos filhos.
O nosso rirual diário, aquele que não dispensamos nunca, é o de ler às meninas, à hora de deitar. Quando está na hora de deitar, e a hora de ditar é sempre mais ou menos, desligo o telemóvel, visto o pijama e arranjo-me como se fosse hora de me deitar também. Não é e a minha esperança é conseguir adormecer as meninas e voltar para o meu trabalho, que é sempre muito, ou para o meu livro. Mas na verdade adormeço com elas as mais das vezes, por isso me preparo como quem diz até amanhã. Escolhemos o que vamos ler - a pequena, mais segura do seu querer, escolhe conto atrás de conto, ordenando "Lê!". E eu leio. Primeiro a uma, depois a outra, deito-me com uma e abraço-a até que durma, deito-me com outra e abraço-a até que durma. E então é aí. É aí que o tempo pára. Não existe mais nada. Não há testes para corrigir, não há aulas para preparar, não há mails, estados do Facebook, roupa para estender. Nada. Aquela é a minha hora da paz. Percebi isto recentemente com uma clarividência extraordinária. Tenho andado sob uma tensão nervosa tremenda. Tem-me acontecido algo que já me haviam descrito, mas que nunca tinha percebido bem. Acordo de manhã, muito cedo, eu que durmo sempre até tarde, e não aguento ficar na cama. Como se tivesse uma pedra pesada em cima do peito, a esmagar. Essa pedra fica cá dentro todo o dia, o coração bate pesado, todo o dia. E a pressão da pedra, dura, pesada, só alivia à noite, na cama delas, enquanto lhes leio, enquanto as abraço e espero que adormeçam.
Há um milhão de autores que advogam a favor da leitura pelos pais aos filhos à hora de deitar, como ritual de transição entre o dia e a noite. Que é útil para criar laços, que faz bem às crianças. É preciso dizer que este ritual faz bem aos pais também. Nós precisamos dele tanto ou mais que os nossos filhos.
quinta-feira, 28 de junho de 2012
high school - 1957 vs. 2012
Scenario 1:
Jack goes quail hunting before school and then pulls into the school parking lot with his shotgun in his truck's gun rack.
1957 - Vice Principal comes over, looks at Jack's shotgun, goes to his car and gets his shotgun to show Jack.
2011 - School goes into lock down, FBI called, Jack hauled off to jail and never sees his truck or gun again. Counselors called in for traumatized students and teachers.
Scenario 2:
Johnny and Mark get into a fist fight after school.
1957 - Crowd gathers. Mark wins. Johnny and Mark shake hands and end up buddies.
2011 - Police called and SWAT team arrives -- they arrest both Johnny and Mark. They are both charged with assault and both expelled even though Johnny started it.
Scenario 3:
Jeffrey will not be still in class, he disrupts other students.
1957 - Jeffrey sent to the Principal's office and given a good paddling by the Principal. He then returns to class, sits still and does not disrupt class again.
2011 - Jeffrey is given huge doses of Ritalin. He becomes a zombie. He is then tested for ADD. The family gets extra money (SSI) from the government because Jeffrey has a disability.
Scenario 4:
Billy breaks a window in his neighbor's car and his Dad gives him a whipping with his belt.
1957 - Billy is more careful next time, grows up normal, goes to college and becomes a successful businessman.
2011 - Billy's dad is arrested for child abuse, Billy is removed to foster care and joins a gang. The state psychologist is told by Billy's sister that she remembers being abused herself and their dad goes to prison. Billy's mom has an affair with the psychologist.
Scenario 5:
Mark gets a headache and takes some aspirin to school.
1957 - Mark shares his aspirin with the Principal out on the smoking dock.
2011 - The police are called and Mark is expelled from school for drug violations. His car is then searched for drugs and weapons.
Scenario 6:
Pedro fails high school English.
1957 - Pedro goes to summer school, passes English and goes to college.
2011 - Pedro's cause is taken up by state. Newspaper articles appear nationally explaining that teaching English as a requirement for graduation is racist. ACLU files class action lawsuit against the state school system and Pedro's English teacher. English is then banned from core curriculum. Pedro is given his diploma anyway but ends up mowing lawns for a living because he cannot speak English.
Scenario 7:
Johnny takes apart leftover firecrackers from the Fourth of July, puts them in a model airplane paint bottle and blows up a red ant bed.
1957 - Ants die.
2011 - ATF, Homeland Security and the FBI are all called. Johnny is charged with domestic terrorism. The FBI investigates his parents - and all siblings are removed from their home and all computers are confiscated. Johnny's dad is placed on a terror watch list and is never allowed to fly again.
Scenario 8:
Johnny falls while running during recess and scrapes his knee. He is found crying by his teacher, Mary. Mary hugs him to comfort him.
1957 - In a short time, Johnny feels better and goes on playing.
2011 - Mary is accused of being a sexual predator and loses her job. She faces 3 years in State Prison. Johnny undergoes 5 years of therapy.
Jack goes quail hunting before school and then pulls into the school parking lot with his shotgun in his truck's gun rack.
1957 - Vice Principal comes over, looks at Jack's shotgun, goes to his car and gets his shotgun to show Jack.
2011 - School goes into lock down, FBI called, Jack hauled off to jail and never sees his truck or gun again. Counselors called in for traumatized students and teachers.
Scenario 2:
Johnny and Mark get into a fist fight after school.
1957 - Crowd gathers. Mark wins. Johnny and Mark shake hands and end up buddies.
2011 - Police called and SWAT team arrives -- they arrest both Johnny and Mark. They are both charged with assault and both expelled even though Johnny started it.
Scenario 3:
Jeffrey will not be still in class, he disrupts other students.
1957 - Jeffrey sent to the Principal's office and given a good paddling by the Principal. He then returns to class, sits still and does not disrupt class again.
2011 - Jeffrey is given huge doses of Ritalin. He becomes a zombie. He is then tested for ADD. The family gets extra money (SSI) from the government because Jeffrey has a disability.
Scenario 4:
Billy breaks a window in his neighbor's car and his Dad gives him a whipping with his belt.
1957 - Billy is more careful next time, grows up normal, goes to college and becomes a successful businessman.
2011 - Billy's dad is arrested for child abuse, Billy is removed to foster care and joins a gang. The state psychologist is told by Billy's sister that she remembers being abused herself and their dad goes to prison. Billy's mom has an affair with the psychologist.
Scenario 5:
Mark gets a headache and takes some aspirin to school.
1957 - Mark shares his aspirin with the Principal out on the smoking dock.
2011 - The police are called and Mark is expelled from school for drug violations. His car is then searched for drugs and weapons.
Scenario 6:
Pedro fails high school English.
1957 - Pedro goes to summer school, passes English and goes to college.
2011 - Pedro's cause is taken up by state. Newspaper articles appear nationally explaining that teaching English as a requirement for graduation is racist. ACLU files class action lawsuit against the state school system and Pedro's English teacher. English is then banned from core curriculum. Pedro is given his diploma anyway but ends up mowing lawns for a living because he cannot speak English.
Scenario 7:
Johnny takes apart leftover firecrackers from the Fourth of July, puts them in a model airplane paint bottle and blows up a red ant bed.
1957 - Ants die.
2011 - ATF, Homeland Security and the FBI are all called. Johnny is charged with domestic terrorism. The FBI investigates his parents - and all siblings are removed from their home and all computers are confiscated. Johnny's dad is placed on a terror watch list and is never allowed to fly again.
Scenario 8:
Johnny falls while running during recess and scrapes his knee. He is found crying by his teacher, Mary. Mary hugs him to comfort him.
1957 - In a short time, Johnny feels better and goes on playing.
2011 - Mary is accused of being a sexual predator and loses her job. She faces 3 years in State Prison. Johnny undergoes 5 years of therapy.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Saramago no exame de sexto ano
Foi muito antes das minhas andanças mais a sério pelos contos e pelos projectos de leitura. Não me pareceu que os alunos tivesem gostado assim lá muito. Não foi por isso, mas a verdade é que eu nunca li este livro aos alunos que estão agora a fazer exame. Nem lhes mostrei o filme, uma curta-metragem disponível no YouTube, mas que tenho gravada no meu pc. Já me fartei de dar com a cabeça na parede.
Se é difícil? É um texto literário, dos literários a sério. Não oferece uma leitura imediata, é mais para quem lê a sonhar. Como diz a professora da minha filha: não é para ser lido, é para ser ouvido. Resta-me saber se os meus aunos são capazes de ler como quem ouve. Não sei se o texto foi escrito para ser lido por crianças, talvez esteja mais pensado para ser lido a crianças. Por um adulto. Por um adulto que já o tenha lido, ou que tenha a capacidade de ir lendo antes, para depois ler. É lindo. É muito lindo. E se for bem lido não é nada difícil. Já foi lido na sala da minha filha, que anda no primeiro ano. E eles adoraram.
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quinta-feira, 14 de junho de 2012
um post inútil
A ideia fixa. Ou a mania, chamem-lhe o que quiserem. Panca - talvez seja mais adequado.
Cada um tem a sua. Panca. Ou as suas. Manias. E quem atira a primeira pedra?
Não sou mulher de pressentimentos, o que me irrita sobremaneira. Gostava de ter pressentimentos, daqueles que me ajudassem a decidir o que fazer ou não fazer. Ainda hoje, fui à escola da minha filha, poucos minutos antes de iniciarem as aulas da terde, só para lhe dar um beijo. Nunca tal tinha feito e, posto que as aulas acabam amanhã, não volto a fazer, pelo menos não este ano. Foi uma coisa que me apeteceu fazer assim de repente e, como tinha tempo, lá fui. Mas não ia bem, não vim bem e não vou bem, quando for para as reuniões que ainda me esperam hoje. Olho por cima do ombro, à procura de alguma coisa que me explique por que fiz aquilo. Assim como se fosse acontecer alguma coisa má, sei lá.
Sonho muito. Sonho tanto, que às vezes parece que não durmo. E sonho coisas más, daquelas que nos tiram o sono, que incomodam. Só sonho asneiras, sobretudo se dormir muito. Visto que durmo muito pouco, podia sonhar pouco também, mas não. E acordo angustiada. Ando angustiada dias seguidos por causa do que sonho noites seguidas.
Então um dia eu tive um sonho.
Estava, na altura, grávida da minha grande.
Sonhei que ma tinham levado. Assim, porque foi assim. Não sonhei que ela tinha sido raptada, que me tinha esquecido dela, nada disso. Sonhei que ma levaram.
A bem da verdade, nem sequer sei se foi assim. Não me lembro se sonhei ou se pensei. Pouco importa, agora.
Contei à minha mãe, que é uma mania que eu tenho, conto-lhe tudo. Ela entrou em pânico e achou que eu não podia ficar sozinha no hospital, quando ela nascesse. Decidiu que ficava comigo. Fomos para um quarto particular, não para a enfermaria, que não há excepções para minguém.
Nunca aconteceu nada a nenhuma das minhas filhas, mas a segurança delas é uma preocupação constante. Uma obcessão. E estou sempre a pensar que hoje em dia corremos, correm as nossas crianças, muitos riscos, muito diferentes dos que nós corríamos quando tínhamos a idade delas.
Não consigo perceber as pessoas que colocam fotografias dos filhos - ou de crianças em geral - na Internet, particularmente em redes sociais. Não consigo entender que mais é preciso para perceberem que representa um risco real. As crianças ficam mais vulneráveis, tornam-se alvos mais fáceis. E, para agravar, colocam fotografias suas com os filhos, facilitando ainda mais a identificação de um com o outro. Não têm medo? Eu sou paranóica? Talvez, mas deixem-me estar assim.
Baralha-me mais ainda quando colocam fotos em que se vêem outras crianças. Com que direito colocam na net fotos de filhos que não são seus? Não, que eu saiba, que eu tenha visto, não há fotos das minhas filhas em parte nenhuma. (Se alguém souber de alguma, peço por favor que me avise, para eu tratar de tirar.) Por não existirem fotos em que elas apareçam, dizem-me, não tenho de me preocupar. Não concordo. Não concordo, porque o facto de não haver hoje não significa que não haja amanhã. E como evitar? A verdade é que não posso evitar. Não as tenho dentro de uma redoma, nem pensar: elas saem, vão a festinhas de aniversário de amigos, participam nas festas das respectivas escolas.
Ora aí é que está. Aproximam-se as festas de fim de ano. Um pai, uma mãe que ache normal (eu diria que acham giro) colocar fotos dos rebentos para o mundo inteiro ver pode colocar uma foto em que estejam outras crianças. Como impedir? Não há como impedir. Pode fazer-se um apelo às pessoas, para que sejam cuidadosas. Na minha opinião devia ser possível proibir os pais de colocarem fotos dos filhos na Internet, porque o primeiro dever dos pais é proteger os filhos e a exposição demasiada é um problema muito grande. Mas, para não colocarem fotos de outras crianças deveria bastar um poucochinho de bom senso. Nem era preciso muito. Arguentam-me com frequência que outras crianças não são reconhecíveis. A minha pergunta é só esta: Juras? Não são reconhecíveis a quem? A um triste mortal, como é a maior parte de nós, ou a uma pessoa que anda na net dia e noite a fazer o que nem gostamos de saber que existe? É que eles andam aí. Não, não acredito nem em marcianos nem que o mundo acabe hoje o fim da tarde. Mas sei, porque leio notícias, porque vou vendo alguma televisão, porque trabalho com crianças (que já receberam formação sobre como utilizar a Internet) que há pessoas que não gostam de crianças e que lhes querem fazer mal.
Pela parte que me toca, quero proteger as minhas filhas. Não numa redoma, mas quero protegê-las.
As outras pessoas, façam como quiserem. Pelo sim, pelo não, aqui fica o endereço de um site muito útil, cuja consulta recomendo vivamente: Miúdos Seguros na Net.
E cá está o meu post inútil. Porque vai ser lido por tão poucas pessoas. É apenas mais uma gota de água num imenso oceano. Uma gota de água de quem rema contra a corrente.
Cada um tem a sua. Panca. Ou as suas. Manias. E quem atira a primeira pedra?
Não sou mulher de pressentimentos, o que me irrita sobremaneira. Gostava de ter pressentimentos, daqueles que me ajudassem a decidir o que fazer ou não fazer. Ainda hoje, fui à escola da minha filha, poucos minutos antes de iniciarem as aulas da terde, só para lhe dar um beijo. Nunca tal tinha feito e, posto que as aulas acabam amanhã, não volto a fazer, pelo menos não este ano. Foi uma coisa que me apeteceu fazer assim de repente e, como tinha tempo, lá fui. Mas não ia bem, não vim bem e não vou bem, quando for para as reuniões que ainda me esperam hoje. Olho por cima do ombro, à procura de alguma coisa que me explique por que fiz aquilo. Assim como se fosse acontecer alguma coisa má, sei lá.
Sonho muito. Sonho tanto, que às vezes parece que não durmo. E sonho coisas más, daquelas que nos tiram o sono, que incomodam. Só sonho asneiras, sobretudo se dormir muito. Visto que durmo muito pouco, podia sonhar pouco também, mas não. E acordo angustiada. Ando angustiada dias seguidos por causa do que sonho noites seguidas.
Então um dia eu tive um sonho.
Estava, na altura, grávida da minha grande.
Sonhei que ma tinham levado. Assim, porque foi assim. Não sonhei que ela tinha sido raptada, que me tinha esquecido dela, nada disso. Sonhei que ma levaram.
A bem da verdade, nem sequer sei se foi assim. Não me lembro se sonhei ou se pensei. Pouco importa, agora.
Contei à minha mãe, que é uma mania que eu tenho, conto-lhe tudo. Ela entrou em pânico e achou que eu não podia ficar sozinha no hospital, quando ela nascesse. Decidiu que ficava comigo. Fomos para um quarto particular, não para a enfermaria, que não há excepções para minguém.
Nunca aconteceu nada a nenhuma das minhas filhas, mas a segurança delas é uma preocupação constante. Uma obcessão. E estou sempre a pensar que hoje em dia corremos, correm as nossas crianças, muitos riscos, muito diferentes dos que nós corríamos quando tínhamos a idade delas.
Não consigo perceber as pessoas que colocam fotografias dos filhos - ou de crianças em geral - na Internet, particularmente em redes sociais. Não consigo entender que mais é preciso para perceberem que representa um risco real. As crianças ficam mais vulneráveis, tornam-se alvos mais fáceis. E, para agravar, colocam fotografias suas com os filhos, facilitando ainda mais a identificação de um com o outro. Não têm medo? Eu sou paranóica? Talvez, mas deixem-me estar assim.
Baralha-me mais ainda quando colocam fotos em que se vêem outras crianças. Com que direito colocam na net fotos de filhos que não são seus? Não, que eu saiba, que eu tenha visto, não há fotos das minhas filhas em parte nenhuma. (Se alguém souber de alguma, peço por favor que me avise, para eu tratar de tirar.) Por não existirem fotos em que elas apareçam, dizem-me, não tenho de me preocupar. Não concordo. Não concordo, porque o facto de não haver hoje não significa que não haja amanhã. E como evitar? A verdade é que não posso evitar. Não as tenho dentro de uma redoma, nem pensar: elas saem, vão a festinhas de aniversário de amigos, participam nas festas das respectivas escolas.
Ora aí é que está. Aproximam-se as festas de fim de ano. Um pai, uma mãe que ache normal (eu diria que acham giro) colocar fotos dos rebentos para o mundo inteiro ver pode colocar uma foto em que estejam outras crianças. Como impedir? Não há como impedir. Pode fazer-se um apelo às pessoas, para que sejam cuidadosas. Na minha opinião devia ser possível proibir os pais de colocarem fotos dos filhos na Internet, porque o primeiro dever dos pais é proteger os filhos e a exposição demasiada é um problema muito grande. Mas, para não colocarem fotos de outras crianças deveria bastar um poucochinho de bom senso. Nem era preciso muito. Arguentam-me com frequência que outras crianças não são reconhecíveis. A minha pergunta é só esta: Juras? Não são reconhecíveis a quem? A um triste mortal, como é a maior parte de nós, ou a uma pessoa que anda na net dia e noite a fazer o que nem gostamos de saber que existe? É que eles andam aí. Não, não acredito nem em marcianos nem que o mundo acabe hoje o fim da tarde. Mas sei, porque leio notícias, porque vou vendo alguma televisão, porque trabalho com crianças (que já receberam formação sobre como utilizar a Internet) que há pessoas que não gostam de crianças e que lhes querem fazer mal.
Pela parte que me toca, quero proteger as minhas filhas. Não numa redoma, mas quero protegê-las.
As outras pessoas, façam como quiserem. Pelo sim, pelo não, aqui fica o endereço de um site muito útil, cuja consulta recomendo vivamente: Miúdos Seguros na Net.
E cá está o meu post inútil. Porque vai ser lido por tão poucas pessoas. É apenas mais uma gota de água num imenso oceano. Uma gota de água de quem rema contra a corrente.
domingo, 10 de junho de 2012
surprise, surprise!
Uma amiga puclicou no Facebook que este livro estava baratíssimo. Dada a publicidade que todas elas tinham feito, apressei-me a anunciar que ia finalmente comprá-lo. Só que o preço para tristes europeus não tinha descido assim tanto... E lá anunciei que ficaria para outra vez...
Ela, que tinha ficado toda contente, porque os nossos gostos costumam coincidir, pediu-me o meu endereço de email e disse que mo enviava. (Ela conhece uma maneira que eu não conheço.)
Qual não é o meu espanto quando, pouquíssimos minutos depois, recebo um presente. Um mail da Amazon com o livro prontinho, só pra mim! Bastou ligar o Kindle e já lá estava! (Eu contava que tivesse sido de outra maneira...)
Adoro estas novas tecnologias.
Ela, que tinha ficado toda contente, porque os nossos gostos costumam coincidir, pediu-me o meu endereço de email e disse que mo enviava. (Ela conhece uma maneira que eu não conheço.)
Qual não é o meu espanto quando, pouquíssimos minutos depois, recebo um presente. Um mail da Amazon com o livro prontinho, só pra mim! Bastou ligar o Kindle e já lá estava! (Eu contava que tivesse sido de outra maneira...)
Adoro estas novas tecnologias.
terça-feira, 5 de junho de 2012
catarse
Do grego kátharsis, «purificação»
s. f.
| 1. | purificação emocional |
| 2. | LITERATURA (Aristóteles) purgação das paixões do público em face das emoções fortes (horror, piedade, etc.) evocadas numa tragédia |
| 3. | (Antiguidade) cerimónias religiosas de purificação |
| 4. | PSICOLOGIA terapêutica psicanalítica que pretende o desaparecimento de sintomas pela exteriorização verbal, dramática,emocional de traumatismos recalcados |
| 5. | MEDICINA evacuação |
Vem a propósito de uma reportagem na Revista do Público de hoje, "O fim da amizade é um tabu".
Mesmo.
Eu sou uma dessas que sofreu o fim de uma amizade. Não trato o tema como um tabu. Pelo contrário, falo muito do assunto, com muita paixão. Não posso dizer que não compreendo o que se passou, porque acho que sei perfeitamente o que foi. Não perdoo. Nunca. (E conheço-me o suficiente para saber que este nunca quer dizer mesmo nunca.)
Um dos meus lugares-comuns preferidos é o seguinte. A Humanidade está dividida em três grandes grupos: os que têm filhos, os que não têm filhos e os que têm escrito na testa que nunca na vida terão filhos. Nem que chovam picaretas.
O primeiro grupo somos nós, claro. Nós, que sabemos o que é não dormir e andar feliz com isso. Nós, que sabemos a que horas nos deitamos, mas nunca por nunca temos a mais pálida ideia de quanto tempo vamos dormir seguido. (E que mesmo assim estamos aqui a estas horas...) Nós, que corremos para o Infantário, mesmo sabendo que a partir daí não teremos mais sossego. Nós, que os enchemos de beijos, mesmo quando nos estão a arruinar mais uma noite de sono entre um dia de enxaqueca de morrer e outro de maratona de reuniões. Nós, que sabemos ao que sabe "aquele abraço".
O segundo grupo é o das pessoas que não têm filhos pelas razões mais variadas, ou que ainda não têm filhos.
Depois há os outros, os das teorias, o do preto e branco. Li há muitos anos uma citação fantástica (sim, sou a mulher das citações): "Antes de casar, eu tinha cinco teorias sobre como educar os filhos. Agora, tenho cinco filhos e nenhuma teoria." Nem de propósito: o número de filhos exacto para que cada um desse conta de uma teoria inteirinha. Os que não sabem que a maternidade é a eterna aprendizagem da arte da cedência: ceder onde? quanto? Não ceder onde? intransigentemente? Ter filhos transforma a nossa vida numa paleta de cores de fazer inveja ao próprio arco-íris.
Ela pertence a este grupo, o das teorias. Tinha uma perfeitamente lunática: "Quando ela puder começar a comer bolachas, claro que não lhe vais comprar, vai fazer em casa, para serem mais saudáveis!" Excuse me...?! E o tempo, santinha, o tempo? (E a necessidade, vá?)
Mas ainda antes dos filhos. Muito antes dos filhos. Que eu tenho e ela não. (Tem o tal carimbo na testa.)
Sinto-me usada. Sinto que me usou enquanto precisou e depois pôs na beira do prato. Assim. Esteve sozinha muito tempo, fez da minha casa quartel-general, fiz-lhe mais companhia do que devia, essa é que é essa. Depois tive a minha primeira filha, convidei-a para madrinha, porque era a pessoa mais próxima, fez muita questão do baptizado, coisa que eu até nem fazia, e, duas semanas antes do baptizado, desencalhou, quer dizer: arranjou namorado novo, nunca mais apareceu. Nunca mais quer dizer duas vezes por ano, em média. Por exemplo, não vê a afilhada desde antes do Natal. (Recordo que estamos em Junho.)
Se não me engano, deve ter ficado muito sentida comigo por este motivo extraordinário: morreu om meu sogro, fez hoje dois meses. E eu que nem lhe tinha dito que ele estava doente... Soube dois dias antes, telefonou na véspera com um daqueles então-que-se-passa? melosos de quem está a pensar numa coisa completamente diferente, tipo long-time-no-see, em vez de um senhor submetido diariamente a radioterapia.
Mas quer dizer... achava que lhe ia ligar a expor o sofrimento do meu sogro, de nós todos? Não fizemos isso. Nem com ela nem com ninguém. Uma das coisas que as pessoas merecem quando estão doentes é privacidade.
Que queria aparecer, que tem a prenda para a Margarida, que não estava cá no próximo fim de semana, que não ficasse à espera que ela ligasse e que ligasse eu também E lá vai mais de um mês e meio. Santa paciência. Seria tão bom que as pessoas que desaparecm tivessem pelo menos a decência de desapareceram... O que não perdoo é a minha filha a perguntar por que é que ela não aparece. Não perdoo a mim própria. Que estúpida.
quarta-feira, 30 de maio de 2012
e-books, o veredicto
Depois de muita hesitação, muita pesquisa, muita hesitação, lá me decidi. Comprei um Kindle, como é do conhecimento geral. Vai pra dois anos. Ao fim de dois anos já se pode fazer um balanço? Pode pelo menos fazer-se um balanço destes dois anos, digo eu. Então cá vai.
1. Tenho lido muito mais. Embora não esteja nem perto do número de livros que lia na minha outra encarnação (leia-se antes de ter filhas), a verdade é que tenho lido muito mais do que nos dois anos anteriores. Um dos motivos está relacionado com o número dois.
2. É muito mais portátil do que um livro. Muito mais. Logo para mim, que sou mais que maníaca no que diz respeito à boa utilização dos livros. A sério: acabo de ler um livro e ele está tão impecável como na prateleira da livraria. O que não aconteceria se andasse com ele na carteira o dia todo. O Kindle anda na carteira, sempre, devidamente protegido com uma capa fantástica e não fica amolgado, amassado, cantos dobrados, nada disso. E, melhor ainda: não é um livro, mas centenas deles. Bem mais de quatrocentos. O que é particularmente importante quando se vai de férias e se tem de levar uma quantidade enorme de livros para as meninas, para o marido... Pelo menos os meus não ocupam espaço e tenho um leque de escolha muito mais vasto.
3. Não é preciso carregar. Praticamente. Uma das dificuldades na determinação do tempo de duração da bateria do Kindle é precisamente o facto de os utilizadores frequentemente não se recordarem da última vez que o carregaram.
4. Tal como num livro físico, não há factores de distração, como as notificações a dizer que não-sei-quem comentou não-sei-quê no Facebook, um pii a dizer que chegou um mail, nada disso. Estou a falar de um aparelho para ler livros apenas e só, um daqueles que, como disse o Miguel Esteves Cardoso, não é para quem não gosta de ler.
5. É muito mais confortável do que um livro para ler na cama. Por causa do virar da página, por causa da página da esquerda e da página da direita. Mas sobretudo no Inverno, quando está frio. Nem é preciso tirar a mão do quentinho.
6. Mas. Há sempre um mas. Recordo a pergunta esapafúrdia da minha (não muito) saudosa professora de Português do sétimo ano, enquanto conversávamos sobre o que eu tinha lido durante as férias: "E recordas-te de algum título?" Hein?! Se me recordava de algum título? Só de todos. E de todos os autores. Pois, esta parte não é assim tão fácil com o Kindle. Quando o bicho adormece, fica a contemplar-nos o retrato de um escritor famoso. Clássico. Já morto. Há duas ou três outras imagens, mas nada mais. Muitos têm sugerido que o protector de ecrã seja a capa do livro que se está a ler e eu começo a concordar completamente. Mais: peço que assim seja. É terrível gaguejar no nome de um autor, muitas vezs de um livro que se está a adorar e só consigo explicar que isto me aconteça porque não vejo a capa do livro. Parece pieguice, mas a sério que não é. De certa forma, os livros tornam-se impessoais. Como se não tivessem rosto. E não é por não se passar a página com os dedos, mas com um clique, não é pelo cheiro, que também faz falta mas não é bem assim. É mesmo o rosto que lhes falta.
terça-feira, 29 de maio de 2012
a palavra de ordem
Abuso de poder? Abuso de autoridade? De autoridade, certamente, não... Não a tem. Mas tem poder, isso sim. Quer dizer: não tem poder, mas age como se tivesse e a impressão que todos temos é que o seu poder é real. Era, talvez. É minha convicção que está a perder terreno, a própria o sente, parece-me. Mas a verdade é que de vez em quando corta e prega a seu bel-prazer, sem dizer nada. E que a palavra de ordem é poupar. Calma, nem tanto. Eu passo horas na bricolage, para poupar uma fotocópia, às vezes meia. Mas reduzir quatro páginas A4 a uma página só é mais do que eu tenho paciência para aturar. Não pode ser. Ainda por cima porque foi uma redução completamente arbitrária: nem houve o cuidado de eliminar as margens, enormes, nem de escolher a página com menos texto, ou com menor quantidade de texto importante. Foi a direito. Depois tirou novas fotocópias, foi quanto poupou.
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terça-feira, 22 de maio de 2012
não escrevo em acordês
Aqui escreve-se, escrever-se-á sempre, em Português. Em bom Português. (Tenta-se)
Pode, portanto, concluir-se que aqui o povo é CONTRA o AO90. Muito contra. Tão contra que, no Facebook já pertenço a dois ou três grupos anti-acordistas. Já tenho amigos anti-acordistas. Já pus muita gente a assinar a ILC contra o AO. Escrevi ao Ministro da Educação e Ciência a apoiar a carta de Madalena Homem Cardoso. É verdade: como mãe e encarregada de educação preocupa-me que as minhas filhas aprendam a escrever com erros ortográficos. Ainda há dias mandei pôr o acento na "joia" que o Zequinha oferecia à fada. Ela avisou-me que no livro não tinha acento e eu disse-lhe que pusesse no livro também.
Quem quiser assinar a ILC diga. Ou quem quiser saber o que é. Estou completamente informada sobre o assunto.
Dizem-me que é tarde, mas eu continuo esperançada, mais esperançada ainda desde a poderosa pedrada no charco que foi a atitude de Vasco Graça Moura ao retirar o conversor ortográfico dos computadores do Centro Cultural de Belém nada mais tomar posse. Nunca poderemos, nós, Portugueses, agradecer-lhe o suficiente. Parafraseando Helena Matos, num texto a respeito de outro disparate pegado que não vem ao caso, eu, que sou empedernidamente optimista, acredito. Este famigerado AO90 vai morrer na praia. À sede.
Para meu grande espanto, não é fácil falar sobre este assunto. Muitas pessoas acham que não lhes diz respeito. Respondem com um encolher de ombros e informam que continuarão a escrever como sempre. Para estas, desculpem-me o comentário mauzinho, foi muito bom que o AO tenha sido implementado, porque de repente viram os filhos chegar a casa com os trabalhos da escola cheios de erros, porque os livros da escola passaram a ter erros - e assim perceberam que o assunto lhes diz respeito sim. E muito.
Uma das pessoas que me dizia que não era com ele respondeu-me "Que caos!" quando lhe mostrei isto. (Divirtam-se também. A sério que é hilariante. De quantas maneiras podemos escrever "correctamente" um endereço numa carta? Vá! Aceitam-se apostas!)
Uma das coisas que fiquei a saber através da carta de Madalena Homem Cardoso (quem me dera tê-la escrito...) foi que posso recusar-me a usar a nova grafia invocando objecção de consciência. Para que fique bem claro: eu enquadro-me perfeitamente no grupo dos objectores de consciência. Faço o que posso, juro que faço o que posso. Por exemplo: há já muitos anos, nas aulas de Língua Portuguesa, escrevo a data por extenso, com dia da semana, mês, tudo. Este ano regressei ao formato 22/05/2012. Porquê? Porque me recuso a escrever o mês com letra minúscula. Ponto.
Tenho lido, sobretudo no Facebook, que os professores deviam fazer uso do seu direito à desobediência civil (consagrado na nossa Constituição, fiquei a saber) para não seguirem a nova ortografia, visto que temos uma responsabilidade acrescida nisto do ensino da escrita. Pois. O pior é que não se reaprende a escrever de um momento para o outro (desaprende talvez seja mais adequado) e em 2014 todos os estudantes serão obrigados a responder a todas as provas de carácter nacional com erros ortográficos. E qual é o pai que, por muito descordista que seja, engolirá o sapo de ver o filho fora da Universidade por causa de umas décimas que o professor corrector lhe descontou em nome da desobediência ao texto do acordo? Isto é muito complicado. Eu não uso a nova grafia. Os meus alunos, embora muito jovens ainda, sabem que não uso e sabem porquê. Mas até quando poderei manter esta posição?
Somos um povo de emoções fortes. Regozijámo-nos com a consagração do Fado como Património Imaterial da Humanidade. A nossa Língua Portuguesa é maior do que o Fado, permitam-me. Vamos deixar que meia dúzia de irrresponsáveis levem a melhor, em nome de uma modernização que ninguém entende (que vai pôr Portugal inteiro a escrever com erros, a ler mal), movidos pelo dinheiro que algumas editoras vão ganhar com a venda de novos dicionários? É verdade: já se gastou muito dinheiro. Mas vai gastar-se muito mais dinheiro ainda, ou reparem: aqueles que têm filhos a aprender a ler acham bem que os livros da biblioteca da escola não estejam escritos de acordo com a ortografia vigente? Não há melhor meio para aprender a escrever do que a leitura. Se isto da nova (dis)ortografia for mesmo para a frente - eu acredito que ainda não está - as bibliotecas escolares serão lixo. As biblioteas escolares irão inteiras para o lixo.
Por favor, assinem a ILC. Para sermos muitos e acabar este meu (nosso) pesadelo. Porque eu a sério que acredito que vamos a tempo.
segunda-feira, 21 de maio de 2012
sábado, 19 de maio de 2012
na cozinha
Há dias estive para escrever isto, mas depois passou... Passou um segundo e já não escrevi nada.
Tinha feito uma massa com um daqueles molhos básicos, de tomate e azeite, e tinha sobrado imenso. Há que recordar: antes faça mal que se perca, não se deita comida ao lixo, etc. Então, para o jantar do dia seguinte, era preciso aquecer a massa, o que não se afigurava fácil, porque já tinha azeite e tomate chucha em cubos, numa recriação da bruschetta al pomodoro. Então, pensando nas massas que se converteram no meu novo fast food preferido, aqueci um pouco de azeite, acrescentei fiambre ao cubos (sort of), atum, milho, cogumelos e a massa, que já continha o tomate aos cubos.
Ficou. Uma. Delícia. Não é para me gabar. Uma massa aquecida que consegue ser um improvement em comparação com a da refeição original.
Nota: Não, não é a da foto.
fazes-me falta
Não, não falo do livro de Inês Pedrosa. Falo de uma amiga que me incita a escrever aqui.
Ela tenta fazer de mim uma blogger assídua, mas eu sou muito pouco disciplinada, essa é que é a verdade. Durante o dia, o tempo é pouco, que é como quem diz, quase nenhum. Depois do trabalho, é pura e simplesmente mentira. No fim das aulas sento-me durante uns segundos, que está para começar a maratona. Leia-se sentar em sentido figurado, que não tenho tempo para tais luxos.
Saio das aulas estourada. Tão estourada que a minha rotina de regresso a casa é diferente da de muitas pessoas que conheço, a começar pelo maridão. Quase todas as pessoas gostam de ouvir rádio no carro. Ou música. Que é uma forma de relaxar. Ele, que vai e vem da Maia todos os dias, aproveita o tempo para ouvir (alguma) da música que adora e que nunca tem tempo para ouvir em casa. Há quem se mantenha a par das últimas notícias, quem ouça informações de trânsito. Estas então a mim não me interessam mesmo nada. As estradas que me tocam, nas idas e vindas, são a)imunes a engarrafamentos ou b)pequenas de mais para serem contempladas nos noticiários das estações de rádio.
Tenho música, muita, de muito boa qualidade, que isso o maridão não descuida, mas não. Não ouço nada. Nos meus vinte minutos de carro duas vezes por dia, tudo o que me acompanha é o silêncio. O silêncio que idolatro, porque é algo só tenho mesmo durante aqueles bocadinhos. Nem antes, nem depois. Os meus dias são recheados de barulho. Em casa, as meninas, embora, faça-se justiça, não muito, ultimamente, de manhã. Na escola, os alunos. Nas aulas, na cantina, durante a hora de almoço, nos corredores, sempre. E de novo as meninas, agora sim, barulhentas, reivindicativas, pegadas uma com a outra, como irmãs que se prezam.
Ficamos então com as noites, para escrever, ler e todas as outras coisas que faríamos o dia inteiro se não tivéssemos de trabalhar. As noites? Quais? Aquelas em que adormecemos com as meninas, ora com uma, ora com a outra? E é que agora adormecemos os dois, um com cada uma... Não, as noites não são uma hipótese. Ou porque acordo toda partida às quatro da manhã, caso em que me apresso a meter-me na minha cama, para não "espalhar o sono", ou porque não adormeci com elas e aproveito para corrigir mais algumas composições, as minhas eternas composições. E, para dificultar ainda mas, decidi deixar de me deitar a horas pornográficas. Não consigo sempre. Não tenho suficiente força de vontade, mas ligar o computador é uma tentação a que tento resistir.
Bom, mas prometo. Prometo. Vou tentar escrever mais.
sábado, 21 de janeiro de 2012
Largo do Toural, meu amor
Ana Josefa Rosa nasceu no número 104 do Largo do Toural. No rés-do-chão haveria de ser o Nicolino, em frente ao Ferreira da Cunha, mas isso daí a uns anos. Nunca foi uma assídua frequentadora do café, não ficava bem a uma menina, mas não resistia a um galão com uma torrada ao regressar do mercado, às quintas de manhã. Outras saídas, pouco mais do que ao Oliveira e Silva dos tecidos. As raras visitas que lá fazia eram antecipadas com a emoção do anúncio solene:
- Na próxima semana vamos comprar pano para vestidos novos.
Era uma alegria atravessar a praça pela calçada cheia de história, com cuidado para não pisar as armas. Não mais sossegavam as meninas. Pela vaidade da nova toilette, à espera de ocasião que a merecesse, mas também por saberem que a Mariquinhas costureira lhes havia de aproveitar as sobras dos vestidos para as bonecas.
Os dias da meninice passaram sem outra distracção que não fosse a de ir à janela ver quem ia e vinha, quem entrava e saía das lojas, o mudar das cores das árvores e o colorido das flores, sempre lindas, viçosas. O que de verdade quebrava a rotina do dia a dia era o bater dos sinos na igreja, cantando o hino aos bocadinhos. Ao meio-dia, para o ouvir inteiro, fazia-se silêncio em casa. Um silêncio de cada um, que não era hora de parar as tarefas da preparação do almoço – o pai não tardava a chegar. As tardes gostava de as passar à janela, bordando, caseando botões, sempre espiando as janelas da frente e ansiando lá viver para ver de frente a igreja, a que acudia todas as primeiras sextas-feiras do mês, para se confessar.
Foi viver para outra fachada, de facto, embora não a da frente, mas podia já ver a igreja. Melhor: via começar a alameda e a grande avenida. Isso foi quando casou. Aí teve os filhos, três, que a vida já não permitia os sete que a mãe tivera. Era um bom sítio para os catraios, que iam e vinham da escola, para a rua com os amigos, que estavam sempre por ali, de passagem de e para toda a parte. Haveria lugar mais central no mundo, mais bonito de se ver das janelas, perguntava-se Ana Josefa Rosa, sorrindo, esperando por netos que levasse a passear, sentar nos bancos do jardim a dar migalhas aos pombos. Haveria, com certeza, mas não chegou a conhecê-los. Faltava o dinheiro, sem dúvida, mas sobretudo a vontade de sair de casa. Os antigos eram assim. Quando muito ia à Póvoa, molhar os pés no Verão.
A notícia parou-lhe o coração. Os filhos, um em cada lado, em apartamentos modernos, conversaram e decidiram: era melhor e escolheram-lhe o melhor. Explicaram-lhe devagar que não podia subir e descer aquelas escadas todas, uma sala em cada piso, a cozinha em cima, o quarto em baixo, essas coisas. Não ouviu. Aquele não ouvir de quem quer que não seja verdade. No dia marcado, vieram, meteram numa mala o que acharam que era preciso. Meteram na mala tudo menos o que era preciso. De vez em quando, quando um aparecia, pedia-lhe que a levasse a ver o Toural. Que sim, um dia destes, quando vier com mais vagar. Esse dia tardou tanto a chegar que desistiu da espera. E quando vieram com tempo, sem nada para que correr, não foi para a levarem ao Toural. Também não tinha assim tanta importância, afinal.
quarta-feira, 30 de novembro de 2011
o Pinheiro
Não há noite mais importante para um estudante de Guimarães. Mesmo o meu pai, em quem Deus se esqueceu de incluir a costela boémia, acha inconcebível, imperdoável, que um estudante de Guimarães não saiba dizer, mesmo a dormir, a data do Pinheiro. Há muitos anos que não, mas recordo-me de o ver sair nesta noite. Nesta e em nenhuma outra. A não ser que estivesse de urgência. Levava o barrete verde e vermelho da praxe, religiosamente guardado na gaveta durante todo o resto do ano, e em que estávamos proibidas de mexer. O papá sair para uma festa de barulho e excessos, ele que odeia barulho e nunca, por nunca, foi de excessos. Não que na altura soubéssemos já o tipo e a quantdade dos tais excessos. Só muitos anos mais tarde tivemos direito a ver também. Começava com o jantar de rojões, papas, castanhas assadas, regado com vinho verde. No Jordão, naturalmente.
É preciso dizer: esta é a noite de pesadelo de quem trabalha no hospital, sobretudo no serviço de Urgência. Pela hora do jantar, começam a entrar os que se excederam mais do que deviam e o cortejo de vómitos não acaba até meio da manhã do dia seguinte. Dobra-se o pessoal de serviço, é bem preciso.
Mas a verdade verdadeira é que não há nenhum (antigo) estudante de Guimarães que não guarde pelo menos uma boa recordação, de pelo menos uma noite de Pinheiro bem passada.
As minhas melhores recordações do Pinheiro datam de 1990 e de 1991. A primeira é a do Pinheiro do meu 12º ano; a segunda, do meu primeiro ano de Faculdade. Vim a Guimarães de propósito, claro está, coisa que, no Porto, nem todos compreenderam.
O meu dia, ou, melhor dizendo, a minha tarde de 29 de Novebro de 1990 foi longa. Penosamente longa.
Tinha dezassete anos, comeara a usar óculos duas ou três semanas antes e nessa tarde, na paragem de autocarro, dirigindo-me a casa, debati-me com a maior dor de cabeça que sentira em toda a vida. Não sabia o que fazer. Tirei os óculos, voltei a colocá-los, quem usa sabe que a adaptação pode ser difícil, demorada. Era possível que a minha dor de cabeça se devesse ao óculos. Cheguei a casa para encontrar apenas a avó, que a mamã tinha saído. Protestava, a minha avó, como sempre que a mamã saía: está sempre lá fora. Mas não demorou a chegar. Na verdade, decidindo que o que a ausentava de casa não valia a pena, dera a volta na primeira esquina e estava de regresso. Percebeu de imediato que eu tinha uma terrível enxaqueca (detesto esta palavra), a primeira de muitas, tantas que já lhes perdi a conta. Com a mesma idade que ela. Dezassete anos. Há heranças que se dispensavam. Meteu-me na cama, quente, deu-me comprimidos, que tomei sem perguntar o que eram. E chá. E ali ficou, sentada aos meu pés, a ver como evoluía. Entretanto, ia-me contando da sua vasta experiência na matéria. "Sabes de que tenho medo quando estou assim? de uma hemorragia cerebra, de um AVC." Pois. Eu ali, sem poder mexer-me, e ela ia desfiando o rol de coisas terríveis que podiam, improvavelmente, acontecer. Passaram várias horas, a dor de cabeça foi embora à força de tanta droga, dando espaço à minha preocupação mais importante do dia: eu tenho de ir ao Pinheiro. Tu não bebas nada, dizia-me a minha mãe. Nem uma coca-cola. Com as coisas que tomaste, beber é muito perigoso. Lá fui. Cumpri à risca, claro. Nem sumo de laranja arrisquei. Bebi só água. E diverti-me como em nenhuma outra noite em toda a minha vida, até hoje, vinte e um anos depois.
Voltei a casa no autocarro do meio-dia.
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