Woman reading

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Alexander Deineka

quarta-feira, 30 de maio de 2012

e-books, o veredicto


Depois de muita hesitação, muita pesquisa, muita hesitação, lá me decidi. Comprei um Kindle, como é do conhecimento geral. Vai pra dois anos. Ao fim de dois anos já se pode fazer um balanço? Pode pelo menos fazer-se um balanço destes dois anos, digo eu. Então cá vai.


1. Tenho lido muito mais. Embora não esteja nem perto do número de livros que lia na minha outra encarnação (leia-se antes de ter filhas), a verdade é que tenho lido muito mais do que nos dois anos anteriores. Um dos motivos está relacionado com o número dois.


2. É muito mais portátil do que um livro. Muito mais. Logo para mim, que sou mais que maníaca no que diz respeito à boa utilização dos livros. A sério: acabo de ler um livro e ele está tão impecável como na prateleira da livraria. O que não aconteceria se andasse com ele na carteira o dia todo. O Kindle anda na carteira, sempre, devidamente protegido com uma capa fantástica e não fica amolgado, amassado, cantos dobrados, nada disso. E, melhor ainda: não é um livro, mas centenas deles. Bem mais de quatrocentos. O que é particularmente importante quando se vai de férias e se tem de levar uma quantidade enorme de livros para as meninas, para o marido... Pelo menos os meus não ocupam espaço e tenho um leque de escolha muito mais vasto.


3. Não é preciso carregar. Praticamente. Uma das dificuldades na determinação do tempo de duração da bateria do Kindle é precisamente o facto de os utilizadores frequentemente não se recordarem da última vez que o carregaram.


4. Tal como num livro físico, não há factores de distração, como as notificações a dizer que não-sei-quem comentou não-sei-quê no Facebook, um pii a dizer que chegou um mail, nada disso. Estou a falar de um aparelho para ler livros apenas e só, um daqueles que, como disse o Miguel Esteves Cardoso, não é para quem não gosta de ler.


5. É muito mais confortável do que um livro para ler na cama. Por causa do virar da página, por causa da página da esquerda e da página da direita. Mas sobretudo no Inverno, quando está frio. Nem é preciso tirar a mão do quentinho.


6. Mas. Há sempre um mas. Recordo a pergunta esapafúrdia da minha (não muito) saudosa professora de Português do sétimo ano, enquanto conversávamos sobre o que eu tinha lido durante as férias: "E recordas-te de algum título?" Hein?! Se me recordava de algum título? Só de todos. E de todos os autores. Pois, esta parte não é assim tão fácil com o Kindle. Quando o bicho adormece, fica a contemplar-nos o retrato de um escritor famoso. Clássico. Já morto. Há duas ou três outras imagens, mas nada mais. Muitos têm sugerido que o protector de ecrã seja a capa do livro que se está a ler e eu começo a concordar completamente. Mais: peço que assim seja. É terrível gaguejar no nome de um autor, muitas vezs de um livro que se está a adorar e só consigo explicar que isto me aconteça porque não vejo a capa do livro. Parece pieguice, mas a sério que não é. De certa forma, os livros tornam-se impessoais. Como se não tivessem rosto. E não é por não se passar a página com os dedos, mas com um clique, não é pelo cheiro, que também faz falta mas não é bem assim. É mesmo o rosto que lhes falta.

terça-feira, 29 de maio de 2012

a palavra de ordem

Abuso de poder? Abuso de autoridade? De autoridade, certamente, não... Não a tem. Mas tem poder, isso sim. Quer dizer: não tem poder, mas age como se tivesse e a impressão que todos temos é que o seu poder é real. Era, talvez. É minha convicção que está a perder terreno, a própria o sente, parece-me. Mas a verdade é que de vez em quando corta e prega a seu bel-prazer, sem dizer nada. E que a palavra de ordem é poupar. Calma, nem tanto. Eu passo horas na bricolage, para poupar uma fotocópia, às vezes meia. Mas reduzir quatro páginas A4 a uma página só é mais do que eu tenho paciência para aturar. Não pode ser. Ainda por cima porque foi uma redução completamente arbitrária: nem houve o cuidado de eliminar as margens, enormes, nem de escolher a página com menos texto, ou com menor quantidade de texto importante. Foi a direito. Depois tirou novas fotocópias, foi quanto poupou.

terça-feira, 22 de maio de 2012

não escrevo em acordês


Aqui escreve-se, escrever-se-á sempre, em Português. Em bom Português. (Tenta-se)
Pode, portanto, concluir-se que aqui o povo é CONTRA o AO90. Muito contra. Tão contra que, no Facebook já pertenço a dois ou três grupos anti-acordistas. Já tenho amigos anti-acordistas. Já pus muita gente a assinar a ILC contra o AO. Escrevi ao Ministro da Educação e Ciência a apoiar a carta de Madalena Homem Cardoso. É verdade: como mãe e encarregada de educação preocupa-me que as minhas filhas aprendam a escrever com erros ortográficos. Ainda há dias mandei pôr o acento na "joia" que o Zequinha oferecia à fada. Ela avisou-me que no livro não tinha acento e eu disse-lhe que pusesse no livro também.
Quem quiser assinar a ILC diga. Ou quem quiser saber o que é. Estou completamente informada sobre o assunto.


Dizem-me que é tarde, mas eu continuo esperançada, mais esperançada ainda desde a poderosa pedrada no charco que foi a atitude de Vasco Graça Moura ao retirar o conversor ortográfico dos computadores do Centro Cultural de Belém nada mais tomar posse. Nunca poderemos, nós, Portugueses, agradecer-lhe o suficiente. Parafraseando Helena Matos, num texto a respeito de outro disparate pegado que não vem ao caso, eu, que sou empedernidamente optimista, acredito. Este famigerado AO90 vai morrer na praia. À sede.


Para meu grande espanto, não é fácil falar sobre este assunto. Muitas pessoas acham que não lhes diz respeito. Respondem com um encolher de ombros e informam que continuarão a escrever como sempre. Para estas, desculpem-me o comentário mauzinho, foi muito bom que o AO tenha sido implementado, porque de repente viram os filhos chegar a casa com os trabalhos da escola cheios de erros, porque os livros da escola passaram a ter erros - e assim perceberam que o assunto lhes diz respeito sim. E muito.
Uma das pessoas que me dizia que não era com ele respondeu-me "Que caos!" quando lhe mostrei isto. (Divirtam-se também. A sério que é hilariante. De quantas maneiras podemos escrever "correctamente" um endereço numa carta? Vá! Aceitam-se apostas!)


Uma das coisas que fiquei a saber através da carta de Madalena Homem Cardoso (quem me dera tê-la escrito...) foi que posso recusar-me a usar a nova grafia invocando objecção de consciência. Para que fique bem claro: eu enquadro-me perfeitamente no grupo dos objectores de consciência. Faço o que posso, juro que faço o que posso. Por exemplo: há já muitos anos, nas aulas de Língua Portuguesa, escrevo a data por extenso, com dia da semana, mês, tudo. Este ano regressei ao formato 22/05/2012. Porquê? Porque me recuso a escrever o mês com letra minúscula. Ponto.
Tenho lido, sobretudo no Facebook, que os professores deviam fazer uso do seu direito à desobediência civil (consagrado na nossa Constituição, fiquei a saber) para não seguirem a nova ortografia, visto que temos uma responsabilidade acrescida nisto do ensino da escrita. Pois. O pior é que não se reaprende a escrever de um momento para o outro (desaprende talvez seja mais adequado) e em 2014 todos os estudantes serão obrigados a responder a todas as provas de carácter nacional com erros ortográficos. E qual é o pai que, por muito descordista que seja, engolirá o sapo de ver o filho fora da Universidade por causa de umas décimas que o professor corrector lhe descontou em nome da desobediência ao texto do acordo? Isto é muito complicado. Eu não uso a nova grafia. Os meus alunos, embora muito jovens ainda, sabem que não uso e sabem porquê. Mas até quando poderei manter esta posição?


Somos um povo de emoções fortes. Regozijámo-nos com a consagração do Fado como Património Imaterial da Humanidade. A nossa Língua Portuguesa é maior do que o Fado, permitam-me. Vamos deixar que meia dúzia de irrresponsáveis levem a melhor, em nome de uma modernização que ninguém entende (que vai pôr Portugal inteiro a escrever com erros, a ler mal), movidos pelo dinheiro que algumas editoras vão ganhar com a venda de novos dicionários? É verdade: já se gastou muito dinheiro. Mas vai gastar-se muito mais dinheiro ainda, ou reparem: aqueles que têm filhos a aprender a ler acham bem que os livros da biblioteca da escola não estejam escritos de acordo com a ortografia vigente? Não há melhor meio para aprender a escrever do que a leitura. Se isto da nova (dis)ortografia for mesmo para a frente - eu acredito que ainda não está - as bibliotecas escolares serão lixo. As biblioteas escolares irão inteiras para o lixo.


Por favor, assinem a ILC. Para sermos muitos e acabar este meu (nosso) pesadelo. Porque eu a sério que acredito que vamos a tempo.

sábado, 19 de maio de 2012

na cozinha


Há dias estive para escrever isto, mas depois passou... Passou um segundo e já não escrevi nada.
Tinha feito uma massa com um daqueles molhos básicos, de tomate e azeite, e tinha sobrado imenso. Há que recordar: antes faça mal que se perca, não se deita comida ao lixo, etc. Então, para o jantar do dia seguinte, era preciso aquecer a massa, o que não se afigurava fácil, porque já tinha azeite e tomate chucha em cubos, numa recriação da bruschetta al pomodoro. Então, pensando nas massas que se converteram no meu novo fast food preferido, aqueci um pouco de azeite, acrescentei fiambre ao cubos (sort of), atum, milho, cogumelos e a massa, que já continha o tomate aos cubos.
Ficou. Uma. Delícia. Não é para me gabar. Uma massa aquecida que consegue ser um improvement em comparação com a da refeição original.


Nota: Não, não é a da foto.

fazes-me falta



Não, não falo do livro de Inês Pedrosa. Falo de uma amiga que me incita a escrever aqui.
Ela tenta fazer de mim uma blogger assídua, mas eu sou muito pouco disciplinada, essa é que é a verdade. Durante o dia, o tempo é pouco, que é como quem diz, quase nenhum. Depois do trabalho, é pura e simplesmente mentira. No fim das aulas sento-me durante uns segundos, que está para começar a maratona. Leia-se sentar em sentido figurado, que não tenho tempo para tais luxos.
Saio das aulas estourada. Tão estourada que a minha rotina de regresso a casa é diferente da de muitas pessoas que conheço, a começar pelo maridão. Quase todas as pessoas gostam de ouvir rádio no carro. Ou música. Que é uma forma de relaxar. Ele, que vai e vem da Maia todos os dias, aproveita o tempo para ouvir (alguma) da música que adora e que nunca tem tempo para ouvir em casa. Há quem se mantenha a par das últimas notícias, quem ouça informações de trânsito. Estas então a mim não me interessam mesmo nada. As estradas que me tocam, nas idas e vindas, são a)imunes a engarrafamentos ou b)pequenas de mais para serem contempladas nos noticiários das estações de rádio.
Tenho música, muita, de muito boa qualidade, que isso o maridão não descuida, mas não. Não ouço nada. Nos meus vinte minutos de carro duas vezes por dia, tudo o que me acompanha é o silêncio. O silêncio que idolatro, porque é algo só tenho mesmo durante aqueles bocadinhos. Nem antes, nem depois. Os meus dias são recheados de barulho. Em casa, as meninas, embora, faça-se justiça, não muito, ultimamente, de manhã. Na escola, os alunos. Nas aulas, na cantina, durante a hora de almoço, nos corredores, sempre. E de novo as meninas, agora sim, barulhentas, reivindicativas, pegadas uma com a outra, como irmãs que se prezam.
Ficamos então com as noites, para escrever, ler e todas as outras coisas que faríamos o dia inteiro se não tivéssemos de trabalhar. As noites? Quais? Aquelas em que adormecemos com as meninas, ora com uma, ora com a outra? E é que agora adormecemos os dois, um com cada uma... Não, as noites não são uma hipótese. Ou porque acordo toda partida às quatro da manhã, caso em que me apresso a meter-me na minha cama, para não "espalhar o sono", ou porque não adormeci com elas e aproveito para corrigir mais algumas composições, as minhas eternas composições. E, para dificultar ainda mas, decidi deixar de me deitar a horas pornográficas. Não consigo sempre. Não tenho suficiente força de vontade, mas ligar o computador é uma tentação a que tento resistir.
Bom, mas prometo. Prometo. Vou tentar escrever mais.