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Alexander Deineka
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terça-feira, 19 de junho de 2012

Saramago no exame de sexto ano


Raios partam a sorte. Houve um ano, há muitos anos, em que abri a primeira aula de um sexto ano de Língua Portuguesa com a leitura de "A Maior Flor do Mundo", o delicioso livro infantil de José Saramago.



Foi muito antes das minhas andanças mais a sério pelos contos e pelos projectos de leitura. Não me pareceu que os alunos tivesem gostado assim lá muito. Não foi por isso, mas a verdade é que eu nunca li este livro aos alunos que estão agora a fazer exame. Nem lhes mostrei o filme, uma curta-metragem disponível no YouTube, mas que tenho gravada no meu pc. Já me fartei de dar com a cabeça na parede. 



Se é difícil? É um texto literário, dos literários a sério. Não oferece uma leitura imediata, é mais para quem lê a sonhar. Como diz a professora da minha filha: não é para ser lido, é para ser ouvido. Resta-me saber se os meus aunos são capazes de ler como quem ouve. Não sei se o texto foi escrito para ser lido por crianças, talvez esteja mais pensado para ser lido a crianças. Por um adulto. Por um adulto que já o tenha lido, ou que tenha a capacidade de ir lendo antes, para depois ler. É lindo. É muito lindo. E se for bem lido não é nada difícil. Já foi lido na sala da minha filha, que anda no primeiro ano. E eles adoraram.

terça-feira, 21 de junho de 2011

o nosso ministro

Criaram no Facebook um grupo: "Nuno Crato a Ministro da Educação". Rapidamente adquiriu mais de meio milhar de seguidores, o que indicava que não - o Nuno Crato não seria Ministro da Educação, apesar do apoio recebido na rede social, até porque este apoio de rede social, se contar, é para trás.
Mas eis que.
Nuno Crato acaba de tomar posse como Ministro da Educação.
É bom demais para ser verdade.
Desde logo, espanta, até certo ponto, pelo menos a uma comum mortal que não o conhece a não ser de algumas coisas que vai lendo, vendo, ouvindo, que ele tenha aceitado o cargo. Primeiro, porque é de pensar que ele está acima destas coisas mesquinhas de ser ministro, de fazer parte do Governo. Em segundo lugar, porque não precisa deste cargo para nada: é mais do que respeitado, ninguém se atreve a contradizê-lo (como poderiam?). E depois porque o que ele diz é demasiado incómodo para o quererem para ministro. (Implodir o Ministério da Educação, lembram-se?)
Donde: ou a ideia é cortar-lhe as pernas (e a voz) de vez, encostá-lo a um canto, caso em que, ou muito me engano, ou ele demite-se não tarde nada, ou então temos, pela primeira vez desde que me lembro, um Governo que está seriamente preocupado com a educação no nosso país, com a educação dos nossos filhos, um Governo que está a falar a sério: de mudança.
"As Provas de Aferição são uma anedota." - sic, palavras do novo ministro. Já avisei os meus alunos. No próximo ano os cabeçalhos das provas mudam. Passam a dizer Exame. A sério que acho isto: quem tem a temer, neste momento, são os alunos - não os professores. Nós podemos até ter de trabalhar mais, mas eles vão ter de pedalar como nunca sonharam.
O novo ministro defende os exames. E a autonomia das escolas. Concordo com ambos: cada escola sabe o que é melhor para os seus alunos muito melhor do que qualquer ministério sediado na capital, tão longe daquilo a que nos habituámos a chamar Portugal real. Falo por experiência própria: a "minha" escola fica no meio de nenhures, alguns alunos acabam o nono ano e têm medo de ir estudar para Guimarães: a cidade é grande, não conhecem, têm medo de se perderem. Ou vão ter um afilhado e, entre a escola e o trabalho, optam pelo último: sempre terão dinheiro para lhe dar prendas. Quanto aos exames, parecem-me essenciais para devolver credibilidade ao sistema educativo. Vivemos uma era de facilitismo: um aluno que "queira" reprovar tem de meter requerimento, de preferência em papel azul de vinte e cinco linhas - aquele que já nem há. Só assim - responsabilizando os alunos pelo seu (in)sucesso escolar é que as coisas poderão mudar para melhor. Os alunos têm de deixar de ser os "coitadinhos". Não podemos dizer que, à luz da lei, a passagem de ano seja automática, claro que não, mas a verdade é que reprovar é cada vez mais difícil. E um Zequinha que já tenha uma reprovação na mochila só muito dificilmente terá segunda. Ou então... que seria das estatísticas?
É precisamente aqui que reside a minha esperança no novo ministro: ele não quer saber de estatísticas. Ele está preocupado com os resultados reais. E sabe que, para melhorar, primeiro tem de piorar. Vão chumbar muitos meninos - até ao dia em que perceberem que têm de estudar e, então, regressarão as boas notas.