Woman reading
Alexander Deineka
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terça-feira, 22 de maio de 2012
não escrevo em acordês
Aqui escreve-se, escrever-se-á sempre, em Português. Em bom Português. (Tenta-se)
Pode, portanto, concluir-se que aqui o povo é CONTRA o AO90. Muito contra. Tão contra que, no Facebook já pertenço a dois ou três grupos anti-acordistas. Já tenho amigos anti-acordistas. Já pus muita gente a assinar a ILC contra o AO. Escrevi ao Ministro da Educação e Ciência a apoiar a carta de Madalena Homem Cardoso. É verdade: como mãe e encarregada de educação preocupa-me que as minhas filhas aprendam a escrever com erros ortográficos. Ainda há dias mandei pôr o acento na "joia" que o Zequinha oferecia à fada. Ela avisou-me que no livro não tinha acento e eu disse-lhe que pusesse no livro também.
Quem quiser assinar a ILC diga. Ou quem quiser saber o que é. Estou completamente informada sobre o assunto.
Dizem-me que é tarde, mas eu continuo esperançada, mais esperançada ainda desde a poderosa pedrada no charco que foi a atitude de Vasco Graça Moura ao retirar o conversor ortográfico dos computadores do Centro Cultural de Belém nada mais tomar posse. Nunca poderemos, nós, Portugueses, agradecer-lhe o suficiente. Parafraseando Helena Matos, num texto a respeito de outro disparate pegado que não vem ao caso, eu, que sou empedernidamente optimista, acredito. Este famigerado AO90 vai morrer na praia. À sede.
Para meu grande espanto, não é fácil falar sobre este assunto. Muitas pessoas acham que não lhes diz respeito. Respondem com um encolher de ombros e informam que continuarão a escrever como sempre. Para estas, desculpem-me o comentário mauzinho, foi muito bom que o AO tenha sido implementado, porque de repente viram os filhos chegar a casa com os trabalhos da escola cheios de erros, porque os livros da escola passaram a ter erros - e assim perceberam que o assunto lhes diz respeito sim. E muito.
Uma das pessoas que me dizia que não era com ele respondeu-me "Que caos!" quando lhe mostrei isto. (Divirtam-se também. A sério que é hilariante. De quantas maneiras podemos escrever "correctamente" um endereço numa carta? Vá! Aceitam-se apostas!)
Uma das coisas que fiquei a saber através da carta de Madalena Homem Cardoso (quem me dera tê-la escrito...) foi que posso recusar-me a usar a nova grafia invocando objecção de consciência. Para que fique bem claro: eu enquadro-me perfeitamente no grupo dos objectores de consciência. Faço o que posso, juro que faço o que posso. Por exemplo: há já muitos anos, nas aulas de Língua Portuguesa, escrevo a data por extenso, com dia da semana, mês, tudo. Este ano regressei ao formato 22/05/2012. Porquê? Porque me recuso a escrever o mês com letra minúscula. Ponto.
Tenho lido, sobretudo no Facebook, que os professores deviam fazer uso do seu direito à desobediência civil (consagrado na nossa Constituição, fiquei a saber) para não seguirem a nova ortografia, visto que temos uma responsabilidade acrescida nisto do ensino da escrita. Pois. O pior é que não se reaprende a escrever de um momento para o outro (desaprende talvez seja mais adequado) e em 2014 todos os estudantes serão obrigados a responder a todas as provas de carácter nacional com erros ortográficos. E qual é o pai que, por muito descordista que seja, engolirá o sapo de ver o filho fora da Universidade por causa de umas décimas que o professor corrector lhe descontou em nome da desobediência ao texto do acordo? Isto é muito complicado. Eu não uso a nova grafia. Os meus alunos, embora muito jovens ainda, sabem que não uso e sabem porquê. Mas até quando poderei manter esta posição?
Somos um povo de emoções fortes. Regozijámo-nos com a consagração do Fado como Património Imaterial da Humanidade. A nossa Língua Portuguesa é maior do que o Fado, permitam-me. Vamos deixar que meia dúzia de irrresponsáveis levem a melhor, em nome de uma modernização que ninguém entende (que vai pôr Portugal inteiro a escrever com erros, a ler mal), movidos pelo dinheiro que algumas editoras vão ganhar com a venda de novos dicionários? É verdade: já se gastou muito dinheiro. Mas vai gastar-se muito mais dinheiro ainda, ou reparem: aqueles que têm filhos a aprender a ler acham bem que os livros da biblioteca da escola não estejam escritos de acordo com a ortografia vigente? Não há melhor meio para aprender a escrever do que a leitura. Se isto da nova (dis)ortografia for mesmo para a frente - eu acredito que ainda não está - as bibliotecas escolares serão lixo. As biblioteas escolares irão inteiras para o lixo.
Por favor, assinem a ILC. Para sermos muitos e acabar este meu (nosso) pesadelo. Porque eu a sério que acredito que vamos a tempo.
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