Não somos muito de rituais, cá em casa. Fazemos tudo com algo de improviso, sempre. A única excepção é a hora de deitar. Não no que diz respeito à hora, que essa é sempre mais ou menos, mas na ordem de trabalhos.
O nosso rirual diário, aquele que não dispensamos nunca, é o de ler às meninas, à hora de deitar. Quando está na hora de deitar, e a hora de ditar é sempre mais ou menos, desligo o telemóvel, visto o pijama e arranjo-me como se fosse hora de me deitar também. Não é e a minha esperança é conseguir adormecer as meninas e voltar para o meu trabalho, que é sempre muito, ou para o meu livro. Mas na verdade adormeço com elas as mais das vezes, por isso me preparo como quem diz até amanhã. Escolhemos o que vamos ler - a pequena, mais segura do seu querer, escolhe conto atrás de conto, ordenando "Lê!". E eu leio. Primeiro a uma, depois a outra, deito-me com uma e abraço-a até que durma, deito-me com outra e abraço-a até que durma. E então é aí. É aí que o tempo pára. Não existe mais nada. Não há testes para corrigir, não há aulas para preparar, não há mails, estados do Facebook, roupa para estender. Nada. Aquela é a minha hora da paz. Percebi isto recentemente com uma clarividência extraordinária. Tenho andado sob uma tensão nervosa tremenda. Tem-me acontecido algo que já me haviam descrito, mas que nunca tinha percebido bem. Acordo de manhã, muito cedo, eu que durmo sempre até tarde, e não aguento ficar na cama. Como se tivesse uma pedra pesada em cima do peito, a esmagar. Essa pedra fica cá dentro todo o dia, o coração bate pesado, todo o dia. E a pressão da pedra, dura, pesada, só alivia à noite, na cama delas, enquanto lhes leio, enquanto as abraço e espero que adormeçam.
Há um milhão de autores que advogam a favor da leitura pelos pais aos filhos à hora de deitar, como ritual de transição entre o dia e a noite. Que é útil para criar laços, que faz bem às crianças. É preciso dizer que este ritual faz bem aos pais também. Nós precisamos dele tanto ou mais que os nossos filhos.
Woman reading
Alexander Deineka
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segunda-feira, 23 de julho de 2012
quarta-feira, 18 de maio de 2011
a fada desastrada
Tu sabes que as fadas são lindas e prendadas. Mas a Fada desastrada nasceu errada...
Era feia, gorda, desajeitada. O penteado estava sempre desmanchado. Trazia o manto do avesso e tinha um sorriso tão travesso!... Era traquina como qualquer menina e era até capaz de ter traquinices de rapaz. Atirava fisgadas às pessoas despreocupadas, puxava o rabo ao gato... Era um desacato!
Era feia, gorda, desajeitada. O penteado estava sempre desmanchado. Trazia o manto do avesso e tinha um sorriso tão travesso!... Era traquina como qualquer menina e era até capaz de ter traquinices de rapaz. Atirava fisgadas às pessoas despreocupadas, puxava o rabo ao gato... Era um desacato!
Segundo o teste que pode encontrar aqui, eu pertenço à categoria de "Mamã Fada", aquela que conversa com a Mamã Coca-Cola ao telefone com uma mão, enquanto faz o jantar com a outra, no livro "Um Mundo de Mamãs", que é maravilhoso.
Não sei se sou. Tal como Sócrates - não este, aquele... - só sei que nada sei. Tento, como todas nós, fazer o melhor que posso ou sei, mas às vezes (muitas vezes) posso muito pouco, sei ainda menos.
Acho que sou mais como a fadazinha da Renata Gil: desastrada.
É um dos contos mais bonitos que já li. Está bem, eu sei: tenho imensos nesta categoria... Mas a sério: é tão bonito! Todo ele em prosa, todo ele rima.
É o texto do teste que vou dar na quinta-feira aos meus meninos do quinto ano - acabei de o fazer agora, por isso o tenho tão presente. E, como quem se desculpa, não reisto a mais um excerto. Desculpem lá.
Bem, eu estava destinada a ser um modelo de perfeição, mas nunca mais nascia, e quando "cá cheguei" já era quase dia! As fadas estavam ensonadas e as palavras saíram-lhes erradas! Nem me tocaram com a estrela da varinha, como convinha, mas com o lado oposto! A mim, até me dava gosto fazer o que me apetecia... e quando via as outras admiradas... dava gargaladas!
terça-feira, 17 de maio de 2011
a respeito de vir no jornal
Dizia eu, quando enviei a foto da página do jornal, tirada com o meu Android, que era um sonho realizado. A ver se me faço entender: o meu sonho não era vir no jornal. Quem me conhece sabe que não sou dada ao estrelato. Sou mais low profile, fico sempre espantada quando alguém se lembra de mim da Escola, do Colégio...
Não, o meu sonho não era aparecer no jornal, embora, em boa verdade, tenha sido eu a procurar o jornal - e não o contrário.
O meu sonho era, é, mostrar aos outros que a leitura pode ser um prazer. Que ler é o maior prazer que se pode maginar, que é a melhor maneira de se estar sozinho.
Os meus alunos, aqueles que estão agora na Oficina, são a realização deste meu sonho... duas vezes. Primeiro, porque descobriram o prazer de ler, aprenderam a amar a leitura, os contos. E depois porque estão a passar palavra: estão a mostrar aos colegas mais novos que ler é bom, que ler é mágico, como eles próprios dizem.
Não, o meu sonho não era aparecer no jornal, embora, em boa verdade, tenha sido eu a procurar o jornal - e não o contrário.
O meu sonho era, é, mostrar aos outros que a leitura pode ser um prazer. Que ler é o maior prazer que se pode maginar, que é a melhor maneira de se estar sozinho.
Os meus alunos, aqueles que estão agora na Oficina, são a realização deste meu sonho... duas vezes. Primeiro, porque descobriram o prazer de ler, aprenderam a amar a leitura, os contos. E depois porque estão a passar palavra: estão a mostrar aos colegas mais novos que ler é bom, que ler é mágico, como eles próprios dizem.
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