Do grego kátharsis, «purificação»
s. f.
| 1. | purificação emocional |
| 2. | LITERATURA (Aristóteles) purgação das paixões do público em face das emoções fortes (horror, piedade, etc.) evocadas numa tragédia |
| 3. | (Antiguidade) cerimónias religiosas de purificação |
| 4. | PSICOLOGIA terapêutica psicanalítica que pretende o desaparecimento de sintomas pela exteriorização verbal, dramática,emocional de traumatismos recalcados |
| 5. | MEDICINA evacuação |
Vem a propósito de uma reportagem na Revista do Público de hoje, "O fim da amizade é um tabu".
Mesmo.
Eu sou uma dessas que sofreu o fim de uma amizade. Não trato o tema como um tabu. Pelo contrário, falo muito do assunto, com muita paixão. Não posso dizer que não compreendo o que se passou, porque acho que sei perfeitamente o que foi. Não perdoo. Nunca. (E conheço-me o suficiente para saber que este nunca quer dizer mesmo nunca.)
Um dos meus lugares-comuns preferidos é o seguinte. A Humanidade está dividida em três grandes grupos: os que têm filhos, os que não têm filhos e os que têm escrito na testa que nunca na vida terão filhos. Nem que chovam picaretas.
O primeiro grupo somos nós, claro. Nós, que sabemos o que é não dormir e andar feliz com isso. Nós, que sabemos a que horas nos deitamos, mas nunca por nunca temos a mais pálida ideia de quanto tempo vamos dormir seguido. (E que mesmo assim estamos aqui a estas horas...) Nós, que corremos para o Infantário, mesmo sabendo que a partir daí não teremos mais sossego. Nós, que os enchemos de beijos, mesmo quando nos estão a arruinar mais uma noite de sono entre um dia de enxaqueca de morrer e outro de maratona de reuniões. Nós, que sabemos ao que sabe "aquele abraço".
O segundo grupo é o das pessoas que não têm filhos pelas razões mais variadas, ou que ainda não têm filhos.
Depois há os outros, os das teorias, o do preto e branco. Li há muitos anos uma citação fantástica (sim, sou a mulher das citações): "Antes de casar, eu tinha cinco teorias sobre como educar os filhos. Agora, tenho cinco filhos e nenhuma teoria." Nem de propósito: o número de filhos exacto para que cada um desse conta de uma teoria inteirinha. Os que não sabem que a maternidade é a eterna aprendizagem da arte da cedência: ceder onde? quanto? Não ceder onde? intransigentemente? Ter filhos transforma a nossa vida numa paleta de cores de fazer inveja ao próprio arco-íris.
Ela pertence a este grupo, o das teorias. Tinha uma perfeitamente lunática: "Quando ela puder começar a comer bolachas, claro que não lhe vais comprar, vai fazer em casa, para serem mais saudáveis!" Excuse me...?! E o tempo, santinha, o tempo? (E a necessidade, vá?)
Mas ainda antes dos filhos. Muito antes dos filhos. Que eu tenho e ela não. (Tem o tal carimbo na testa.)
Sinto-me usada. Sinto que me usou enquanto precisou e depois pôs na beira do prato. Assim. Esteve sozinha muito tempo, fez da minha casa quartel-general, fiz-lhe mais companhia do que devia, essa é que é essa. Depois tive a minha primeira filha, convidei-a para madrinha, porque era a pessoa mais próxima, fez muita questão do baptizado, coisa que eu até nem fazia, e, duas semanas antes do baptizado, desencalhou, quer dizer: arranjou namorado novo, nunca mais apareceu. Nunca mais quer dizer duas vezes por ano, em média. Por exemplo, não vê a afilhada desde antes do Natal. (Recordo que estamos em Junho.)
Se não me engano, deve ter ficado muito sentida comigo por este motivo extraordinário: morreu om meu sogro, fez hoje dois meses. E eu que nem lhe tinha dito que ele estava doente... Soube dois dias antes, telefonou na véspera com um daqueles então-que-se-passa? melosos de quem está a pensar numa coisa completamente diferente, tipo long-time-no-see, em vez de um senhor submetido diariamente a radioterapia.
Mas quer dizer... achava que lhe ia ligar a expor o sofrimento do meu sogro, de nós todos? Não fizemos isso. Nem com ela nem com ninguém. Uma das coisas que as pessoas merecem quando estão doentes é privacidade.
Que queria aparecer, que tem a prenda para a Margarida, que não estava cá no próximo fim de semana, que não ficasse à espera que ela ligasse e que ligasse eu também E lá vai mais de um mês e meio. Santa paciência. Seria tão bom que as pessoas que desaparecm tivessem pelo menos a decência de desapareceram... O que não perdoo é a minha filha a perguntar por que é que ela não aparece. Não perdoo a mim própria. Que estúpida.

Sem comentários:
Enviar um comentário