Woman reading

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Alexander Deineka

terça-feira, 5 de junho de 2012

catarse



Do grego kátharsis, «purificação»
s. f.
1.purificação emocional
2.LITERATURA (Aristóteles) purgação das paixões do público em face das emoções
fortes (horror, piedade, etc.) evocadas numa tragédia
3.(Antiguidade) cerimónias religiosas de purificação
4.PSICOLOGIA terapêutica psicanalítica que pretende o desaparecimento de
sintomas pela exteriorização verbal, dramática,emocional de traumatismos
recalcados
5.MEDICINA evacuação


Vem a propósito de uma reportagem na Revista do Público de hoje, "O fim da amizade é um tabu".
Mesmo.
Eu sou uma dessas que sofreu o fim de uma amizade. Não trato o tema como um tabu. Pelo contrário, falo muito do assunto, com muita paixão. Não posso dizer que não compreendo o que se passou, porque acho que sei perfeitamente o que foi. Não perdoo. Nunca. (E conheço-me o suficiente para saber que este nunca quer dizer mesmo nunca.)


Um dos meus lugares-comuns preferidos é o seguinte. A Humanidade está dividida em três grandes grupos: os que têm filhos, os que não têm filhos e os que têm escrito na testa que nunca na vida terão filhos. Nem que chovam picaretas.


O primeiro grupo somos nós, claro. Nós, que sabemos o que é não dormir e andar feliz com isso. Nós, que sabemos a que horas nos deitamos, mas nunca por nunca temos a mais pálida ideia de quanto tempo vamos dormir seguido. (E que mesmo assim estamos aqui a estas horas...) Nós, que corremos para o Infantário, mesmo sabendo que a partir daí não teremos mais sossego. Nós, que os enchemos de beijos, mesmo quando nos estão a arruinar mais uma noite de sono entre um dia de enxaqueca de morrer e outro de maratona de reuniões. Nós, que sabemos ao que sabe "aquele abraço".


O segundo grupo é o das pessoas que não têm filhos pelas razões mais variadas, ou que ainda não têm filhos.


Depois há os outros, os das teorias, o do preto e branco. Li há muitos anos uma citação fantástica (sim, sou a mulher das citações): "Antes de casar, eu tinha cinco teorias sobre como educar os filhos. Agora, tenho cinco filhos e nenhuma teoria." Nem de propósito: o número de filhos exacto para que cada um desse conta de uma teoria inteirinha. Os que não sabem que a maternidade é a eterna aprendizagem da arte da cedência: ceder onde? quanto? Não ceder onde? intransigentemente? Ter filhos transforma a nossa vida numa paleta de cores de fazer inveja ao próprio arco-íris.
Ela pertence a este grupo, o das teorias. Tinha uma perfeitamente lunática: "Quando ela puder começar a comer bolachas, claro que não lhe vais comprar, vai fazer em casa, para serem mais saudáveis!" Excuse me...?! E o tempo, santinha, o tempo? (E a necessidade, vá?)


Mas ainda antes dos filhos. Muito antes dos filhos. Que eu tenho e ela não. (Tem o tal carimbo na testa.)


Sinto-me usada. Sinto que me usou enquanto precisou e depois pôs na beira do prato. Assim. Esteve sozinha muito tempo, fez da minha casa quartel-general, fiz-lhe mais companhia do que devia, essa é que é essa. Depois tive a minha primeira filha, convidei-a para madrinha, porque era a pessoa mais próxima, fez muita questão do baptizado, coisa que eu até nem fazia, e, duas semanas antes do baptizado, desencalhou, quer dizer: arranjou namorado novo, nunca mais apareceu. Nunca mais quer dizer duas vezes por ano, em média. Por exemplo, não vê a afilhada desde antes do Natal. (Recordo que estamos em Junho.)
Se não me engano, deve ter ficado muito sentida comigo por este motivo extraordinário: morreu om meu sogro, fez hoje dois meses. E eu que nem lhe tinha dito que ele estava doente... Soube dois dias antes, telefonou na véspera com um daqueles então-que-se-passa? melosos de quem está a pensar numa coisa completamente diferente, tipo long-time-no-see, em vez de um senhor submetido diariamente a radioterapia.
Mas quer dizer... achava que lhe ia ligar a expor o sofrimento do meu sogro, de nós todos? Não fizemos isso. Nem com ela nem com ninguém. Uma das coisas que as pessoas merecem quando estão doentes é privacidade.
Que queria aparecer, que tem a prenda para a Margarida, que não estava cá no próximo fim de semana, que não ficasse à espera que ela ligasse e que ligasse eu também E lá vai mais de um mês e meio. Santa paciência. Seria tão bom que as pessoas que desaparecm tivessem pelo menos a decência de desapareceram... O que não perdoo é a minha filha a perguntar por que é que ela não aparece. Não perdoo a mim própria. Que estúpida.

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