Ana Josefa Rosa nasceu no número 104 do Largo do Toural. No rés-do-chão haveria de ser o Nicolino, em frente ao Ferreira da Cunha, mas isso daí a uns anos. Nunca foi uma assídua frequentadora do café, não ficava bem a uma menina, mas não resistia a um galão com uma torrada ao regressar do mercado, às quintas de manhã. Outras saídas, pouco mais do que ao Oliveira e Silva dos tecidos. As raras visitas que lá fazia eram antecipadas com a emoção do anúncio solene:
- Na próxima semana vamos comprar pano para vestidos novos.
Era uma alegria atravessar a praça pela calçada cheia de história, com cuidado para não pisar as armas. Não mais sossegavam as meninas. Pela vaidade da nova toilette, à espera de ocasião que a merecesse, mas também por saberem que a Mariquinhas costureira lhes havia de aproveitar as sobras dos vestidos para as bonecas.
Os dias da meninice passaram sem outra distracção que não fosse a de ir à janela ver quem ia e vinha, quem entrava e saía das lojas, o mudar das cores das árvores e o colorido das flores, sempre lindas, viçosas. O que de verdade quebrava a rotina do dia a dia era o bater dos sinos na igreja, cantando o hino aos bocadinhos. Ao meio-dia, para o ouvir inteiro, fazia-se silêncio em casa. Um silêncio de cada um, que não era hora de parar as tarefas da preparação do almoço – o pai não tardava a chegar. As tardes gostava de as passar à janela, bordando, caseando botões, sempre espiando as janelas da frente e ansiando lá viver para ver de frente a igreja, a que acudia todas as primeiras sextas-feiras do mês, para se confessar.
Foi viver para outra fachada, de facto, embora não a da frente, mas podia já ver a igreja. Melhor: via começar a alameda e a grande avenida. Isso foi quando casou. Aí teve os filhos, três, que a vida já não permitia os sete que a mãe tivera. Era um bom sítio para os catraios, que iam e vinham da escola, para a rua com os amigos, que estavam sempre por ali, de passagem de e para toda a parte. Haveria lugar mais central no mundo, mais bonito de se ver das janelas, perguntava-se Ana Josefa Rosa, sorrindo, esperando por netos que levasse a passear, sentar nos bancos do jardim a dar migalhas aos pombos. Haveria, com certeza, mas não chegou a conhecê-los. Faltava o dinheiro, sem dúvida, mas sobretudo a vontade de sair de casa. Os antigos eram assim. Quando muito ia à Póvoa, molhar os pés no Verão.
A notícia parou-lhe o coração. Os filhos, um em cada lado, em apartamentos modernos, conversaram e decidiram: era melhor e escolheram-lhe o melhor. Explicaram-lhe devagar que não podia subir e descer aquelas escadas todas, uma sala em cada piso, a cozinha em cima, o quarto em baixo, essas coisas. Não ouviu. Aquele não ouvir de quem quer que não seja verdade. No dia marcado, vieram, meteram numa mala o que acharam que era preciso. Meteram na mala tudo menos o que era preciso. De vez em quando, quando um aparecia, pedia-lhe que a levasse a ver o Toural. Que sim, um dia destes, quando vier com mais vagar. Esse dia tardou tanto a chegar que desistiu da espera. E quando vieram com tempo, sem nada para que correr, não foi para a levarem ao Toural. Também não tinha assim tanta importância, afinal.
