Desta vez não foi nos Estados Unidos. Nem da outra.
Às vezes parece que há uma espécie de mania de dizer que as coisas horrendas acontecem “claro” nos Estados Unidos. Em primeiro lugar, note-se que os Estados Unidos são do tamanho de um continente e têm uma população imensa. A quantidade de notícias que chegam de lá têm de ser observadas à luz desta realidade, já dizia um colega meu ao professor de História do nono ano, quando este, comuna, anunciava que, em números absolutos, lá há mais analfabetos do que cá.
A verdade é que os mais hediondos casos de rapto, sequestro, etc., etc., têm chegado da Áustria. Áustria. País idóneo, paraíso, achávamos. Donde: a Áustria é um país de monstros. Não, claro que não, mas serve para percebermos que os monstros estão onde estão, não nos países que Deus não vê e os Estados Unidos não têm, de todo, o exclusivo.
A história de Natasha Kampush é arrepiante, mas a de Elizabeth Fritzl está para além da nossa (minha) capacidade de imaginar, de descrever. Não conheço adjectivos adequados à monstruosidade do que o pai lhe fez. O pai. Um homem que diz que nasceu para violar.
Ainda não consegui decidir se sou ou não a favor da pena de morte, mas a verdade é que há casos em que até isso soa a pouco. E, no caso dele, morrer é pouco. O que ele merece é sofrer. Sofrer muito. O ideal seria fazê-lo sofrer tanto como ele fez sofrer a filha, mas isso é impossível. Ela teve não sei quantos filhos, mais um aborto, sem qualquer assistência de qualquer espécie: nem médica, nem nenhuma. Apenas na presença do monstro que lhos tinha feito, à força, à frente dos outros filhos. A justiça que lhe deveriam aplicar era passar pelo mesmo que ele a fez passar, mas isso é impossível.
Só é pena que tenha sido num país em que as cadeias se parecem com hotéis de luxo. Era bom se o mandassem para o Brasil ou um país assim. Disseram alguns comentadores no Público, mas eu a sério que já tinha dito. Punham-no numa cela de dez, mas em que estão cinquenta. Aí teria tratamento condigno.
Eu sei que isto já tem muito tempo, já toda a gente escreveu tudo. Também já li no Pedro Mexia, tenho pena de não ter escrito primeiro: esta Elizabeth Fritzl é uma heroína. Mesmo. Passar por tudo o que ela passou e conseguir ter pelos filhos aquele sentimento que as mães têm pelos filhos. Conseguir instruí-los, educá-los na religião que lhe ensinaram a ela. Li nesse texto do Pedro Mexia, não sei onde, que os polícias que trouxeram “para cima” as crianças que continuavam no bunker quebraram quando o mais novo apontou para o céu e perguntou: “É ali que está Deus?”
Deus? É caso para perguntar.
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