De repente lembrei-me que tenho uma história parecida com aquela que aparece no início de “O Principezinho”. Lembram-se, quando o narrador, ainda menino, mostrava um desenho a todos os adultos que encontrava e nenhum percebia que se tratava de uma jibóia a digerir um elefante, enquanto o Principezinho nem hesitou na resposta?
Eu estava, na altura, a ler “A História Interminável”, de Michael Ende. É a história de Bastian Baltazar Bux, um rapaz de doze ou treze anos a quem os colegas de escola roubam diariamente o lanche, dinheiro, o que puderem. Num desses dias, tentando fugir-lhes e depois de se ter escondido num contentor de lixo, abre a primeira porta que encontra e entra – para, mais uma vez, se esconder dos colegas. Sem saber, aquela porta abre a loja de um alfarrabista velho e rabugento. Bastian é um amante de livros, uma criança que devora livros em todos os locais e a todas as horas. Ver-se de repente num alfarrabista dá-lhe a sensação de ter entrado no paraíso propriamente dito. O velho está sentado a uma mesa a ler um livro que parece muito antigo e, claro, Bastian não consegue deixar de perguntar que livro é aquele. Numa resposta evasiva, o velho diz-lhe que é um livro perigoso, que ele não deve ler. De repente, toca o telefone, num escritório na parte de trás da loja e o alfarrabista afasta-se para atender, não sem antes recomendar que Bastian podia pegar em qualquer livro, menos naquele. Ora aqui está a última coisa que se pode dizer a uma pessoa completamente viciada
Este, por sua vez, é giríssimo, porque está impresso a duas cores: bordeaux para o que se passa na Terra, com Bastian, verde para o que se passa no reino de Fantasia, para onde Bastian é transportado através da leitura. Sensivelmente a meio da história, Bastian é chamado, por ser aquele que está neste momento a ler o livro, a resolver um problema que está a colocar em causa a continuidade da existência do próprio reino de Fantasia: a Imperatriz Menina está a morrer e precisa de um novo nome. Meio incrédulo, Bastian lá pronuncia em voz alta, tal como o livro exige, o nome que escolheu e é imediatamente transportado para o reino de Fantasia, onde vive as mais fantásticas aventuras, de todos os tipos.
Eu tentava, a meio da minha leitura, não tão mágica, apesar de tudo, explicar a história a um adulto, que prontamente me respondeu: “se é em fantasia, não existe”. “Existe, insisti, existe porque ele vai para lá.” Perante a “razão” que eu compreendia que o adulto tinha e a sua aparente incapacidade de compreender a razão que eu tinha, preferi calar-me, pensando que ele seria bem mais feliz se tivesse lido um livro como aquele quando era criança.
Sem comentários:
Enviar um comentário